Archive for março \30\UTC 2015

Caetano Veloso

30/03/2015

Umas 4 horas de quase 50 anos de carreira:

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Quando Elis Regina morreu

20/03/2015

A matéria da Veja (nada a ver com a revista de hoje) sobre a morte de Elis Regina, de 27/01/982, tem trechos muito bons:

– “A cantora Maysa garantia ter a prova de que faltava caráter a Elis: ela a teria induzido a beber numa noite, para derrubar sua apresentação num palco que ocupava em seguida. A acusação seria indiscutível se viesse de um semi-abstêmio como Roberto Carlos. Maysa, porém, dificilmente precisaria ser induzida a mais um copo”.

– “Teve um rápido romance há um ano com o cantor Fábio Júnior e, ao encerrá-lo, fulminou o ex-namorado: “Ele foi como um sorvete, gostoso e rápido, mas brigamos quando eu disse que ele estava com saudade do plim-plim da Globo”.

– “Num único dia da semana passada, a Odeon, gravadora do seu último LP, Elis Regina, recebeu 19 000 pedidos de cópias do disco, que vendera nos últimos dois anos modestas 50 000 unidades.”

– “Metódica, acompanhava atentamente a educação dos filhos, a arrumação dos copos, e era capaz de irritar-se se as suas meias coloridas fossem arrumadas fora da escala cromática que pacientemente concebera.”

– “De Elis Regina ficou a voz, exatamente o que esse complexo ser humano tinha de melhor.”

– “Antes da divulgação do laudo, no início da noite de quarta-feira, o diretor do IML, o polêmico legista Harry Shibata, telefonara para um amigo , o diretor do DOPS, Romeu Tuma, com uma dúvida. “Só me restam, a esta altura, duas hipóteses”, expôs Shibata. “Ou foi barbitúrico ou então a ingestão de cocaína com álcool, por via oral, que provocaram a morte. Você sabe me dizer se alguém toma cocaína diluída em líqüido?”

– “a lei manda que ela seja esclarecida por todos os meios, a começar pela autópsia, e acobertar o assunto o beneficia, em última análise, ao traficante que vendeu a Elis as drogas que a mataram.”

– “Seu velório estava enfeitado com uma constelação de astros de cinema, televisão, música e dança, como Lennie Dale, que foi preso em fevereiro de 1971, no Rio, com um enorme pacote de maconha.”

– “Os jornais da Globo dedicaram a Elis uma quantidade extras só comparável às da morte do presidente Annuar Sadat e do atentado contra o papa João Paulo II.”

– “A cocaína surgiu na sua viagem, aos EUA no início de 1981 para acertar a gravação de um disco com o saxofonista Wayne Shorter. Antes disso, ela consumia cerveja e vodca.”

– “Pelo menos um dos ex-namorados de Elis, o compositor paulista Guilherme Arantes, 28 anos, viu-a cheirando cocaína, durante o tempo em que andaram juntos no começo de 1981, no Rio de Janeiro.”

– “É possível, porém, que Elis jamais tenha sido viciada, nessa droga. Sua relação com a cocaína, provavelmente, insere-se no mesmo tipo em que estão alguns milhares de brasileiros, a maioria deles fora do meio artístico, ou intelectual – e que buscam nesta droga potente um socorro eventual.”

– “A melhor explicação, e a única capaz do desembocar num copo onde se misturam álcool e cocaína às 10 horas da manhã, está numa competitividade exacerbada.”

– “Arthur Conan Doyle encontrou no pó alguns dos complexos estratagemas vividos polo seu personagem Sherlock Holmes. Mas se o escritor usava a cocaína para divagar, outro consumidor, o papa Leão XIII, se valia dela como uma ajuda temporal para resolver os assuntos da Igreja.”

e os melhores trechos:

– “a cocaína, com sua ação sobre o córtex cerebral, difere das drogas popularizadas na década do 60, que se poderiam chamar de produtos do “esquerda”. Ela é essencialmente da “direita”: é a droga de quem não quer novidades, mas apenas poder. A cocaína faz do preguiçoso um prodígio de energia, do tímido um audaz, do lento um rápido, mas, na essência, não traz nenhuma idéia.”

– “a cocaína não entrou no quarto de dormir do Elis pela porta do modismo, mas precisamente pelo pique, pela sustentação que dá ao competitivo, pela segurança fugaz que oferece aos tensos. Nesse sentido, o próprio pó é a quintessência do caretismo.”

Português/comportamento avançado para estrangeiros

01/03/2015

Você sabia que no Brasil vc pode ser considerado rude ou “formal” se cumprimentar, se desculpar, agradecer ou pedir licença? Sim!

Por exemplo: Se você disser bom dia todos os dias para a mesma pessoa (no trabalho, p. ex.), isso pode fazer com que vc seja considerado “mala”. “Ai, lá vem o gringo falar bom dia de novo.”

O segredo está na entonação (tudo no Brasil é uma questão de entonação apropriada, como veremos adiante). Ou, o mais indicado, intercale o bom dia (diga-o umas 2x por semana) com um “oi, tudo bem?”. Ou não diga nada, apenas arqueie a sobrancelha e aponte o queixo na direção do interlocutor, se você fizer contato visual. Nós não vamos considerar essa grosseiria algo rude.

Isso vale para pessoas com quem você não encontra com frequência também. Mas, claro, pode dizer bom dia e boa noite (mas atenção ao dizer boa tarde, que só é válido entre 12:00 e 18:00, ou enquanto houver sol. Nós não cumprimentamos, mas sabemos muito bem qual seria o cumprimento correto se cumprimentássemos, de modo que você pode ser advertido por dizer bom dia às 14:00. Com simpatia, claro.)

Muito utilizado é o “pá”, não como o “pá” lusitano; esse é  “opa”, sem o “o”. O “opa” é um cumprimento sem a intimidade do “oi” nem a formalidade de um “bom dia”. É, basicamente, um muxoxo, e isso diz muito dos brasileiros, então pode ir nessa.

Também é visto com estranheza se você cumprimenta alguém inferior a você (no Brasil consideramos inferiores as pessoas visivelmente mais pobres que nós). Ou seja, ao fazer um pedido na padaria ou a um garçom (que o tratará por algo que varia entre “meu amor” e “patrão”), não diga bom dia/boa noite nem oi, vá já direto ao pedido. Mas atenção à entonação! Isso, sim, é fundamental. Então comece a frase com um sorriso (os brasileiros têm um talento especial de serem escrotos com simpatia) e diga levemente cantado e quase sensual: “Me vê dois pãezinhos. Bem morenhinhos, tá?”. Sem “por favor”. Ou você que ser visto como um sujeito “formal”? 

O “com licença”, assim como o “por favor”, é outro caso complicado, porque é uma expressão de civilidade composta por DUAS PALAVRAS. Você pode calcular o esforço que é para os brasileiros dizerem isso. Então eles não dizem nada, eles apenas o empurram ou invadem levemente o seu “espaço pessoal”, de modo a deixar bem claro que o Mogli em questão quer passar e não quer abrir a boca pra isso. 

Os mais educados sibilam um troço como “ss-ss” ou “sensa”, o que, longe de ser sensacional, é apenas um modo rude de fingir que é educado.

A gente não pede “desculpa”, muito menos pede “perdão”, se esbarrar em alguém ou indicar que quer passar. Desculpas são reservadas para situações graves (como desolé, que é mais do que pardon), tipo você derrubou o pote de acaí no vestido branco da moça. “Ai, desculpa!”. Porém em nenhuma situação cotidiana dizemos “sinto muito”. É muito dramático, nada vale essa expressão. 

Mas, de modo geral, diga “foi mal”. Você será visto como “informal” (o objetivo de todos) e educado ao mesmo tempo, uma beleza.

Já falei que os brasileiros não agredecem? “Obrigado” é uma palavra longa (nada como os telegráficos merci, thanks, gracias, takk, grazie etc.), de modo que isso é um problema. Ou não: se o interlocutor for inferior a você, você está socialmente desobrigado a agradecê-lo, seja lá com que expressão for. Diga, sei lá, “tchau”. Já será uma coisa nobre.

Como a gente não diz muito “obrigado”, a resposta ao agradecimento, o outrora famoso “de nada”, é ainda menos usado, pq achamos o “obrigado” tão formal, tão sério e tão grave que ficamos constrangidos de ganhar um agradecimento.

Então tentamos disfarçar esse desconforto maluco com um “magina!” ou “que é isso!”, como se disséssemos: “Pelo amor de deus, NÃO SE INCOMODE EM AGRADECER, eu não fiz nada demais, eu juro”. Aliás, nós dizemos mesmo, quase uma ordem: “não tem o que agradecer”.

Uma opção “informal” para agradecer é dizer “valeu”, mas isso não vale para todas as situações, só entre amigos (ou se o cara for inferior). Igualmente informal é responder ao agradecimento com um “falou” no lugar de “de nada”.

De qualquer maneira, diga “obrigado” sempre, essa é a minha dica. Você vai ser visto como um pouco “formal”, mas foda-se, diga. Por favor.