JUMA MARRUÁ

No Pantanal ouvi o silêncio pela primeira e única vez. É incrível o estrondo provocado pela ausência de som. Vem como um choque; é preciso girar a cabeça em várias direções para ter certeza, olhar para o céu azul e, depois da confirmação de que está tudo em ordem, sorrir.

O fato se deu em fevereiro de 1997, época de cheia no Mato Grosso do Sul. Com as chuvas, os rios transbordam pela planície e criam lagoas, lagos e as chamadas vazantes, regiões baixas para onde o excesso da água vai. Saí de barco da fazenda Barra Mansa e segui sem rumo (ou ao que o proprietário do local imaginava ser um destino) pelo Rio Negro num dia quente de sol forte. Alguns minutos passando por paisagens que só havia visto na novela Pantanal (dã), o barco parou no meio de uma grande vazante. Estava sobre um trecho de terra, que era usada como estrada nos meses secos, margeada pelo pasto do gado _que ficava supernutritivo depois que a água do rio, antes de secar, deixava uma camada fértil de matéria orgânica. O motor do barco é desligado, as pessoas se calam, e os pássaros e árvores farfalhantes das margens estão distantes o suficiente para não se fazer ouvir. E veio o silêncio. O nada sonoro. Nem a água nem o vento faziam som. É desconcertante porque, para um sujeito urbano e semi-avesso à natureza, parecia um “problema” dos meus ouvidos. Problema, descobri ali, era o barulho a que estava sujeito 24 horas por dia sem perceber. Foi lindo por dois motivos: pelo ineditismo do fato e porque o silêncio é grandioso. Só isso já bastaria a viagem.

O calor era forte e, claro, mergulhei no rio Negro, nome dado pela cor da água. Piranhas e jacarés o anfitrião garantiu que não havia. Que a cor da água é escura vê-se do barco. Mas que você fica da cor de coca-cola dentro d’água, não fazia idéia. Na altura dos pés, o pasto mais fértil que existe (palavras de pantaneiro) e mais adiante a areia da estrada por onde passam carros e utilitários nos meses mais secos/inverno. Todo mundo tem de mergulhar numa estrada um dia.

Depois o passeio foi de camionete, todos na caçamba. Muitas capivaras. Muitas. Vi uma que estava numas moitas no centro de um laguinho. Saiu correndo. Mais uma a segue. Depois outra. E mais outra e mais outra, numa escadinha etária. Família unida e animada.

Mas os olhos estavam em busca do temido jacaré e atentos aos galhos da árvores para não nos decepar. De repente, dúzias de olhos imóveis dos répteis distribuídos numa lagoa. Como havia olhos perto da margem, o anfitrião alertou para não descermos da camionete. Claro que desci. Os bichos continuavam estáticos. O jacaré é um animal curioso, vê a vida passar na janela da sua lagoa com uma tranquilidade invejável. Aquele momento era dele, e ninguém o importunaria. Coisa de réptil, a classe mais zen do reino animal. Nada aconteceu, nenhum jacaré estava a fim de nada. Acho que pode-se dizer que vi jacarés, apesar de não enxergar o corpo deles. Metonímia existe para isso.

Para chegar à fazenda Barra Mansa, a 130 km de Aquidauana (e considerada dessa cidade; Grande Aquidauana?), fui num monomotor desde Campo Grande. Era um avião para quatro passageiros, com vidro traseiro. De cima via a abertura da novela sucesso da Rede Manchete passar por baixo. Várias lagoas por toda parte que refletiam o sol; ali era o nada que descobri depois ser um universo de vidas. Antes de aterrissar no minipasto da fazenda, o avião arremeteu. Que beleza, era só que o faltava. Um porquinho entrou na “pista” de pouso e forçou a manobra do piloto. Foi só uma pequena descarga de adrenalina antes de ouvir o silêncio poucas horas depois.

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