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As mehores cobaias de laboratório

29/10/2013

Existe uma solução simples e eficaz para a questão das cobaias de laboratório que é humanitária, protege os animais e ainda por cima produz uma sociedade melhor. A solução é humanitária, pois as cobaias são voluntárias, ou seja, não são animais, ainda que possam ser confundidas com muitos deles (na verdade, trata-se da espécie humana mais próxima de um animal irracional); e, o jato civilizatório que a sociedade ganha com isso será mais bem explicado a seguir.

As cobaias, para acabar logo com o suspense, são brasileiros, mas não todos eles, apenas alguns, apenas aqueles que preenchem os requisitos para serem cobaias de laboratório farmacêutico e cosmético, aqueles que, por terem uma semelhança com o ser humano, trazem resultados confiáveis com mais segurança. Esses brasileirinhos são aqueles que costumam “guardar lugar” em restaurantes por quilo ou self-service ou os que o fazem no cinema —ainda que estes estejam, infelizmente, em extinção, devido à disseminação das salas com lugares marcados. Digo infelizmente, porque é menos uma oportunidade de colher esses brasileirinhos (ainda que em eventos pontuais como a Mostra de Cinema de SP possam oferecer uma ótima chance de capturá-los). Mas eu divago.

Poucos povos do mundo têm o hábito tão arraigado, disseminado e secular de “guardar lugar” para si ou para um conhecido —no Brasil, alguns habitantes até pagam para outros “olharem” seus pertences, como carros, mas essa categoria —a que paga para isso— está excluída desse programa de cobaias, pelo menos por ora. Nenhum brasileiro, por mais fluente em inglês que seja, consegue traduzir a expressão “first come, first serve”. Ainda não se sabe se é uma questão fenotípica (o calor excessivo durante todo do ano pode ser um dos fatores) ou puramente genotípica (ausência de genes específicos) que provoca essa incapacidade de entendimento dessa ideia tão simples: o primeiro que chega é o primeiro que se serve (nem eu consegui, veja só).

Como, portanto, o Brasil possui essa oferta natural e abundante desse grupo de pessoas, a solução está aqui. Aqueles que depositam o crachá sobre uma mesa vazia antes de se servir no restaurante; aqueles que amarram o casaco numa cadeira igualmente vazia e se dirigem ao buffet; os que deixam a própria bolsa ou carteira, numa demonstração inequívoca de que preferem serem roubados (outro esporte nacional, mas não cabe falar disso aqui) a se comportarem de modo decente em sociedade; ou ainda os que preferem sinalizar com um molho de chaves que tal mesa está previamente ocupada; aqueles que colocam objetos variados em poltronas adjacentes à sua, permanecem com olhos levemente arregalados durante os minutos de espera e mantêm os braços sutilmente abertos como a “proteger” todas as poltronas que conseguir antes que seus amigos ou parentes voltem da bombonière ou cheguem do estacionamento do cinema; todos esses brasileirinhos devem ser colhidos, no ato dessas infrações, para o laboratório ou faculdade de medicina mais próximos, para serem estudados, abertos, dissecados, armazenados etc., com o objetivo de produzir medicamentos e cosméticos eficientes para a população mais qualificada, a saber, aquela que detém noções elementares de civilidade e que não “guarda lugar”. Veja que “qualificada” talvez seja um termo excessivo para designar os homens e mulheres que apenas agem com urbanidade.

E como considerar essa prática como “humanitária”? Simples também: a atitude dos brasileirinhos do parágrafo anterior nada mais é do que um pedido de ajuda. É desrespeitando o próximo que ele suplica para que a sociedade o exclua do seu convívio, porque, como se vê pelos seus hábitos, ele carece também de articulação de ideias, de modo que o ato de “guardar lugar” em si é, comprovadamente, também a imploração para a sua expulsão (tem a ver com evolução das espécies etc.). Devemos compreender esses sinais e ajudá-los.

Os benefícios disso são totais, 360 graus, como se diz no patético mundo corporativo. De imediato, a exclusão desses brasileirinhos torna o país um lugar mais agradável, algo como uma evolução, em termos de civilidade, de 40 a 100 anos em apenas alguns meses. É como se o país deixasse de viver sob códigos sociais vigentes durante os períodos de guerra, quando era cada um por si e foda-se o outro (sim, no Paleolítico também era assim, mas vamos nos ater ao século 20).

A médio e longo prazo, os efeitos positivos são mais profundos, já que as novas gerações teriam dificuldades concretas em “guardar lugar” por não ter mais facilmente o parâmetro de como tal ato se dá (é mais ou menos como proibir propaganda de cigarro na TV), e pode-se, a partir disso, incutir mais facilmente valores básicos de convivência humana.

E são justamente as próximas gerações (não só de brasileiros, mas de todo o mundo) que se benificiarão dos testes feitos com esses brasileirinhos, de modo que a cura de doenças hoje incuráveis e a produção de cosméticos incríveis seriam alcançados muito mais rapidamente do que se os cientistas, coitados, continuassem a quebrar a cabeça com camundongo, beagle, cobra etc. Os brasileirinhos são quase como nós! E nenhum animal é sacrificado! É perfeito.

Não se pode dizer que haja “desvantagens” nesse método maravilhoso, mas há algumas questões a serem consideradas, como por exemplo o custo de equipamento (para monitorar em tempo real os restaurantes e os cinemas em todo o país) e de pessoal (para fazer o recolhimento dos brasileirinhos), além da questão da evidente superoferta de cobaias para poucos laboratórios e faculdades de medicina.

Mas isso são detalhes logísticos. O mais importante é que a solução 360 está aí. Todos ganhamos.

Procure assistir

24/10/2013

“Conversa com JH” deve ser o documentário mais atual da temporada, porque mostra e discute a “autorização” de João Havelange ao biógrafo dele e diretor do filme, o  jornalista Ernesto Rodrigues, ex-editior do Fantástico, Jornal Nacional e Jornal da Globo.

Antes de publicar o livro, como combinado, o escritor mostrou os originais a Havelange, que se contradisse e desdisse o que havia dito antes em entrevistas filmadas, ameaçou não autorizar a publicação se não fossem cortados trechos que o desagradavam e destratou profissionalmente o cara a valer. Tudo gravado.

“Faz o seguinte: o senhor guarda tudo isso. No dia que eu morrer, o senhor publica”, diz Havelange, chamado de “doutor” por Rodrigues, que por sua vez é tratado por “meu filho”.

Rodrigues mostra as gravações a três amigos jornalistas (Geneton Moraes Neto, George Moura e Ricardo Pereira), que juntos discutem as atitudes de Havelange e também as de Rodrigues durante a tensa leitura dos originais, num produtiva conversa sobre ética e jornalismo.

Como contraprova ao que Havelange dizia ser mentira ou fato que não acontecera, Rodrigues exibe entrevistas produzidas para a biografia realizadas com atletas, dirigentes, jornalistas e amigos de Havelange que o contradizem de modo constrangedor e revelam um homem, além de megalomaníaco, ridículo.

Basicamente o filme é o bastidor absurdo que é publicar uma biografia de um sujeito vivo no Brasil —Havelange chama a obra de “meu livro”, e Rodrigues , em retrospecto, concorda em parte com isso.

No fim, “Jogo Duro – A História de João Havelange” foi publicado em 2007 não pela editora Objetiva, como seria originalmente (que exigiu, depois das ameaças de JH, para evitar problemas jurídicos, autorização por escrito dos mais de 140 entrevistados, o que não foi aceito por Rodrigues), mas pela Record e com algumas (não todas) alterações feitas a pedido do Havelange, que, segundo o autor, correspondem a “menos de 15%” do conteúdo do livro e são “correções” e “acusações irresponsáveis” que Rodrigues optou por excluir. Apesar de ter havido a autorização prévia, essa biografia não é “autorizada” tal como foi publicada.

Desde então Rodrigues, também autor de uma biografia de Ayrton Senna, não falou mais com Havelange —o ex-presidente da Fifa não proibiu a publicação nem processou o escritor, como havia ameaçado.

O filme, com informações até abril deste ano, é uma espécie de epílogo da biografia, publicada quando Havelange ainda era presidente de honra da Fifa e cinco anos antes da renúncia dele diante de acusações de que ele e o genro dele, Ricardo Teixeira, haviam recebido propina da empresa de marketing ISL de 1992 e 2000.

“Conversa com JH” estreou no Festival do Rio em setembro e está em cartaz na Mostra de Cinema de SP.