O Som Ao Meu Redor

O Som ao Redor é um filme extremamente familiar pra mim. Talvez o mais familiar que eu já tenha visto. Ele se passa em uma rua no bairro do Setúbal, no Recife, cidade onde nasci e aonde eu, morador de Olinda até os 13 anos, ia com muita frequência. O pernambucano Kleber Mendonça Filho, o diretor e roteirista do filme, é 5 anos mais velho do que eu, e posso garantir que ele usa, no filme todo, lembranças da própria infância e adolescência — para além do fato de o longa ter sido filmado na rua onde ele morou.

Aspectos sutis como o bambolê e os patins das primeiras cenas em movimento do filme — bambolê é o começo dos anos 80 em Recife; o “starfix” — as estrelas fluorescentes que eram coladas no teto do quarto de crianças como eu nos anos 70/80 — está lá, ainda que tivesse sido “pintado por cima”; o “joga a bola!” que o menino grita para ninguém, na esperança de que alguém do outro lado do muro devolva a bola que caiu no terreno vizinho — eu gritei isso, os meus amigos gritaram isso. Tudo isso me jogou dentro do filme.

A Variant que aparece num rápido flashback do tio de João, que enxerga a rua anos antes, de terra, sem asfalto, com casas de muro baixo sombreadas por pés de “coração-de-nego”… Essa rua era a minha rua, essa Variant o meu pai tinha. O visitante batia palmas para se fazer ouvir, e nós, de dentro de casa, o víamos através das grades brancas e horizontais (sim, as casas e apartamentos em Recife tinham [têm?] grades horizontais e brancas, especialmente nas janelas ou a delimitar a varanda; raramente eram verticais como as de uma prisão, de modo que as crianças podiam se pendurar e subir nelas e ir até o “céu”), que em algum momento ficaram enferrujadas exatamente como as que são mostradas no filme. E como há grades…

O cachorro. O latido de Pitu, um viralata do vizinho que morava ao lado do meu quarto e de quem eu morria de medo, era um barulho constante. O mesmo som perene das dezenas de pássaros que o mesmo vizinho, seu Galba, criava em gaiolas — e as levava para “passear” pela rua. Aquele latido ao fundo é o som ao redor da minha infância. Como o é o som da bola quicando no oitão do prédio ou no meio da rua, com chinelos que faziam as vezes de traves.

Os muros e as paredes externas dos prédios da minha rua, do meu Recife, tinham musgos. Exatamente como no filme. A minha casa, e a de muitos outros, tinha o chamado “chuveiro de praia”, onde “tirávamos a areia” depois de voltar do mar. É o mesmo chuveiro onde um casal de estudantes adolescentes se beija no filme. E eles se beijam da mesma maneira efusiva que os estudantes adolescentes se beijavam publicamente no colégio onde eu estudava, de modo que as minhas primeiras sensações sexuais foram despertadas ao observar essas cenas deliciosamente despudoradas e inocentes.

E havia azulejo e cerâmica a forrar qualquer centímetro quadrado no piso e na parede, porque “era mais prático para limpar”, diziam todas as mães — e essa era a única e aparentemente inquestionável justificativa. Hoje acho que talvez tenha sido uma força-tarefa da classe média nordestina para combater o musgo e os líquens que insistiam em desbravar as paredes, como uma pichação orgânica, uma punição da natureza pelo uso do material de baixa qualidade.

Pisos de madeira praticamente deixaram de existir numa casa decente quando os anos 80 terminaram. O piso agora é frio, gelado, algo até razoável numa cidade extremamente quente o ano todo. Mas também é um piso sem personalidade: perceba que os pisos das casas no filme são parecidos, cerâmicas quadradas de tom bege com rejunte de espessura média. Além de tudo, isso era (é?) sinal de status em Recife.

Whisky também é sinal de status em Pernambuco. Bebe-se whisky na praia, durante o almoço, em festa infantil, onde for; diz-se que se bebe mais whisky em Recife do que na Escócia, proporcionalmente. Um sinal de cafonice, bem recifense mesmo. No filme a bebida é servida na bandeja, durante a festa de aniversário da menina (aliás, nunca tinha ouvido aquela canção de aniversário; de onde é aquilo?).

Eu sou bisneto de senhor de engenho, condição parecida com a de João, o anti-heroi do filme. E essa condição faz com que a relação entre patrão e empregado no filme seja mais do que familiar para mim: ela é a minha família. O dono da casa recebe os empregados (não existe o termo “prestador de serviço” em Recife) e as crianças pela porta da cozinha. Isso sempre foi uma “loucura natural” para mim. Natural porque cresci vendo isso, os meus tios fazem isso; e loucura porque isso nunca fez muito sentido, especialmente no caso extremo de uma tia que NUNCA abria a porta da sala para ninguém (não apenas para os empregados), sob a justificativa de que iria “sujar” a área mais nobre da casa-grande. Então essa relação de senhor e escravo sempre foi e ainda é muito presente em Recife, cujos enriquecimento e história se devem em grande parte aos engenhos de cana-de-açúcar dos séculos 17 a 19.

A exemplo do senhor de engenho, que possuía muitos escravos, o patrão urbano possui muitos empregados. Muito mais do que precisa, puta merda! A minha avó tinha umas seis empregadas, todas absolutamente submissas e que se dedicaram à mãe da minha mãe por décadas (décadas!). Obviamente nenhuma empregada ficou rica trabalhando para minha avó, mas todas eram “da família”, viram os meus tios crescerem, me viram nascer, sabiam de tudo e para quem “nunca faltou nada”. E é exatamente isso o mais cruel dessa relação bizarra entre empregada (eram apenas mulheres, nesse caso) e patrão em Recife.

Elas não só dormiam no trabalho como seus quartos eram na senzala, uma edícula separada da casa principal — imagine se não fossem “da família”. Mais ou menos na década de 80, deve ter havido um sopro civilizatório na capital de Pernambuco, e, em algumas casas, as empregadas passaram a comer “na mesa com a gente” e a “dividir” copos, pratos e talheres conosco (antes, elas tinham copos, pratos e talheres “próprios”), num sinal inequívoco de que aquela família era justa e bondosa. A mesma gentileza escrota que o tio do João dispensa aos seguranças durante a festa da filha dele: já mais ou menos do meio para o final do evento, ele vai até o portão e oferece bebida aos caras, como forma de integrá-los à festa, ao mesmo tempo em que estabelece de modo claro que a festa, para os seguranças, acontece do portão para fora. Assim os empregados ficam gratos ao “patrãozinho” pela atenção recebida — afinal, ele não tem nenhuma “obrigação” de fazer isso — , e o patrão se sente mais leve por esse gesto de benevolência.

De qualquer modo, a empregada doméstica é um membro torto da família: ela está lá para servir, mas participa da educação dos filhos dos patrões, o que lhe confere uma intimidade com as crianças maior do que elas têm com os próprios pais. Quando João apresenta a amiga à empregada dele, dá-se um diálogo que revela essa intimidade (e também porque pernambucano é folgado pra caralho): “Bonita ela, João, mas tem uma cara triste”, diz, na lata, a empregada com uma camiseta de uma estação de esqui em Aspen, um detalhe maravilhoso. E tanto João quanto a amiga dele levam “pernambucanamente” numa boa esse comentário constrangedor, desnecessário e tortuosamente elogioso.

Tortuoso também é o “cuidado” que João tem com a outra empregada, a filha da que fez o comentário, quando ele pede para que ela use chinelo enquanto passa roupa, “para não levar choque”. Ela trabalha descalça, como uma escrava. Já falei que todos os empregados são negros? E que os patrões-mulatos se consideram brancos?

E pela proximidade, mas não intmidade, que a empregada tem com o patrão, ela leva as crianças dela pro “serviço”. E isso não é um problema para João, moço que passou 7 anos “nas Alemanhas”, como diz o primo maloqueiro dele. Mas é, e sempre foi, uma relação esquisita pra mim, porque a empregada trata, naturalmente, a casa do patrão como um lugar familiar, mas também é o lugar onde ela estranhamente nunca decide nada. O fato de a empregada dormir no trabalho é claramente uma demonstração brutal de poder do patrão, mais do que uma necessidade real da família — a não ser que todos os membros da família tivessem que almoçar um banquete às 6 da manhã todos os dias da semana e ninguém soubesse cozinhar.

Outra demonstração de poder: “Fulana, abra a porta aqui pra João”. É assim que Dinho, o maloqueiro pseudorriquinho — a soma de todos os meus amigos da rua — e que recebe a visita descalço, de bermuda e sem camisa — um dress code tão casual quanto recifense –, manda a visita embora. O pernambucano tem um talento irritante de se dirigir a alguém falando com uma terceira pessoa: ele expulsa o cara dando ordem à empregada. (Outro exemplo disso: um segurança pergunta para Clodoaldo como o outro segurança o conheceu. Clodoaldo responde: “Falaí, Fulano, como é que a gente se conheceu”.)

O patrão também manda a empregada pegar água (Recife é quente…) mesmo que ele tenha passado ao lado de uma garrafa d’água na cozinha. É ele quem manda. Quando a empregada precisa sair de casa para tratar de questões referentes à própria casa, ela precisa pedir permissão (!!) para isso. No filme, o patrão diz a ela: “Vá e volte!”. Só faltou dizer “e não fuja!”. Do mesmo modo, o mesmo seu Francisco, quando conhece os seguranças, pergunta o sobrenome deles e de onde eles são. E você só responde a essas perguntas quando está numa situação desvantajosa (de formulário na internet a interrogatório na imigração).

E há também a humilhação mais explícita. No filme, a cena se dá quando a empregada queima um aparelho eletrônico da patroa, que tem um chilique e grita com ela “Vá fazer as tuas coisas, sai daqui, Francisca!”, como se ela fosse uma criminosa. Quando eu era criança, não era incomum a patroa chegar a bater na empregada por alegada incompetência. Era um Back to Slavery na pele. Ainda que isso não fosse bem visto por todos, jamais, jamais houve desculpas de quem bateu tampouco retaliação de quem apanhou. Chocante. (A moradora do prédio, no filme, que cita o fato de “ter recebido a Veja fora do plástico” como uma das razões para demitir o porteiro é uma crítica irônica e potente a esse estado das coisas porque imperceptível.).

E Dinho, sempre ele, diz com todas as letras aos seguranças que a rua onde ele mora “não é favela” (com a pronúncia bem recifense do L, uma fração de segundos mais alongado), deixando claro que existe um abismo instransponível entre “nós” e “eles”, o resto, que sempre se resignou.

Mas no filme os empregados se vingam. O Som ao Redor é um excelente filme de vingança sob todos os aspectos. Uma vingança de lavar a alma com o vermelho de sangue que cai na cachoeira do engenho do seu Francisco, o velho patrão.

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PS 1: Apesar da chave naturalista do filme, dois aspectos sutis não correspondem à realidade. O primeiro é que o pernambucano fala muito mais alto do que se fala no filme. É uma eterna gritaria. O segundo é que o pernambucano, homem ou mulher, rico ou pobre, tem uma maneira de falar bastante peculiar (e nojenta) que só aparece levemente e no final do filme, durante a festa, no personagem de Dinho: o que eu chamo de “fungada retórica”, aquela respiração forte/quase escarro, que serve para pontuar uma frase, marcar um posicionamento, reforçar uma ideia. Uma conversa entre pernambucanos tem que ter isso.

PS 2: A minha total imersão no filme é coroada com a presença da minha melhor amiga de infância, que faz uma ponta como Betânia, a vizinha que ataca a mulher que recebe uma TV na porta de casa. E duas mulheres podem começar a brigar sem nenhum motivo aparente no meio da rua em Recife. E uma delas vai puxar o cabelo da outra logo de saída. Coisa de cinema.
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9 Respostas to “O Som Ao Meu Redor”

  1. Dida Maia Says:

    Muito bom, cara. Assisti duas vezes, a última na sexta-feira, e ainda estou ruminando algumas opções de Kleber. Vou ver de novo. Vá também. Você vai ver mais coisas. Faço o marido da Bia e na cena do ‘jantar’ em família, quando a Fernanda (filha) dá uma ‘dentro’ no irmão, eu falo: “tome!”. Só faltou o “Tome, bichinho!” Isso é Kleber que deixa a pessoa falar como ela é. O filme passa isso.

  2. Angelo Says:

    Fantástico, cara. Além da sua relação pessoal com o filme, fez uma baita leitura ainda atual da mentalidade da classe média (nós) que a obra aborda tão bem. Abs.

  3. w. j. solha Says:

    Maravilha de texto, heim, Kleber? Maravilha de texto.

  4. @ribaparea Says:

    Grande texto Marcelo.

    Ainda estou um pouco confuso acerca do filme, mas os elementos do texto (e do filme) são grandes referências sobre a infância de quem cresceu no eixo Boa Viagem – Setúbal.

    O que mais me chamou atenção no filme foi a retratação perfeita do estado de medo imaginário e paranóico que a nossa querida classe média vive. Um bêbado perdido na rua, um senhor que sai pra tomar banho de mar à noite… Tudo é motivo para medo e desconfiança. E o filme mostra bem que, quase sempre, é nada.

  5. Mariangela Valença Says:

    Meu amado amigo e irmão,
    cada vez mais orgulhosa de tudo que você faz (sempre foi assim). Parabéns pelo belíssimo texto! Perfeito!
    Despertasse em mim sentimentos deliciosos, de uma vida privilegiada que tivemos com bons amigos, estudos (a propósito, era esta variante do seu pai, que eu e meu irmão voltávamos tooodos os dias de carona, da escola pra casa), brincadeiras na rua.
    Amei!
    Cheiros de saudades.

  6. Daniel Barros Says:

    Estou impressionado , depois de ver o filme e li algumas críticas, mas esse texto foi mais revelador.

  7. Eliana Castela Says:

    Ainda não vi o filme, mas este artigo me levou a inúmeras reflexões, uma delas foi a conferência do antropólogo Gilberto Velho, na reunião anual da SBPC,, na década de 1990, quando se questionava o significado do termo autóctone, o que me faz pensar, que uma vez que não nascemos apenas um corpo físico, ou melhor, aos poucos a esse corpo “nascerá” nossa cultura, que irá compô-lo. Então eu que nasci no Acre, pelo fato de ser filha de nordestino, cresci também numa sociedade que herdou os mesmo hábitos de dominação e submissão que a pernambucana descrita no artigo, essa cultura vai se reproduzindo e fazendo as devidas atualizações, pois se não existiram escravos no Acre, por outro lado, existiram seringueiros, estes eram muitos para o mesmo patrão que tinha o poder de decidir inclusive pela vida dos seringueiros. Assim como os parentes mais pobres eram “servos” dos parente mais ricos, essa herança vai se moldando aos tempos atuais

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