Archive for janeiro \28\UTC 2013

Escafandro jornalístico

28/01/2013

Como ficar quase incólume a uma grande tragédia ocorrida no Brasil, como a da boate em Santa Maria, ontem. Ou como escapar da tragédia que é a cobertura de uma tragédia:

  • Não ligue a TV. Especialmente não veja nenhum canal aberto ou canal de notícias brasileiro a cabo durante o dia todo. Você não vai se informar por ali. Esses canais buscam o choro, o grito, o desespero e as “análises” apressadas e indignadas e os exibem sem nenhum pudor. A não ser que sua ideia de diversão seja o sadismo (sem sexo), vá em frente.
  • Não entre em portais de notícias brasileiros. Apesar de haver um pouco mais de informações ali do que na TV, boa parte delas são incorretas, imprecisas ou apenas falsas —porque informações de qualquer tragédia levam um tempo para serem apuradas, um tempo por que os sites não podem nem querem esperar. Além disso, haverá toneladas de imagens (em movimento ou não), que você não quer nem precisa ver. Sem falar que há, em lugar bastante visível, os sempre infames “comentários do internauta”, que são o equivalente online a um aterro sanitário —e esse aterro fica especialmente superlotado em dias de tragédias. E, inevitável, também há as tais “análises de especialistas” feitas em 20 minutos.
  • Dê unfollow nos jornais no twitter (no meu caso, Estadão e Globo; não sigo a Folha nem nenhuma revista brasileira). Pelo mesmos motivos acima: informações imprecisas, apelações, e mais sensacionalismo ainda. Espere uns três dias para voltar a segui-los. Sinceramente, você não perde muito se não segui-los nunca mais.
  • Acesse sites de jornais e revistas estrangeiros —no meu caso, isso ocorreu via Twitter. Ali você vai ver dois tipos de textos (e poucas fotos): o de agência internacional de notícias, que dá as informações básicas que você precisa saber sobre a tragédia (algumas vezes são imprecisas, mas pelo menos você se situa bem) e o do correspondente local do veículo (que está no Rio, em SP ou… em Buenos Aires rs). Em ambos os casos não há apelação, não se salienta excessivamente o “drama” (a situação trágica fala por si só) e fazem um apanhado do que importa do que foi publicado nos veículos locais —um breve clipping. E, claro, ambos informam sob um ponto de vista mais distanciado do que o dos brasileiros, o que é mais esclarecedor nesses casos.
  • Não importa muito quem sejam os seus “amigos” no Facebook, alguns (ou muitos) deles terão reações histéricas: publicarão coisas escabrosas (como vídeo amador gravado na hora da tragédia), farão apelos de como fazer chegar socorro, sem saber se isso é necessário ou eficiente, e demonstrarão sem dó o quanto eles estão tristes, de luto e chocados com tudo isso. Enfim, se você mora a milhares de quilômetros da tragédia e não conhece nenhuma vítima, você não precisa passar por isso, a não ser que você curta a experiência de se enlutar coletivamente online —pode ser catártico; eu tô fora.
  • No dia seguinte, se realmente ainda houver interesse sobre o que aconteceu, leia o “site da versão impressa” da Folha (sim, isso existe rs). Como se trata de um site precário, quase não há imagens, apenas texto, o que é muito bem-vindo em casos como esse —e só em casos como esse rs. E como se trata de um jornal que tradicionalmente tem um bom desempenho em coberturas “quentes” (sem trocadilho, por favor) e não costuma ser apelativo, o resultado da apuração e do texto é superior ao que se publica online, de modo que você tem um panorama um pouco mais completo do ocorrido e mantém o seu estômago relativamente intacto. Não li o que o Globo e o Estado publicaram hoje.

Fiz essa experiência pela primeira vez ontem e funcionou, não fiquei chocado nem horrorizado em excesso e fiquei informado de tudo (o que eu quis) em seu devido tempo. Talvez não funcione pra você, mas, de qualquer forma, considero saudável filtrar cada vez mais as notícias que chegam até você. Até recentemente, os próprios meios de comunicação faziam esse papel, eles eram os nossos filtros. Agora é cada um por si.

Os animais do quilo

17/01/2013

Entre outras qualidades, o restaurante por quilo é famoso por reunir uma clientela formada por uns 70% de tipinhos detestáveis. E eles são mais ou menos 40% de todos os tipinhos detestáveis que habitam o Brasil.

Quais sejam:

– A vaca que chega depois de você, mas, como é brasileiríssima, ela quer se dar melhor do que você, o que num restaurante por quilo significa sentar antes de você. Um clássico. Os artifícios usados por esse tipo de animal para “guardar mesa” são: bolsa, crachá e chave (guarda-chuva é raro). Uma vez me sentei numa mesa onde repousava uma chave. Chamei a garçonete e disse que alguém tinha esquecido aquilo ali.

– O viado que brasileiramente “experimenta” um bolinho de queijo ou uma muçarela de búfala antes de pesar o prato. Outro clássico da miséria. Obviamente ele mete a mão e pega, foda-se. Não raro, o mesmo viado encharca o prato de azeite e vinagrete. Depois de pesar o prato, claro, de modo a “se dar bem”, o que no mundo dessa gente significa economizar R$ 0,03.

– A hiena que, na fila do buffet, enfia o braço por baixo do seu prato para pegar a cenoura que está a 5 metros dela, porque, por alguma razão, ela não pode esperar você se servir antes, ela tem que “garantir logo” os nutrientes dela, mesmo que isso provoque um incômodo desnecessário no outro. Foda-se. Deve ser alguma herança da guerra –foram tantas no Brasil, né?

– O celenterado que, “apressado” como a hiena, simplesmente passa na sua frente na fila do buffet, afinal ele não vai pegar nada do que você está pegando, então por que esperar 15 segundos como um vertebrado civilizado? “Vou pegar logo o que preciso, comer rápido e sair daqui. O inimigo pode estar próximo!”. Coisas que só quem passou por uma guerra entende.

– Se o quilo for numa padaria, existe a cadela que, na fila do caixa, já joga o saco de pão e o que tiver na mão no balcão, enquanto você, que está na frente dela, está sendo atendido. São cadelas muito fracas, coitadas, que não conseguem segurar algo mais pesado que 200 gramas por muito tempo. Uma vez uma mulher usou uma torta para empurrar a máquina do cartão enquanto eu pagava. Dois segundos depois, a torta estava no chão, claro. “Ops, desculpe, que desastrado que eu sou, quer ajuda?”, perguntei sem nem olhar pra ela.

Enfim, gosto demais de almoçar nesse tipo de estabelecimento de tempero bem brasileiro.

O Som Ao Meu Redor

08/01/2013

O Som ao Redor é um filme extremamente familiar pra mim. Talvez o mais familiar que eu já tenha visto. Ele se passa em uma rua no bairro do Setúbal, no Recife, cidade onde nasci e aonde eu, morador de Olinda até os 13 anos, ia com muita frequência. O pernambucano Kleber Mendonça Filho, o diretor e roteirista do filme, é 5 anos mais velho do que eu, e posso garantir que ele usa, no filme todo, lembranças da própria infância e adolescência — para além do fato de o longa ter sido filmado na rua onde ele morou.

Aspectos sutis como o bambolê e os patins das primeiras cenas em movimento do filme — bambolê é o começo dos anos 80 em Recife; o “starfix” — as estrelas fluorescentes que eram coladas no teto do quarto de crianças como eu nos anos 70/80 — está lá, ainda que tivesse sido “pintado por cima”; o “joga a bola!” que o menino grita para ninguém, na esperança de que alguém do outro lado do muro devolva a bola que caiu no terreno vizinho — eu gritei isso, os meus amigos gritaram isso. Tudo isso me jogou dentro do filme.

A Variant que aparece num rápido flashback do tio de João, que enxerga a rua anos antes, de terra, sem asfalto, com casas de muro baixo sombreadas por pés de “coração-de-nego”… Essa rua era a minha rua, essa Variant o meu pai tinha. O visitante batia palmas para se fazer ouvir, e nós, de dentro de casa, o víamos através das grades brancas e horizontais (sim, as casas e apartamentos em Recife tinham [têm?] grades horizontais e brancas, especialmente nas janelas ou a delimitar a varanda; raramente eram verticais como as de uma prisão, de modo que as crianças podiam se pendurar e subir nelas e ir até o “céu”), que em algum momento ficaram enferrujadas exatamente como as que são mostradas no filme. E como há grades…

O cachorro. O latido de Pitu, um viralata do vizinho que morava ao lado do meu quarto e de quem eu morria de medo, era um barulho constante. O mesmo som perene das dezenas de pássaros que o mesmo vizinho, seu Galba, criava em gaiolas — e as levava para “passear” pela rua. Aquele latido ao fundo é o som ao redor da minha infância. Como o é o som da bola quicando no oitão do prédio ou no meio da rua, com chinelos que faziam as vezes de traves.

Os muros e as paredes externas dos prédios da minha rua, do meu Recife, tinham musgos. Exatamente como no filme. A minha casa, e a de muitos outros, tinha o chamado “chuveiro de praia”, onde “tirávamos a areia” depois de voltar do mar. É o mesmo chuveiro onde um casal de estudantes adolescentes se beija no filme. E eles se beijam da mesma maneira efusiva que os estudantes adolescentes se beijavam publicamente no colégio onde eu estudava, de modo que as minhas primeiras sensações sexuais foram despertadas ao observar essas cenas deliciosamente despudoradas e inocentes.

E havia azulejo e cerâmica a forrar qualquer centímetro quadrado no piso e na parede, porque “era mais prático para limpar”, diziam todas as mães — e essa era a única e aparentemente inquestionável justificativa. Hoje acho que talvez tenha sido uma força-tarefa da classe média nordestina para combater o musgo e os líquens que insistiam em desbravar as paredes, como uma pichação orgânica, uma punição da natureza pelo uso do material de baixa qualidade.

Pisos de madeira praticamente deixaram de existir numa casa decente quando os anos 80 terminaram. O piso agora é frio, gelado, algo até razoável numa cidade extremamente quente o ano todo. Mas também é um piso sem personalidade: perceba que os pisos das casas no filme são parecidos, cerâmicas quadradas de tom bege com rejunte de espessura média. Além de tudo, isso era (é?) sinal de status em Recife.

Whisky também é sinal de status em Pernambuco. Bebe-se whisky na praia, durante o almoço, em festa infantil, onde for; diz-se que se bebe mais whisky em Recife do que na Escócia, proporcionalmente. Um sinal de cafonice, bem recifense mesmo. No filme a bebida é servida na bandeja, durante a festa de aniversário da menina (aliás, nunca tinha ouvido aquela canção de aniversário; de onde é aquilo?).

Eu sou bisneto de senhor de engenho, condição parecida com a de João, o anti-heroi do filme. E essa condição faz com que a relação entre patrão e empregado no filme seja mais do que familiar para mim: ela é a minha família. O dono da casa recebe os empregados (não existe o termo “prestador de serviço” em Recife) e as crianças pela porta da cozinha. Isso sempre foi uma “loucura natural” para mim. Natural porque cresci vendo isso, os meus tios fazem isso; e loucura porque isso nunca fez muito sentido, especialmente no caso extremo de uma tia que NUNCA abria a porta da sala para ninguém (não apenas para os empregados), sob a justificativa de que iria “sujar” a área mais nobre da casa-grande. Então essa relação de senhor e escravo sempre foi e ainda é muito presente em Recife, cujos enriquecimento e história se devem em grande parte aos engenhos de cana-de-açúcar dos séculos 17 a 19.

A exemplo do senhor de engenho, que possuía muitos escravos, o patrão urbano possui muitos empregados. Muito mais do que precisa, puta merda! A minha avó tinha umas seis empregadas, todas absolutamente submissas e que se dedicaram à mãe da minha mãe por décadas (décadas!). Obviamente nenhuma empregada ficou rica trabalhando para minha avó, mas todas eram “da família”, viram os meus tios crescerem, me viram nascer, sabiam de tudo e para quem “nunca faltou nada”. E é exatamente isso o mais cruel dessa relação bizarra entre empregada (eram apenas mulheres, nesse caso) e patrão em Recife.

Elas não só dormiam no trabalho como seus quartos eram na senzala, uma edícula separada da casa principal — imagine se não fossem “da família”. Mais ou menos na década de 80, deve ter havido um sopro civilizatório na capital de Pernambuco, e, em algumas casas, as empregadas passaram a comer “na mesa com a gente” e a “dividir” copos, pratos e talheres conosco (antes, elas tinham copos, pratos e talheres “próprios”), num sinal inequívoco de que aquela família era justa e bondosa. A mesma gentileza escrota que o tio do João dispensa aos seguranças durante a festa da filha dele: já mais ou menos do meio para o final do evento, ele vai até o portão e oferece bebida aos caras, como forma de integrá-los à festa, ao mesmo tempo em que estabelece de modo claro que a festa, para os seguranças, acontece do portão para fora. Assim os empregados ficam gratos ao “patrãozinho” pela atenção recebida — afinal, ele não tem nenhuma “obrigação” de fazer isso — , e o patrão se sente mais leve por esse gesto de benevolência.

De qualquer modo, a empregada doméstica é um membro torto da família: ela está lá para servir, mas participa da educação dos filhos dos patrões, o que lhe confere uma intimidade com as crianças maior do que elas têm com os próprios pais. Quando João apresenta a amiga à empregada dele, dá-se um diálogo que revela essa intimidade (e também porque pernambucano é folgado pra caralho): “Bonita ela, João, mas tem uma cara triste”, diz, na lata, a empregada com uma camiseta de uma estação de esqui em Aspen, um detalhe maravilhoso. E tanto João quanto a amiga dele levam “pernambucanamente” numa boa esse comentário constrangedor, desnecessário e tortuosamente elogioso.

Tortuoso também é o “cuidado” que João tem com a outra empregada, a filha da que fez o comentário, quando ele pede para que ela use chinelo enquanto passa roupa, “para não levar choque”. Ela trabalha descalça, como uma escrava. Já falei que todos os empregados são negros? E que os patrões-mulatos se consideram brancos?

E pela proximidade, mas não intmidade, que a empregada tem com o patrão, ela leva as crianças dela pro “serviço”. E isso não é um problema para João, moço que passou 7 anos “nas Alemanhas”, como diz o primo maloqueiro dele. Mas é, e sempre foi, uma relação esquisita pra mim, porque a empregada trata, naturalmente, a casa do patrão como um lugar familiar, mas também é o lugar onde ela estranhamente nunca decide nada. O fato de a empregada dormir no trabalho é claramente uma demonstração brutal de poder do patrão, mais do que uma necessidade real da família — a não ser que todos os membros da família tivessem que almoçar um banquete às 6 da manhã todos os dias da semana e ninguém soubesse cozinhar.

Outra demonstração de poder: “Fulana, abra a porta aqui pra João”. É assim que Dinho, o maloqueiro pseudorriquinho — a soma de todos os meus amigos da rua — e que recebe a visita descalço, de bermuda e sem camisa — um dress code tão casual quanto recifense –, manda a visita embora. O pernambucano tem um talento irritante de se dirigir a alguém falando com uma terceira pessoa: ele expulsa o cara dando ordem à empregada. (Outro exemplo disso: um segurança pergunta para Clodoaldo como o outro segurança o conheceu. Clodoaldo responde: “Falaí, Fulano, como é que a gente se conheceu”.)

O patrão também manda a empregada pegar água (Recife é quente…) mesmo que ele tenha passado ao lado de uma garrafa d’água na cozinha. É ele quem manda. Quando a empregada precisa sair de casa para tratar de questões referentes à própria casa, ela precisa pedir permissão (!!) para isso. No filme, o patrão diz a ela: “Vá e volte!”. Só faltou dizer “e não fuja!”. Do mesmo modo, o mesmo seu Francisco, quando conhece os seguranças, pergunta o sobrenome deles e de onde eles são. E você só responde a essas perguntas quando está numa situação desvantajosa (de formulário na internet a interrogatório na imigração).

E há também a humilhação mais explícita. No filme, a cena se dá quando a empregada queima um aparelho eletrônico da patroa, que tem um chilique e grita com ela “Vá fazer as tuas coisas, sai daqui, Francisca!”, como se ela fosse uma criminosa. Quando eu era criança, não era incomum a patroa chegar a bater na empregada por alegada incompetência. Era um Back to Slavery na pele. Ainda que isso não fosse bem visto por todos, jamais, jamais houve desculpas de quem bateu tampouco retaliação de quem apanhou. Chocante. (A moradora do prédio, no filme, que cita o fato de “ter recebido a Veja fora do plástico” como uma das razões para demitir o porteiro é uma crítica irônica e potente a esse estado das coisas porque imperceptível.).

E Dinho, sempre ele, diz com todas as letras aos seguranças que a rua onde ele mora “não é favela” (com a pronúncia bem recifense do L, uma fração de segundos mais alongado), deixando claro que existe um abismo instransponível entre “nós” e “eles”, o resto, que sempre se resignou.

Mas no filme os empregados se vingam. O Som ao Redor é um excelente filme de vingança sob todos os aspectos. Uma vingança de lavar a alma com o vermelho de sangue que cai na cachoeira do engenho do seu Francisco, o velho patrão.

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PS 1: Apesar da chave naturalista do filme, dois aspectos sutis não correspondem à realidade. O primeiro é que o pernambucano fala muito mais alto do que se fala no filme. É uma eterna gritaria. O segundo é que o pernambucano, homem ou mulher, rico ou pobre, tem uma maneira de falar bastante peculiar (e nojenta) que só aparece levemente e no final do filme, durante a festa, no personagem de Dinho: o que eu chamo de “fungada retórica”, aquela respiração forte/quase escarro, que serve para pontuar uma frase, marcar um posicionamento, reforçar uma ideia. Uma conversa entre pernambucanos tem que ter isso.

PS 2: A minha total imersão no filme é coroada com a presença da minha melhor amiga de infância, que faz uma ponta como Betânia, a vizinha que ataca a mulher que recebe uma TV na porta de casa. E duas mulheres podem começar a brigar sem nenhum motivo aparente no meio da rua em Recife. E uma delas vai puxar o cabelo da outra logo de saída. Coisa de cinema.