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Beyoncé personifica o pop deste século na turnê The Mrs. Carter Show

18/09/2013

No 69º show da turnê mundial The Mrs. Carter Show, Beyoncé, que completou 32 anos na véspera da estreia no Brasil, em Fortaleza, mostrou a 50.000 pessoas em São Paulo o que todo mundo já sabia: que ela e suas girls “run the world”.

Beyoncé iniciou esta turnê em 15 de abril, em Belgrado, e deve encerrá-la em 22 de dezembro, em Nova York (ou Brooklyn, como ela prefere chamar no site dela), no Barclays Center, cujo sócio mais conhecido, ainda que minoritário, é o marido dela, o rapper Jay Z (que este ano lançou um disco e tirou o hífen do nome), e onde ela já cantou em agosto passado. Portanto, até o Natal, a mãe de Blue Ivy terá feito impressionantes 108 shows nos EUA, Europa, América Latina e Oceania, praticamente um show a cada dois dias, o que deve lhe garantir o top 3 das turnês mais rentáveis deste ano da Billboard.

E o aspecto excepcional dessa extensa turnê é que ela não vem após o lançamento de um álbum, como é praxe em se tratando de um artista pop de alcance mundial. Antes, a Mrs. Carter World Tour segue a um relançamento, o do álbum “4”, que saiu originalmente em 2011 e ganhou duas músicas em março último –músicas estas, “Schoolin’ Life” e “Dance For You”, que foram executadas, respectivamente, 46 e 5 vezes nessa turnê, até o momento. Ou seja, não são fundamentais.

Além dessas novas, a turnê traz “Grown Woman”, a música inédita cujo trecho foi revelado num comercial da Pepsi no começo de abril. Ao vivo, a música foi executada pela primeira vez no final desse mês, quando abriu o espetáculo em Paris. Seis meses depois, “Grown Woman” estranhamente ainda não está à venda.

E no último domingo, 15/9, os paulistanos viram e ouviram essa música, a mais africana –e um das melhores– da carreira da cantora, com batidas bem marcadas e um coro feminino regional. Imagens de girafas, savana, elefantes e estampas típicas do continente explodem no telão e reforçam a africanidade da canção, que diz “eu sou uma mulher crescida, eu posso fazer o que quiser”. Como se se pudesse esperar outra coisa de quem “domina o mundo”.

E foi exatamente com a poderosa e “Diplo-niana” “Run the World (Girls)”, o primeiro single de “4”, que Beyoncé abriu o show em São Paulo. A marcial e contagiante “End of Time”, o último single de “4”, veio na sequência com fantasmas de afrobeat na instrumentação e segurança vocal da cantora. Aí Beyoncé tinha a certeza, e a demonstrava, de que o roteiro do show estava no caminho certo.

Uma sombria e dramática “If I Were a Boy”, com samples da versão instrumental de “Last Time” (1965), dos Rolling Stones (nos quais “Bitter Sweet Symphony”, de 1997, da banda britânica The Verve, foi baseada), marcou a primeira troca de roupa da cantora e a primeira “parceria” entre ela e o público, que cantava trechos da música.

“Halo”, que encerrou o show, e “Irreplaceable”, o hino da fêmea-alfa (marcado pelo ataque de um fã), foram outros momentos em que o público participou com todas as cordas vocais possíveis.

Apesar de a apresentação ter sido encerrada em uma chave mais emotiva, com “Halo”, precedida de “I Will Always Love You”, de Dolly Parton e que se tornou mundialmente mais conhecida na voz de Whitney Houston, o show, de uma maneira geral, é energético e pulsante (“Crazy in Love”, “Single Ladies”, Why Don’t You Love Me” —esta com trechos de “Harlem Shake”), intercalados com momentos mais intimistas/sexy (“1+1”, “I Care”, “I Miss You”).

Michael Jackson aparece na “midtempo” “Party”, que ganhou enxertos de “Human Nature”, e nos agradecimentos das backing vocals (“Off the Wall”).

Não tão literalmente, mas em espírito, o Rei do Pop e os Jackson 5 estavam presentes em toda “Love on Top”, em que Beyoncé exibe uma impresionante extensão vocal.

Nesta turnê, Beyoncé, uma força da natureza, entrega uma performance admirável, tanto pelo seu preparo físico como pelo fato de aliá-lo a um desempenho vocal espantoso, e mostra que no ultramecanizado, previsível e careta universo pop é possível se aproximar do público (até demais em SP) e improvisar (como a inclusão de uma música local no Rio, para delírio geral).

Além disso, a personagem de mulher dominadora (o exato oposto da submissa Diana Ross nas Supremes dos anos 60 e um aperfeiçoamento da confiante Madonna dos anos 80), que ela encarna no palco com a fundamental ajuda de ventiladores, é a personificação mais precisa do pop deste século.

É possível afirmar que essa texana está em sua melhor forma e que 2013 –que começou com uma falsamente controversa apresentação do hino nacional na posse de Barack Obama, seguida de uma performance espetacular no intervalo da final do SuperBowl (com as Destiny’s Child)– é o B’Year, o ano Beyoncé, que ainda pode ver o lançamento do quinto álbum da cantora.

Nem mencionei o Grammy que ela ganhou nem o documentário sobre ela, produzido e dirigido por Mrs. Carter herself, exibido pela HBO —e que deve ser uma bosta. Agora eu lhe pergunto: Who run this motherfucker?

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