Invejagram

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O Instagram deve ser a rede social em que a inveja é mais abertamente declarada, não importa a nacionalidade do usuário, o que é curioso, já que inveja não é exatamente um sentimento positivo nem do qual alguém possa se orgulhar. Para atenuar um pouco esse aspecto, criou-se um subterfúgio (acredito que isso não existia no século passado) que supostamente torna mais leve esse sentimento pesado: surgiu a inveja “branca”, sinônimo de inveja “boa” –implicitamente há a inveja negra, algo realmente negativo e que não, deus me livre, ninguém diz que tem. Não vou falar desse, também suposto, racisminho que existe nessa definição, porque seria devaneio demais.

A inveja “branca” também aparece com muita frequência no Facebook, em que se compartilham muitas fotos. Mas no Instagram, em que se publicam apenas imagens, a inveja P&B fez sua morada. Eu sou um usuário frequente do Instagram há quase dois anos e publico mais fotos quanto mais eu viajo para locais desconhecidos, o que está acontecendo com frequência bem alta no último ano. Eis um ambiente ideal para o cultivo e a colheita da inveja (branca, preta ou azul).

Uma imagem de uma praia publicada no meio da tarde de uma quarta-feira, por exemplo, pode ter o inesperado efeito de deboche. E não há muito o que fazer para evitar isso, uma vez que: 1) você está na praia; 2) é uma quarta-feira; 3) os seus seguidores, apesar de estarem também numa quarta-feira, não estão nessa praia –“pior”, estão no trabalho, possivelmente numa cidade com chuva. Então, o que era uma imagem de que você gostou (pelo seu ponto de vista, pela luz, pela composição, pelo que for) se torna uma demonstração pública de empáfia –mesmo que eu não apareça na foto, como acontece na quase totalidade das imagens que publico.

Acredito que a presença da imagem do autor (sem camisa, com uma bebida na mão, só os pés descalços etc.) nesse tipo de foto possa, eventualmente, ter a intenção de mostrar que ele está numa situação melhor e mais confortável do que quem o vê; esse expediente é largamente utilizado nas redes sociais. Mesmo assim, isso não é justificativa para qualquer resposta agressiva (e dizer que está com inveja é agressivo –ou, no mínimo, deselegante).

O fato é que, no meu caso particular, que não tenho nenhuma intenção de provocar inveja em quem quer que seja, e tampouco tenho vocação para o exibicionismo vulgar, as imagens que publico são imagens em si. Elas não querem ofender, humilhar nem esnobar ninguém. Elas são imagens que existem porque eu estava naquele lugar, naquele momento, daquela maneira. E isso geralmente significa que eu estava pela primeira vez and daquela maneira naquele lugar (ou que tinha estado poucas vezes anteriormente), de modo que o entusiasmo em enxergar determinada situação inédita transborda pela imagem, conferindo-lhe um frescor quase palpável –é possível dizer isso de fotos de qualquer pessoa na mesma situação. É o momento em que um ponto de vista perde a virgindade. E um olhar virgem pode mais facilmente provocar entusiasmo suficiente para que seja registrado. O olhar “viciado”, acostumado com a repetição de determinada situação ou lugar, é um olhar estéril, incapaz de enxergar o que, muitas vezes literalmente, está diante do nariz do dono.

Pessoalmente desconheço um prazer maior do que estar pela primeira vez em um lugar, que pode ser em outro continente ou na cidade onde moro. O aspecto surpresa é fundamental nessa sensação, o que pode levar ao deslumbre. Ao dobrar uma esquina, ou ao simplesmente olhar para trás ou para cima, um “uau” pode surgir e resultar numa imagem que vai ser compartilhada no Instagram, porque talvez eu queira disseminar o meu ponto de vista sobre determinado assunto ou lugar, talvez porque seja uma maneira de levar comigo meus amigos e conhecidos (apenas alguns deles, muitos já desistiram de me seguir haha. Não sei se porque eu publico muitas fotos, por “inveja branca” ou pelos dois): eles estarão vendo exatamente o que eu vi. Talvez também porque seja uma maneira de compartilhar informações para quem vai (ou pensa em ir) para aquele lugar, para quem mora lá ou para quem já conhece o lugar.

Obviamente isso não tem nada a ver com provocar inveja em ninguém (nem “partir o coração”, como me disseram uma vez). O fato de alguém estar em um lugar diferente de você é meramente circunstancial, não é algo meritório em si. Eu estou aqui, mas antes estave lá e provavelmente estarei ali mais tarde. Possivelmente um desses lugares vai ser mais perto de onde você está. Então curiosamente talvez haja menos inveja sua quanto menos quilômetros nos separarem. Quer coisa mais ridícula do que isso? Sim, é conferir “cor” para esse sentimento.

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5 Respostas to “Invejagram”

  1. Diego Ramos Says:

    Bom texto. Entretanto, para escrever algo desse gênero não acredito que você seja isento do tipo de inveja citado.

  2. Laura Says:

    Acho que quem sente inveja disso deve parar para pensar sobre o que realmente ‘pega’, o que não está bom na própria vida para desejar estar no lugar do outro. O melhor a fazer é procurar o lugar onde você vai estar feliz. Ou ainda, achar a felicidade naquilo que você tem. Life is too short!

  3. Taís Says:

    num é vc que parte corações, é a saudade de paris 🙂

  4. Gisele Says:

    Eu discordo dessa idéia de redes sociais como provocadoras de inveja. Talvez pq eu ache q há mais o que ser invejado do q propriamente ‘lugares’. E pq eu acredite q estes sites são como o primeiro encontro: todo mundo mostra só seu lado bom (e tá ok assim). Acho q invejaria um olhar diferente sobre estes mesmos lugares, uma nova maneira de fotografar que me instigasse. Este, sim, é o problema do instagram: a banalização da beleza. Até pouco tempo, havia uma palpitação diante de uma bela imagem. Agora, isso é o mínimo q se espera d quem tenha iphone (e afins).

  5. Luiz com Z Says:

    Texto impecável. Mas identifiquei uma coisa mais ridícula do que inveja branca: traduzir “break one’s heart” como “partir o coração”.

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