Garotos de Israel

Enquanto tentava obter mais informações com um cara –judeu, mas não religioso, e com um inglês fraco– sobre o que supunha ser uma série de bar mitzvot que acontecia perto da fronteira que separa os homens das mulheres no Muro das Lamentações em Jerusalém, uns oito garotos de 12 anos me cercaram, animadíssimos com o fato de eu ser brasileiro.

“Uau! Capoeira!”, “Rio de Janeiro!”, “Where are you from?”, “Why are you in Israel?”, “Where are you from??”, “Samba!”, “What football team do you support?”, “What’s your name?”, “Where are you from???”, eram as perguntas que me eram feitas com bastante entusiasmo e curiosidade às quais eu tentava responder todas, ainda que elas tivessem sido feitas quase concomitantemente, o que deixava tudo mais divertido. E mais divertido ficava à medida que as mulheres e as meninas (e alguns meninos do lado de cá) jogavam doces pro alto durante a cerimônia.

“No, not Rio, São Paulo, do you know it?” Sim, um deles tinha um amigo cuja família veio de lá. Aliás, os garotos, todos israelenses, tinham ascendências as mais variadas: sueca, húngara, argentina, suíça, colombiana+americana etc. E falavam inglês muito bem. Como me explicou um deles: “a gente fala inglês desde que era desse tamanho” e mostrou um espaço de 10 cm entre uma mão aberta sobre a outra.

Eles eram de Netanya, cidade litorânea ao norte de Tel-Aviv, e estavam lá para celebrar o bar mitzvah de um amigo. Esse era um dos mais de 10 bar mitzvot realizados durante a manhã no Muro das Lamentações (à tarde o local fica mais vazio, uma vez que o quente sol incide diretamente no muro; pela manhã há sombra).

“E vocês preferem inglês ou hebraico?”, uma das poucas perguntas que consegui fazer. Todos: “english, muito mais fácil”. Concordei.

“Corinthians”, menti sobre o meu time no Brasil. Optei por um dos mais famosos para encontrar uma resposta positiva deles. Alguns conheciam. “E qual o seu time na Eurocopa? O meu é Britannia (sic)”. Mais uma vez menti: Portugal, que havia vencido de virada na véspera. “Yeah, Ronaldo is the best”, concordou um deles. “E no basquete? Eu sou Miami Heat”. Eu também, menti pela última vez. “Gimme five!”, comemorou o moleque. “Ah, eu sou Lakers”, falou outro. “Gimme three!”. Hahaha. Lá fui eu “give three” pela primeira vez.

“Why are you in Israel?” era uma das perguntas mais comuns que eles faziam, coincidentemente também a mesma pergunta feita repetidas vezes no dia anterior no aeroporto de Tel-Aviv, onde fiquei sob custódia da polícia por 3 horas até eles se convencerem de que eu nem tinha drogas nem era terrorista (apesar de ter uma camiseta do Hezbollah na mala, mas isso é outra história e eles não descobriram, ainda que tenham aberto minhas malas).

Então eu disse (aos meninos e aos oficiais) que queria conhecer melhor o pais, porque me interessava pela história, gostava da comida… Obviamente os garotos reagiram muito melhor do que os policiais e interromperam os meus argumentos aí mesmo: “Hmmm, it’s delicious! Falafel! Shawarma! Kebab!”, diziam ao mesmo tempo. Completei com hommus, baba ghannoush. Até que um deles disse “gefilte fish”. “Eca, não gosto”, disse outro. Eu disse que adorava e descobri que esse prato não é uma unanimidade, pelo menos entre os meninos que não fizeram bar mitzvah –a maioria vai fazer no ano que vem; um deles, “daqui a uns meses”.

“Quanto tempo de viagem do Brasil pra cá? 18 horas?”, perguntou um dos mais espertos. Sim, isso mesmo, menti parcialmente, uma vez que havia chegado da Jordânia, mas esse era um assunto talvez inadequado para a ocasião e para o público. Mas esse é, de fato, o tempo que se leva do Brasil para Israel. “Agora são 5 da manhã no Brasil”, eu disse, às 11h en Jerusalém. Geral: “uau!”.

“Você sabe dizer hi em hebreu?”. Sim, shalom. “Yeah! E bye?”. Não sei, como é? “Lehitra’ot”. Claro que eles gargalhavam da minha dificuldade em pronunciar um simples tchau. Então eles passaram a me perguntar sobre o português. “Como se fala hi? E bye? E thank you?”. Ensinei. “E como se fala aaaaaawesome?”, me perguntou um. Falei: “legal”. Aí o descendente de colombiano com americana disse “muy legal”. Quase: muito legal. E eles repetiam entre si: “muuuuuuuito legal!”. Até que um deles que havia se juntado ao grupo perguntou: “E como se fala I hate you em português?”. Como assim, por que você quer saber isso? OK, falei como era, mas foi estranho, especialmente porque havia caras armados com metralhadoras do nosso lado.

Daí o amigo que fazia bar mitzvah passou bem perto de onde estávamos (eu no centro de um semicírculo de ávidos pré-adolescentes), carregando o Torá, com o braço e a cabeça amarrados com o t’filin, acompanhado de adultos que suponho serem parentes, e os garotos se dispersaram. “Esse é o nosso amigo”, me mostrou um deles para em seguida dar um soco leve no braço do amigo, como se os dois estivessem numa partida de videogame, e não que o amigo estivesse no meio de uma missão importante de um evento importantíssimo na vida de um judeu.

“Tchau, Marcelo!”, se despediram em português, sempre com um sorriso, todos.

Foram uns 20 minutos sob o sol, num calor intenso (enxugava o suor na testa constantemente), mas foi tão inusitado conversar com garotos dessa idade, nesse contexto religioso e com uma animação contagiante por descobrir algo novo e diferente, que me despedi deles não com um “tchau”, mas com um “muuuuuito legal”.

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Uma resposta to “Garotos de Israel”

  1. Zoyd Says:

    Muito bom, Marcelo!

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