Archive for junho \19\UTC 2012

A cobertura brasileira atual da morte de Jesus

19/06/2012
  • A principal notícia da noite de quinta e do começo da manhã de sexta não seria a morte de Jesus, mas um “serviço” de “como evitar o trânsito durante o evento”, com recomendações da companhia de tráfego.
  • A Globo teria o direito de transmitir a Via Sacra ao vivo com exclusividade no Brasil. Assim como ela negocia com os bicheiros do carnaval e do futebol, ela também seria a preferida da máfia romana.
  • Apenas a Globo entrevistaria Judas ao fim da transmissão. E, para coroar (rs) a exclusividade, a emissora colocaria uma microcâmera na coroa de espinhos para você acompanhar “todas as emoções” da morte de Jesus.
  • Também apenas a Globo teria exclusividade com Maria, que participaria do quadro “A Vida que Vivi” do Fantástico, que bateria recorde de audiência (literalmente graças a deus! Rs) porque iria ao ar no dia em que Jesus ressucitou.
  • O bispo Honorilton (ou Roberval ou Wescley ou Wellington ou qualquer outro bispo com nome assim) da Record entraria com liminar na Justiça para anular a exclusividade da Globo, alegando precedentes históricos no relacionamento com o filho de Deus.
  • Apresentadores com uniforme da Globo (camisa azul com logo da emissora sob uma cruz de espinhos by Hans Donner) estariam em estúdios de vidro, como os do carnaval, localizados em lugares privilegiados da Via Dolorosa (a Globo falaria Via Crúcis, a Record, Via Dolorosa. E a Folha, via Sacra (via em caixa baixa).
  • Tomadas aéreas do Globocop mostrariam a multidão de judeus em Jerusalém.
  • Especialistas comentariam o trajeto de Jesus: Drauzio Varella falaria sobre o impacto da porra toda no corpo humano (e aconselharia a não fazer o mesmo em casa); Leci Brandão comentaria todo o resto.
  • RedeTV só transmitiria o final, depois que Jesus morre, com Vesgo e Silvio Santos fantasiados de Maria Madalena, pulando e comemorando a morte dele com os populares, no caso, os judeus, longe da cruz. Ok Ok!
  • Sites de jornais e portais (inclusive a Globo.com) mendigariam fotos e vídeos do público: “Participou da crucificação de Jesus? Mande sua imagem!”. E chamariam esse material como sendo deles mesmos, com o crédito “imagens do internauta”.
  • Datena e Sonia Abrão disputariam o Barrabás a tapa. Ele acabaria indo aos dois programas (e haveria especulações de que os apresentadores teriam oferecido dinheiro ao ladrão) e depois ao Superpop.
  • Aliás, Luciana Gimenez prepararia uma surpresa nesse programa especial: além de Barrabás, ela levaria Verônica, a mulher que teria enxugado o rosto de Jesus na sexta estação da Via Sacra. “Primeiramente boa noite, Luciana”, falaria, segurando o tal lenço, para delírio da platéia.
  • Roberto Carlos encerraria a transmissão na sexta, com show ao vivo de Jerusalém, onde receberia a maior vaia da história, já que os judeus quiseram que Jesus morresse e estariam cagando pro Rei (seja ele qual fosse).
  • No sábado, Folha mostraria aferição exclusiva do Datafolha, da multidão que acompanhou o evento, com números muito menores que os divulgados pelos romanos.
  • Também no sábado, Judas seria tema de enquetes online: “Judas agiu corretamente? ( ) sim, quem nunca ( ) não, foi muito covarde ( ) não sei, também lavo as minhas mãos.
  • No domingo, todos os canais de TV transmitiriam ao vivo em esquema de plantão os últimos acontecimentos da ressurreição de Jesus.
  • Portais mudariam suas homepages para aguentar o aumento histórico de audiência.
  • Record conquistaria sua primeira vitória contra a Globo com a exclusividade do Perito Molina, que explicaria como a ressurreição é um caso perfeitamente plausível cientificamente (é na Record, ne?) e ainda faria comparações com o “evento fita crepe” de José Serra.
  • O twitter explodiria umas cinco vezes nesse dia.

Garotos de Israel

18/06/2012

Enquanto tentava obter mais informações com um cara –judeu, mas não religioso, e com um inglês fraco– sobre o que supunha ser uma série de bar mitzvot que acontecia perto da fronteira que separa os homens das mulheres no Muro das Lamentações em Jerusalém, uns oito garotos de 12 anos me cercaram, animadíssimos com o fato de eu ser brasileiro.

“Uau! Capoeira!”, “Rio de Janeiro!”, “Where are you from?”, “Why are you in Israel?”, “Where are you from??”, “Samba!”, “What football team do you support?”, “What’s your name?”, “Where are you from???”, eram as perguntas que me eram feitas com bastante entusiasmo e curiosidade às quais eu tentava responder todas, ainda que elas tivessem sido feitas quase concomitantemente, o que deixava tudo mais divertido. E mais divertido ficava à medida que as mulheres e as meninas (e alguns meninos do lado de cá) jogavam doces pro alto durante a cerimônia.

“No, not Rio, São Paulo, do you know it?” Sim, um deles tinha um amigo cuja família veio de lá. Aliás, os garotos, todos israelenses, tinham ascendências as mais variadas: sueca, húngara, argentina, suíça, colombiana+americana etc. E falavam inglês muito bem. Como me explicou um deles: “a gente fala inglês desde que era desse tamanho” e mostrou um espaço de 10 cm entre uma mão aberta sobre a outra.

Eles eram de Netanya, cidade litorânea ao norte de Tel-Aviv, e estavam lá para celebrar o bar mitzvah de um amigo. Esse era um dos mais de 10 bar mitzvot realizados durante a manhã no Muro das Lamentações (à tarde o local fica mais vazio, uma vez que o quente sol incide diretamente no muro; pela manhã há sombra).

“E vocês preferem inglês ou hebraico?”, uma das poucas perguntas que consegui fazer. Todos: “english, muito mais fácil”. Concordei.

“Corinthians”, menti sobre o meu time no Brasil. Optei por um dos mais famosos para encontrar uma resposta positiva deles. Alguns conheciam. “E qual o seu time na Eurocopa? O meu é Britannia (sic)”. Mais uma vez menti: Portugal, que havia vencido de virada na véspera. “Yeah, Ronaldo is the best”, concordou um deles. “E no basquete? Eu sou Miami Heat”. Eu também, menti pela última vez. “Gimme five!”, comemorou o moleque. “Ah, eu sou Lakers”, falou outro. “Gimme three!”. Hahaha. Lá fui eu “give three” pela primeira vez.

“Why are you in Israel?” era uma das perguntas mais comuns que eles faziam, coincidentemente também a mesma pergunta feita repetidas vezes no dia anterior no aeroporto de Tel-Aviv, onde fiquei sob custódia da polícia por 3 horas até eles se convencerem de que eu nem tinha drogas nem era terrorista (apesar de ter uma camiseta do Hezbollah na mala, mas isso é outra história e eles não descobriram, ainda que tenham aberto minhas malas).

Então eu disse (aos meninos e aos oficiais) que queria conhecer melhor o pais, porque me interessava pela história, gostava da comida… Obviamente os garotos reagiram muito melhor do que os policiais e interromperam os meus argumentos aí mesmo: “Hmmm, it’s delicious! Falafel! Shawarma! Kebab!”, diziam ao mesmo tempo. Completei com hommus, baba ghannoush. Até que um deles disse “gefilte fish”. “Eca, não gosto”, disse outro. Eu disse que adorava e descobri que esse prato não é uma unanimidade, pelo menos entre os meninos que não fizeram bar mitzvah –a maioria vai fazer no ano que vem; um deles, “daqui a uns meses”.

“Quanto tempo de viagem do Brasil pra cá? 18 horas?”, perguntou um dos mais espertos. Sim, isso mesmo, menti parcialmente, uma vez que havia chegado da Jordânia, mas esse era um assunto talvez inadequado para a ocasião e para o público. Mas esse é, de fato, o tempo que se leva do Brasil para Israel. “Agora são 5 da manhã no Brasil”, eu disse, às 11h en Jerusalém. Geral: “uau!”.

“Você sabe dizer hi em hebreu?”. Sim, shalom. “Yeah! E bye?”. Não sei, como é? “Lehitra’ot”. Claro que eles gargalhavam da minha dificuldade em pronunciar um simples tchau. Então eles passaram a me perguntar sobre o português. “Como se fala hi? E bye? E thank you?”. Ensinei. “E como se fala aaaaaawesome?”, me perguntou um. Falei: “legal”. Aí o descendente de colombiano com americana disse “muy legal”. Quase: muito legal. E eles repetiam entre si: “muuuuuuuito legal!”. Até que um deles que havia se juntado ao grupo perguntou: “E como se fala I hate you em português?”. Como assim, por que você quer saber isso? OK, falei como era, mas foi estranho, especialmente porque havia caras armados com metralhadoras do nosso lado.

Daí o amigo que fazia bar mitzvah passou bem perto de onde estávamos (eu no centro de um semicírculo de ávidos pré-adolescentes), carregando o Torá, com o braço e a cabeça amarrados com o t’filin, acompanhado de adultos que suponho serem parentes, e os garotos se dispersaram. “Esse é o nosso amigo”, me mostrou um deles para em seguida dar um soco leve no braço do amigo, como se os dois estivessem numa partida de videogame, e não que o amigo estivesse no meio de uma missão importante de um evento importantíssimo na vida de um judeu.

“Tchau, Marcelo!”, se despediram em português, sempre com um sorriso, todos.

Foram uns 20 minutos sob o sol, num calor intenso (enxugava o suor na testa constantemente), mas foi tão inusitado conversar com garotos dessa idade, nesse contexto religioso e com uma animação contagiante por descobrir algo novo e diferente, que me despedi deles não com um “tchau”, mas com um “muuuuuito legal”.

O Som de Beirute

11/06/2012

Como boa parte das cidades pobres (São Paulo inclusive), Beirute privilegia carros. Não há metrô, há poucos ônibus e não se anda muito a pé por aqui. Carro, van, moto e táxi (que pode ser compartilhado) são os principais meios de transporte de uns 2 milhões de pessoas, mais ou menos a metade da população do Líbano.

E, como em todas as cidades pobres com muita gente, o trânsito é pesado. E em Beirute ele também é peculiar. Apesar de muito intenso durante todo o dia, o trânsito não é agressivo como, por exemplo, em São Paulo; diferentemente do brasileiro, o motorista libanês não tem a intenção de assassinar o pedestre (aqui se mata por motivos muito mais interessantes) nem quer “ensiná-lo” a andar na rua. Tampouco o libanês está com pressa, pelo menos não a urgência que o paulistano tem para chegar a qualquer lugar antes do cara que está ao lado dele, numa competição imaginária demente.

Mas, puta que o pariu, como os libaneses buzinam! Desde os anos 50, a mãozinha libanesa está colada na buzina da moto e do carro –provavelmente um Mercedes, ou Marcedes, como se diz. E eles buzinam por tudo e para todos, ainda que quase nunca a buzina seja acompanhada de um grito ou de um xingamento –e há motivos de sobra para isso. Ninguém aqui dirige muito bem ou com cautela: não se respeitam os sinais, as placas, direção das ruas, nada, é uma zorra (como atravessar a rua merece um post à parte). Mas curiosamente as coisas se ajeitam. E a buzina é a liga disso tudo, é o sinal sonoro que evita o caos total –e pode levar um forasteiro à beira da loucura.

Então, baseado na minha observação e na experiência como passageiro durante poucos dias, eu listei alguns motivos pelos quais os libaneses buzinam em Beirute:

1. Porque o sinal abriu
2. Porque o sinal abriu e o carro da frente não andou
3. Porque o sinal abriu e o carro da frente não andou porque o dono decidiu que ali era uma vaga e saiu do carro
4. Porque o carro da frente ocupa duas faixas e impede a sua passagem
5. Porque o carro do lado quer ocupar a sua faixa também
6. Porque um carro o fechou (nunca bruscamente)
7. Porque o carro da frente está mais lento do que você gostaria
8. Porque o carro da frente parou. Simplesmente parou, do nada.
9. Porque um carro quer entrar na sua frente (e geralmente consegue porque se dá passagem)
10. Porque o carro que quer entrar pede passagem
11. Porque alguém está andando na calçada (os táxis usam esse expediente para chamar passageiros, um inferno, como se o pedestre pudesse pensar: “Nossa, é mesmo! Acho que eu preciso de um táxi! Obrigado por me lembrar”)
12. Porque está tudo parado, e é legal se ocupar de alguma maneira
13. Porque o carro está andando e o motorista quer marcar presença na rua
14. Porque um pedestre está atravessando a rua (mais para dizer “eu estou vendo você” do que “sai da frente, filhodaputa”)
15. Para chamar um conhecido na calçada (daí para para conversar –e tome buzina atrás)
16. Porque a Vespa está na contramão, e talvez seja o caso de ela lembrar os demais motoristas e principalmente os pedestres disso
16. Porque um ou mais carros passaram pelo sinal vermelho e quase bateram em você
17. PORQUE SIM, porque sem buzina o libanês não conseguiria tirar o carro do lugar

Na grande maioria das vezes, a buzina é acionada uma ou duas vezes rapidamente. Acioná-la três vezes acontece, mas é menos frequente. Raramente alguém mete a mão na buzina por mais de três segundos. E, quando está tudo parado (quase sempre) e ninguém está buzinando (o que deve ser um intervalo de pouquíssimos segundos), um carro buzina, então outro responde e mais dois ou três buzinam ao mesmo tempo, e por aí vai.

Então eu percebi que a buzina é uma forma de se comunicar em Beirute. E, de certa forma, é uma maneira eloquente, ainda que histérica, de dizer: está tudo bem, as coisas estão funcionando.

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