Serial killer em crise

Eu não posso falar com muita gente sobre a minha crise no trabalho. Reconheço que toda profissão, toda ocupação, tenha suas dificuldades –e também seus prazeres. A questão é que tratar desse assunto com a minha família ou com os meus amigos é impossível. Então eu vim buscar ajuda profissional aqui com o senhor.

Sou autônomo e dependo do que faço para viver. Nos últimos tempos, o serviço rareou um pouco. Tenho que cumprir metas estabelecidas (informalmente, é verdade) por uma comissão de notáveis que se encarrega de deferir status para profissionais como eu. Nunca foi fácil atingir o número mínimo mensal de “missões”, mas algo mudou. Não sei precisar se o problema é comigo (penso bastante em tirar um período sabático para repensar em tudo) ou com o outro –o meu trabalho depende muito da colaboração alheia, ainda que, confesso aqui para o senhor, essa “colaboração” quase nunca seja espontânea nem sincera. Eu lido muito bem com rejeição, são os chamados ossos do ofício, sem trocadilhos.

O fato é que, se eu não cumprir essa meta mensal, eu deixo o cargo que ocupo há alguns anos –e que me dá notoriedade e respeito– e retrocedo brutalmente profissionalmente, o que, o senhor há de convir, não é uma boa ideia neste momento de crise mundial. O cargo anterior ao meu é ocupado por uma gente amadora, muito jovem, inciante, enfim, é um estágio pelo qual já passei, brevemente, e ao qual não quero voltar. Mas como me manter como estou?

Eu tenho métodos e material de trabalho específicos, uma rotina que me define como pessoa, poderia dizer. Porque é essa rotina, esse comportamente repetitivo, que me torna um sujeito respeitável. “Como ele consegue fazer tudo sempre igual?”, já ouvi muita gente se perguntar. Alguns se enganam ao achar que existe tédio porque há repetição. Não, mil vezes não! Sou um artista cujo objetivo é atingir a perfeição total na execução da minha tarefa. Execeução é um termo curioso, porque cabe bem no que eu faço, mas essa etapa é apenas uma das tantas que compõem o procedimento inteiro. A preparação, a escolha dos meus colaboradores e do cenário da ação; a minha desenvoltura ao reagir a situações extremas de improviso do outro (entenda que o domínio do acaso é a base da minha “carpintaria”); o grand finale; e o after-party; tudo isso precisa ser estudado detalhadamente, exige raciocínio, boa forma física e, acima de tudo, determinação.

Não seria exagero dizer que o meu ofício se assemelha ao de um professor: ambos temos que trabalhar muito em casa, além do local de trabalho propriamente dito. Não, apesar da rotina de que falei para o senhor, o local do meu trabalho pode variar. E cada local novo exige um planejamento específico, o que demanda tempo.

Digo tudo isso para salientar o fato de que atingir a meta de três “conclusões totais” (esse é o termo técnico) num mês se tornou impossível. Se durante três meses consecutivos, eu não atingir essa meta, automaticamente sou rebaixado.

Meus colegas e eu estamos tentando fazer com que essa meta seja revista e que outras características da nossa profissão sejam levadas em consideração para que permeneçamos num patamar superior aos iniciantes e despreparados em geral. Há quem nos acuse de corporativismo, mas, apesar das circunstâncias, trata-se de uma reivindicação assaz trivial!

Então, doutor, o que eu faço é arte, a arte do efêmero e do eterno a um só tempo. É a performance do definitivo. Já pensei em me considerar um especialista na Performance do Definitivo, porém não existe cartão de visitas nem publicidade no que eu faço: a melhor propaganda que posso ter é concluir cada ação com maestria. Ainda penso em levar essa “arte sem registro”, esse teatro sem público, esse happening total, a um museu. Mas penso que isso desvirtuaria moralmente o meu trabalho, e eu seria muito criticado por isso.

Então estou aqui, me consultando com o senhor em busca de respostas. Eu sei que o senhor não pode me dá-las; essa silvertape na sua boca e essa corda amarrada nos seus punhos atrapalham um pouco. O que importa é que neste momento o senhor é o meu público-colaborador, como costumo chamar –e o que a imprensa vulgar (perdão pela redundância) costuma chamar de “vítima”. É preciso ter classe para fazer o que eu faço.

Obrigado, doutor, saiba que essa performance está sendo inédita, e isso está sendo revelador para mim. Acredito que serei uma pessoa melhor ao fim desse trabalho: de fato, refleti sobre mim mesmo e sobre a minha vida. Tenho certeza que esta sessão dará o impulso que me falta para superar essa crise profissional que me aflige tanto. Pena que não poderei recomendá-lo a ninguém.

20120905-213243.jpg

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: