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DR com SP

24/07/2012

– São Paulo, minha kirida, a gente precisa conversar. Há alguns anos a nossa relação acabou, ne? Eu não gosto mais de você.

– Ah, mas só falta dizer “não é você, sou eu”.

– Claro que não. O problema é você mesmo. Eu sou ótimo, você fede.

– Então só pode ter outra na história. E aposto que mais nova.

– Sim, tem outra. Não, é bem mais velha –e muito melhor– do que você.

– Até parece, meu amor… quem é a vaca?

– Londres, já ouviu falar? Do jeito que você é e pelas coisas que você faz, acho que não sabe de quem se trata.

– Claro que conheço, aquela onde chove direto ne? rs

– Obviamente não vou discutir chuva com você, porque as suas são animalescas, principalmente no verão, como se você quisesse devolver na mesma moeda a selvageria que seus habitantes têm todos os dias.

– Eu não tenho culpa se alaga, eu sempre chovi….

– Tá, tá! Nunca é culpa de ninguém, ne? Conheço essa sua ladainha. O fato é que você é uma merda sob todos os aspectos.

– Você é de acúcar, por acaso? Não aguenta um toró, flor?

– Prefiro uma chuva menos tropical, menos violenta. Aliás, por falar em violência, saiba que, além de podre, você é assassina demais pro meu gosto. No começo não ligava, achava que era o preço que se pagava por estar com uma gostosa como você (eu achava você gostosa, meu deus!). Mas você não é. Você está doente, isso sim. E não sou eu que vou curá-la. Você mata em um mês o que Londres mata em um ano –e não é o Estado que mata aqui. Ou seja, como eu *pude* gostar de você um dia?

– Isso, cospe no prato que você comeu. Despreza agora quem te recebeu de braços abertos, com um friozinho com que você não estava acostumado –e adorava– e com bairros inteiros de imigrantes de que você sempre gostou. Eu te dei show, restaurante e balada lavada! Foi comigo que você aprendeu a viver, não foi com aquela lambisgoia seca de Brasília!

– Primeiro: Brasilia não tem nada a ver com a nossa conversa. Segundo: você se acha demais, minha filha. Me deu show caríssimos em lugares no máximo razoáveis e geralmente ruins. OK, mesmo assim, alguns shows foram muito bons, DEVO AGRADECÊ-LA AGORA? Restaurante? Por favor, eu pago muito mais pra comer com você do que com qualquer outra. E ainda como melhor com a outra haha. E balada boa é sua obrigação me dar. Não é você mesma que diz que tem “vocação boêmia”? Era só o que faltava, além de tudo, isso também ser caído.

– Então você vai mesmo se casar com Londres?

– Não sei. A gente está ficando, se conhecendo melhor rs. Ok, a gente tá namorando.

– Afff que cafona, mano! E o que ela tem que eu não tenho?

– Basicamente tudo. Pra começar ela é linda, a mais linda de todas (e você é medonha, caso não tenha percebido ainda). Ela tem transporte público excelente (e carésimo, mas tudo bem), tem shows (mais baratos e em maior quantidade e variedade do que você), baladas (idem; e o melhor: SEM COMANDA, você sabe o que é isso?), só para ficar nos itens básicos com que você está acostumada a lidar. Além disso, o rio dela não é um esgoto a céu aberto como os seus. Isso faz muita diferença. Mas o principal é que as pessoas se locomovem muito a pé –ou melhor, sem carro, esse fetiche que só cidades do seu naipe têm, tipo Los Angeles, Miami, tudo um horror. E o fato de as pessoas frequentarem os espaços públicos de maneira ordenada e civilizada (o que seria o óbvio, mas para você isso é uma ficção) torna Londres uma pretendente imbatível. Também acho que não preciso lembrá-la de que as pessoas se locomovem a) sem morrer b) sem ser atropeladas c) sem ser assaltadas d) mais rápido. Falei de qualidade de vida? Não, porque é covardia. Também é sacanagem dizer que aqui ninguém trata o outro como inimigo ou alguém a ser combatido; conviver é um verbo que você não sabe conjugar –basta andar por 30 segundos no seu metrô zuado (quando as pessoas souberem andar de escada rolante aí, me avise). E outra: não é normal gritar “chupa!” na janela de casa; não é normal –nem pitoresco!– soltar fogos na cidade; não é normal atropelar pedestre e ciclista porque está com pressa; não é normal ir ao cinema e achar que está na sala da sua casa; não é normal morar em condomínio fechado; não é normal ter vidro escuro no carro; e definitivamente não é normal um prédio com apartamentos com quatro ou mais vagas na garagem. Você é o maior exemplo de como uma cidade não deve ser. Londres é o seu oposto, sob todos os pontos de vista: os problemas que ela tem são de outra natureza –é como se você fosse uma Londres de 60 anos atrás, às vezes de 160 anos atrás, vamos falar a real.

– Acho muito fácil pagar pau pra cidade rica. Quero ver ficar comigo e me tornar melhor.

– Bom, não tenho vocação para mártir. E também não sou estúpido. Você é um caso perdido. Você tem gente demais (se tivesse metade do que tem, ainda seria muito) e infraestrutura de menos –é uma conta impossível de fechar. Além disso, você é conservadora pra caralho. Uma carola disfarçada de “modernete”, pra usar um termo de que você gosta. Me enchi desse seu reacionarismo, desse seu ódio a pobres –porque, por alguma razão demente, você se acha A MAIS RICA DO FEICE, ne? Adora dizer que tá no topo do ranking do Brasil etc. Caguei. Caguei pra sua vulgaridade sem fronteiras: essa obsessão por luxo, riqueza, shoppings e valets. Enfie todos eles no seu rabo.

– Nofa! Tá nervosa???

– Não, só estou dizendo o que você deveria ouvir sempre, não só de mim. Eu gostava de você, você sabe disso. E, mesmo assim, você conseguiu me perder. Você tinha tudo pra que eu ficasse ao seu lado para sempre, mas jogou tudo no lixo. Um lixo de que você própria é formada e não vê –ou se recusa a ver, como uma louca. Fica aí achando que é a “locomotiva” de alguma coisa em vez de lidar com problemas constrangedores (vou te chamar de Loucomotiva, tá? Hahah). Pra mim, não dá mais. Mas na boa, no hard feelings. Cada um que siga o seu rumo agora.

– Você ainda vai voltar pra mim, escreve o que eu estou falando.

– Rs.