Melhora essa cara!

Voltava de um almoço com amigos, eram mais ou menos 17h30, quando decidi ir por um caminho que passei a fazer com mais frequência quando vou pra casa a partir da Vila Madalena, porque acho mais agradável, gosto das casas e dos grafites que há por lá. Mas havia um semáforo fechado.

“Sai do carro!”, foi a voz que veio acompanhada de três caras na minha direção, mais um revólver na mão do que estava no meio deles. Então, em dois segundos, eu passei de motorista a passageiro no banco de trás do meu próprio carro, com essas novas companhias, que deviam ter uns 21, 22 anos, camiseta e bermuda —além da arma, o cara do meio usava calça jeans, dois sinais de liderança, confirmada com o fato de que ele foi o motorista.

Dois se sentaram ao meu lado e fizeram com que eu ficasse entre eles, mas na primeira esquina eles perceberam que era um pouco ridícula e obviamente suspeita essa situacão, de modo que um deles foi para o banco da frente e eu fui obrigado a usar o cinto de segurança. O cara que estava do meu lado tinha a “peça” (a arma cromada, com cano mais longo do que o famoso três-oitão) apontada sempre para o chão, mas constantemente lembrada por todos que ela estava ali pronta pra ser usada. Eles diziam o tempo todo para eu não olhar para os lados nem para baixo, ficar com as mãos abaixadas e gritavam, principalmente no começo: “Melhora essa cara!”. Foi com essa rapeize que passei as quatro horas seguintes.

Eles diziam que “só queriam o dinheiro” (não queriam amar, por suposto), que não queriam o carro e que eu ia voltar “de boa” pra casa. Quanta gentileza, rapazes! Durante o “passeio”, eles me fizeram perguntas pessoais, motivados pela dona do maço de cigarro que estava no porta-luvas: “minha ex-mulher”. Risos. Perguntaram meu nome (falei a verdade), idade (idem), profissão (idem), estado civil (“separado”), filhos (“uma, de 3 anos”, para tentar provocar um pouco de pena neles), mora em casa ou apartamento etc. A última pergunta desse bloco Íntimo&Pessoal veio do motorista: “Tu é gay, mano?”. Risossssss. “Não, sou separado com uma filha pequena, já falei”, quando o correto seria “Vai te foder, filho da puta!”

A questão é que o dinheiro que eles queriam não veio tão fácil. Por uma combinação de fatores (entre eles, a burrice e o despreparo dos caras), apenas no terceiro caixa eletrônico a coisa se deu. Nos dois anteriores, um cara descia do carro e tentava sacar com meu cartão de débito e senha. Ele voltava com o extrato e dizia que não dava pra sacar; eram as piores informações que eu podia ouvir dqueles lábios cagados, porque eles achavam que isso era responsabilidade minha e que eu ia pagar por isso. Mas eu não sabia que eu já tinha atingido o limite do saque diário na manhã daquele dia ao tirar dinheiro para pagar a faxineira. Só soube disso quando finalmente eles se convenceram que seria mais eficiente se eu mesmo sacasse a grana (acompanhado deles, claro), então eu vi o aviso na tela. Eu não sei o que poderia acontecer se eu não tivesse um cartão de crédito com o qual pudesse sacar. Foi o que fiz, na agência Itaú do Pacaembu.

Fui sequestrado perto do metrô Sumaré, passei pelos Jardins e fomos em direção ao Pacaembu porque o motorista errou o caminho. Mais do que isso, ele ignorava o significado das palavras “direita” e “esquerda”, o que pode ser útil num debate político, mas desastroso quando se está na direção de um carro que não é seu. Estou falando do líder do trio, veja bem. E, sim, eu indicava o caminho o tempo todo, eles não sabiam muito bem onde estavam; me perguntaram, por exemplo, como se chegava à “rua principal de Pinheiros”, uma definição até correta para a avenida Rebouças.

No Pacaembu e com a grana nas mãos deles (que, segundo me informaram mais de uma vez, era “só” o que eles queriam), achei que eles poderiam esclarecer uma questão: “Agora o que vocês vão fazer?”. “Fica na sua aí”, respondeu um, enquanto outro respondeu com outra pergunta: “Esse cartão [de crédito] também faz compra?”

Pelo amor de deus, que tipo de assaltante é você?! Isso é que eu diria se não estivesse na situação em que estava, mas apenas pensei que a dúvida do cara indicava que absolutamente qualquer coisa podia acontecer, inclusive a minha morte, porque esses animais claramente não sabiam o que estavam fazendo.

“Sim”, respondi. “Vamo pro shopping Taboão”, sugeriu o cara que estava do meu lado, com a arma. “É, tio? [eles se tratavam por tio] Quer levar ele também pra ver onde a gente mora? Passar na frente da casa da gente?”, respondeu o motorista-líder com um argumento genial para não irmos para lá. Também tentei argumentar que talvez isso não fosse uma boa ideia, já que eles estavam com o dinheiro, que era o que eles queriam. O motorista foi incisivo, ainda que bem pouco preciso: “Ow, mano, só R$ 700? [R$ 550 do saque mais o que estava na minha carteira] Dividindo por três, faz as conta? Dá R$ 300 pra cada”. Então fomos às compras às 18h30 de uma Sexta-Feira Santa.

Primeiro pelo Pacaembu, bairro com poucas lojas nas ruas. Tentei fazer o motorista subir a Angélica na esperança de encontrar alguma loja de tênis (o cara que queria ir para o shopping Taboão queria comprar tênis), mas infelizmente o motorista mais uma vez não distinguiu direita de esquerda e descemos a Angélica, de modo que eu tive que indicar o caminho até a Consolação para voltarmos para os Jardins, onde eles mesmos haviam visto lojas nas ruas. “É lá onde tem um monte de segurança”, um deles bem definiu o bairro sob o ponto de vista de um ladrão.

O líder era um péssimo motorista, fazia o carro “morrer” várias vezes (antes o carro do que eu!), mas tinha o cuidado de não ultrapassar o limite de velocidade nas lombadas eletrônicas, obviamente não por consideração a mim, mas para não chamar a atenção nem sair lindo na foto do flagra. Então mais uma vez ele virou na direção errada, e encontramos uma procissão (!) bem na nossa frente, na rua Aureliano Coutinho, tudo parado. (Quão maravilhoso é o roteirista desse filme que se chama Minha Vida?!) O cara manobrou e voltou pela contramão. Sweet.

Eles viram que as lojas dos Jardins estavam fechadas, apesar de eu ter alertado sobre isso a eles, na tentativa de dissuadi-los a fazer compras e terminar logo aquela porra. Foi aí que pegamos a “rua principal de Pinheiros” para irmos a Taboão da Serra. Ah, que maravilha, sempre quis conhecer essa magnífica cidade, melhor ainda acompanhado por locais, não é?

Fomos até o Extra, na Francisco Morato. O motorista pegou o ticket, a cancela subiu e entramos no estacionamento. Ele e o cara que estava do meu lado foram às compras com o meu cartão de crédito, e eu fiquei dentro do carro, acompanhado do cara que estava à frente, que, por sua vez, estava acompanhado do revólver, que eles mais escondiam do que apontavam pra mim, provavelmente para que eu não desconfiasse que fosse falso. O que ficou comigo na verdade preferia ter entrado no supermercado, porque “não queria fazer besteira” comigo. Olha, eu também não queria que ele fizesse, que coincidência! Porém o líder decidiu que ele ficasse.

Acho que fiquei nessa situacão por uns 40 minutos, alertado sempre para “não fazer gracinha” nem “bancar o herói”. Daí o meu companheiro, que reclamava de dor de cabeça enquanto fumava “o cigarro da minha ex-mulher”, disse: “Eu sei que você não tem nada a ver com isso, mas vou te contar minha história”. (O roteirista da Minha Vida me enfiou num clichezão dessa vez!) Basicamente, ele “entrou nessa vida” porque uma mulher que dizia que o amava e para quem ele “deu tudo e fazia de tudo” o trocou por “um cara que tinha moto e carro”. “Eu faria o mesmo!”, pensei, mas comentei: “E você acha que, se você tiver um carro e uma moto, ela volta pra você?”. “Nem quero, só quero mostrar pra ela que eu consigo”, disse o ex-metalúrgico, que no final não fez “nenhuma besteira” comigo. Mas é um retardado filho da puta mesmo, né?

Então o motorista voltou para o carro, pediu o meu cartão de débito e a senha (foi a 65ª e última vez que eu passei a senha pros ladrões), me devolveu o meu cartão de crédito, obrigado, e voltou para o Extra. Então o celular tocou.

Parêntese sobre o celular: (Ele já havia tocado algumas vezes durante o passeio, mas o cara do meu lado, que estava com o celular desde o começo, não disse nada sobre as ligacões, o que havia irritado o cara que estava na frente e que virou meu companheiro de carro: “por que você não deu pra ele atender?”, perguntou. “Pra quê? Pra ele atender com voz de choro?”. Durante todo o tempo, eles mudavam de ideia sobre o destino do celular: ora me devolveriam, ora ficariam com ele. A questão principal era o fato de ele ter rastreador. Outra questão menor era o chip do iPhone, que não sai facilmente sem um objeto específico —e, ao contrário do Pedro, eles queriam me devolver o chip).

O cara que tinha reclamado do comparsa me mandou atender o celular e “falar direito”.”Sim… não…. não… sim…. sim”, foi o que falei. Do outro lado da linha, o cara do cartão de crédito me perguntava, respectivamente: “Sr. Marcelo? O sr. confirma a compra d… [nem deixei ele terminar a frase]? O sr. confirma outra compra no valor d…? O sr. quer bloquear e cancelar o cartão? O sr. quer que envie a segunda via?”. O cara, obviamente, desconfiou: “Tá falando com quem?”. Fiz um sinal de “só um minutinho” e continuei falando. O cara do cartão me mandava “aguardar alguns instantes” porque o “sistema estava processando as informações”. Daí eu falei que tinha que desligar, quando o cara que estava comigo pegou a arma —achei um argumento razoável. “Era a Tim, sobre uma conta atrasada”, tranquilizei o cara, que acreditou. Burro.

Depois de cerca de uma hora de ter chegado ao Extra, o motorista voltou nervoso e agitado para o carro (o terceiro cara ficou por lá, provavelmente com as compras, que, soube depois, foram TV, som, notebook etc.), dessa vez definitivamente, e saiu cantando pneu em direção à… entrada do estacionamento. Um idiota completo. O cara que estava comigo no carro fez uma pergunta sensata, mas patética diante da situação: “Pagou o ticket do estacionamento?” Em vez de responder, o motorista manobrava para achar a saída. E o pânico, que havia se dissipado, voltou a me acompanhar, porque o motorista estava dirigindo pior e mais rápido do que nunca num estacionamento. Até que eles pararam, desceram correndo com a arma na mão, deixaram as portas abertas e falaram para eu não sair do carro. Porque os vidros estavam meio embaçados depois de uma hora com duas pessoas dentro do carro, eu não fazia ideia do que estava acontecendo: se eles haviam sido descobertos, se os seguranças (ou a polícia) estavam atrás deles, se haveria tiroteio etc.

Então saí do carro do mesmo jeito que havia entrado quatro horas antes: tremendo, aterrorizado, levemente agachado. Eles haviam fugido, pularam a cerca, atravessaram a avenida e foram em direção “à favela”. Uma senhora apareceu falando alto, gesticulando, dizendo que tinha visto os caras correndo e tentou me acalmar: “Tá tudo bem, meu filho, não fizeram nada com você, né? Tá tudo bem, me dá um abraço, pronto, acabou, tá tudo bem agora”. Eu a abracei e chorei, por tudo o que aconteceu e pelo gesto dela. Eram 21h30, mostrava o meu celular esquecido no carro.

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5 Respostas to “Melhora essa cara!”

  1. DJr Says:

    Q merda tudo isso… lamento mesmo. Força para você!
    Abcs.

  2. Adriana Almeida Says:

    putz…:/

  3. melqui Says:

    Cara, passo todo dia nesse subidinha, travessa da sumaré, perto da universidade. E, pelo visto, não tem mais hora e nem lugar, né? Força pra vc aí e que bom que ce vomitou o texto 🙂 abraço

  4. myrianelizabeth Says:

    Ainda bem que vc mantém o humor 🙂

  5. eab512 Says:

    Uma merda a situação deste capítulo, mas uma ótima a história de sua vida continuar “de boa” e podermos ficar surpresos, atônitos, atordoados, indignados e, ao fim, aliviados. Força e sorte, Marcelo!

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