Escafandro jornalístico

Como ficar quase incólume a uma grande tragédia ocorrida no Brasil, como a da boate em Santa Maria, ontem. Ou como escapar da tragédia que é a cobertura de uma tragédia:

  • Não ligue a TV. Especialmente não veja nenhum canal aberto ou canal de notícias brasileiro a cabo durante o dia todo. Você não vai se informar por ali. Esses canais buscam o choro, o grito, o desespero e as “análises” apressadas e indignadas e os exibem sem nenhum pudor. A não ser que sua ideia de diversão seja o sadismo (sem sexo), vá em frente.
  • Não entre em portais de notícias brasileiros. Apesar de haver um pouco mais de informações ali do que na TV, boa parte delas são incorretas, imprecisas ou apenas falsas —porque informações de qualquer tragédia levam um tempo para serem apuradas, um tempo por que os sites não podem nem querem esperar. Além disso, haverá toneladas de imagens (em movimento ou não), que você não quer nem precisa ver. Sem falar que há, em lugar bastante visível, os sempre infames “comentários do internauta”, que são o equivalente online a um aterro sanitário —e esse aterro fica especialmente superlotado em dias de tragédias. E, inevitável, também há as tais “análises de especialistas” feitas em 20 minutos.
  • Dê unfollow nos jornais no twitter (no meu caso, Estadão e Globo; não sigo a Folha nem nenhuma revista brasileira). Pelo mesmos motivos acima: informações imprecisas, apelações, e mais sensacionalismo ainda. Espere uns três dias para voltar a segui-los. Sinceramente, você não perde muito se não segui-los nunca mais.
  • Acesse sites de jornais e revistas estrangeiros —no meu caso, isso ocorreu via Twitter. Ali você vai ver dois tipos de textos (e poucas fotos): o de agência internacional de notícias, que dá as informações básicas que você precisa saber sobre a tragédia (algumas vezes são imprecisas, mas pelo menos você se situa bem) e o do correspondente local do veículo (que está no Rio, em SP ou… em Buenos Aires rs). Em ambos os casos não há apelação, não se salienta excessivamente o “drama” (a situação trágica fala por si só) e fazem um apanhado do que importa do que foi publicado nos veículos locais —um breve clipping. E, claro, ambos informam sob um ponto de vista mais distanciado do que o dos brasileiros, o que é mais esclarecedor nesses casos.
  • Não importa muito quem sejam os seus “amigos” no Facebook, alguns (ou muitos) deles terão reações histéricas: publicarão coisas escabrosas (como vídeo amador gravado na hora da tragédia), farão apelos de como fazer chegar socorro, sem saber se isso é necessário ou eficiente, e demonstrarão sem dó o quanto eles estão tristes, de luto e chocados com tudo isso. Enfim, se você mora a milhares de quilômetros da tragédia e não conhece nenhuma vítima, você não precisa passar por isso, a não ser que você curta a experiência de se enlutar coletivamente online —pode ser catártico; eu tô fora.
  • No dia seguinte, se realmente ainda houver interesse sobre o que aconteceu, leia o “site da versão impressa” da Folha (sim, isso existe rs). Como se trata de um site precário, quase não há imagens, apenas texto, o que é muito bem-vindo em casos como esse —e só em casos como esse rs. E como se trata de um jornal que tradicionalmente tem um bom desempenho em coberturas “quentes” (sem trocadilho, por favor) e não costuma ser apelativo, o resultado da apuração e do texto é superior ao que se publica online, de modo que você tem um panorama um pouco mais completo do ocorrido e mantém o seu estômago relativamente intacto. Não li o que o Globo e o Estado publicaram hoje.

Fiz essa experiência pela primeira vez ontem e funcionou, não fiquei chocado nem horrorizado em excesso e fiquei informado de tudo (o que eu quis) em seu devido tempo. Talvez não funcione pra você, mas, de qualquer forma, considero saudável filtrar cada vez mais as notícias que chegam até você. Até recentemente, os próprios meios de comunicação faziam esse papel, eles eram os nossos filtros. Agora é cada um por si.

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Uma resposta to “Escafandro jornalístico”

  1. Eliana Castela Says:

    Salve Salve! Excelente sugestão, eu já faço um pouco disso.

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