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São Sotero e o subferiado carioca

21/04/2014

O Rio de Janeiro é uma cidade tão maravilhosa que foram escolhidos dois padroeiros para ela, porque aparentemente um só ficaria sobrecarregadíssimo com tanta maravilhosidade para lidar. A principal função de um padroeiro num lugar católico é provocar feriado na cidade, de modo que o Rio, só de santo local, tem dois por ano (não conto aqui o 12 de outubro, nacional).

Um feriado é 22 de janeiro, dia de São Sebastião —e provavelmente também dia de calor e praia. O outro escolhido foi São Jorge, cujo dia, veja só (como dizem os colunistas cariocas), é 23 de abril, providencialmete dois dias depois do feriado de Tiradentes, perfeito para “emendar”, essa prática para a qual o brasileiro vive. Não é lindo? Não sei se é uma coincidência divina o São Jorge ter ganho o seu dia justamente em 23 de abril ou se algum ishperto católico decidiu que esse santo seria um dos padroeiros do Rio, porque de besta o carioca não tem nada.

Então ficam aqui duas questões, para além do fato de que em 2014 o 21 de abril caiu na segunda-feira seguinte à Páscoa e, portanto, o dia 23 caiu numa quarta (adeus, terça), fazendo deste o maior carnaval  feriado do ano no Rio, depois do carnaval. A primeira questão é: quem é o principal padroeiro do Rio: Jorge ou Sebastião? Deve haver uma hierarquia, nem que seja por ordem de escolha —e aí eu descofio que o Sebastião ganhe, já que nunca houve uma São Jorge do Rio de Janeiro. Ou deve haver quem pagou mais por fora para conquistar o título (ou quem subornou para que não houvesse a divulgação dessa hierarquia).

A segunda é: coitado do São Sotero, celebrado pelos católicos no dia 22 de abril (dia do descobrimento do Brasil, aliás), mas relegado à categoria de “subferiado carioca”, caso o dia do colega São Jorge caia numa terça, quarta ou numa sexta. Fosse eu o Sotero, ficaria putíssimo e armaria um esquema com São Pedro para fazer chover em todo dia 22 que fosse segunda, terça ou quinta-feira.

Assim como ninguém nunca percebeu a existência de São Sotero, ninguém também perceberia a chuva que cairia no meio do “feriadão” —e não há nada mais terrível para o carioca do que uma chuva num dia de folga; é como se o time de futebol dele perdesse de goleada. Assim se faria alguma justiça.

 

 

30 coisas que você nunca vai ouvir de um paulistano

12/04/2014

1. Vem de carro? Pega a Rebouças, melhor coisa.

2. A avenida do Estado está cada vez mais aconchegante.

3. Pra mim chega, vou me mudar pra Guarulhos.

4. Um minhocão é pouco, tinha que ter uns cinco.

5. Eu pego a linha cento e setenta e sete ípsilon traço dez.

6. Ah, o São Vito… Doces memórias.

7. Você está certo, caro ciclista, aquela luz vermelha é pra todo mundo menos pra você.

8. Nossa, achei que você, que está com colete laranja e prancheta na Paulista, nunca viria falar comigo. Pois não?

9. Não sei onde você mora, mas em SP todos os taxistas sabem chegar a qualquer lugar. E rápido.

10. Pode sair do vagão, eu espero.

11. A 23 tá uma delícia.

12. Os motoboys estão buzinando pouco, que estranho.

13. Pelo menos o taxista veio ouvindo Sonic Youth. 

14. Pitta, melhor prefeito.

15. Ponte Octavio Frias de Oliveira

16. Meu sonho é entrar na Uninove.

17. Fui comprar um apartamento nos Jardins, estava tão barato que acabei levando dois.

18. Nunca ponho nome na lista.

19. O bom do Morumbi é que é perto de tudo.

20. Quero o dog só com salsicha, sem nada.

21. Véspera de Natal? Vai na 25 que você resolve tudo rapidinho.

22. Põe uma roupa de banho que a gente vai nadar no rio.

23. A conexão entre as estações Consolação e Paulista foi muito bem planejada.

24. Essa chuvinha aí não alaga nada.

25. O tempo hoje está bem normal.

26. Prefiro deixar o carro num estacionamento na Paulista e pegar o metrô.

27. Não é fofa a senhorinha alimentando esses 89 pombos na praça da Sé?

28. Sou eu ou a Augusta à noite está mais silenciosa?

29. Se o carro da frente está parado, há um motivo simples para isso, não preciso buzinar.

30. Tô saindo aqui da Berrini agora às 19h, vou passar rapidinho em casa em Santana pra trocar de roupa e te encontro na Lapa. Sim, ainda hoje.

Essa lista foi baseada nesta.

 

Brasil: Relatório Sobre a Tortura

09/04/2014

Alguns dos 70 presos políticos brasileiros que foram libertados (e expulsos do país para o Chile) em troca da soltura do embaixador suíço em 1970 descrevem e reencenam as torturas que haviam sofrido poucos meses antes pelos filhos da puta da polícia e do exército da ditadura.

Entre os entrevistados estão Maria Auxiliadora Lara Barcelos, linda, articulada, corajosa, estudante de medicina, e Frei Tito, brutalmente torturado durante 3 dias. Ambos tinham 25 anos se suicidaram poucos anos depois.

Marcantes são os depoimentos de Manoel Dias Nascimento, que foi torturado na frente da mulher, Jovelina Tonello Nascimento, que por sua vez também foi torturada na frente do marido. Ela não consegue narrar a tortura do próprio filho, de 2 anos, que, além de apanhar, viu os pais sendo torturados. Em 2012, o filho deu este depoimento à Folha.
E também o do cara que descreve como Marcos, geólogo, ex-seminarista e tornado metalúrgico, amigo de infância dele, se tornou epilético durante uma longa sessão de choques num pau de arara e como ele se tornou um quase um vegetal. Mesmo depois disso, no hospital, Marcos disse que “a luta não terminou, continuo operário e do lado do povo”.
E de Nancy Mangabeira Unger, 23 anos, irmã do próprio, que mostra as várias marcas de bala no corpo e o polegar ausente, decepado por uma bala de fuzil. É um filme impactante, especilamente porque os torturados não choram (poucos embargam a voz, mas não choram) e não têm medo; eles sentem ódio. E o filme mostra como o Brasil deixou de ser um horror total apenas há muito pouco tempo e se tornou palco de um horror moderado, digamos assim, com assassinatos praticados pela mesma PM.