Archive for novembro \06\UTC 2011

Aquela do português

06/11/2011

Já havia acontecido antes e aconteceu novamente ontem. Quando passo alguns dias ouvindo línguas eslavas, ocorre um fenômeno que considero um “delírio consciente”, o estágio inicial de uma esquizofrenia peculiar –literalmente eu ouço vozes, e essas vozes incrivelmente “falam português”.

Mas obviamente nunca é português, e isso é enlouquecedor.

Ontem, andando por Viena, ouvi “português” diversas vezes, numa cacofonia perturbadora, ao ponto de ter certeza de que dois caras falavam sobre um “jogo entre Coritiba e Palmeiras”. Tudo certo se os dois não estivessem falando russo.

O russo tem a sonoridade do português ao contrário, como uma língua do demônio, como, aliás, é chamado o húngaro, que eventualmente também me pareceu um português quebrado. O eslovaco escrito se parece com o croata, de modo que, entreouvido circunstancialmente, ambos soam como português do interior de Minas. Por ser latino, o romeno é intrigante, porque é um “português” com muitas, muitas gírias, então você reconhece alguma coisa, mas sabe que aquelas pessoas estão escondendo algo de você.

Então isso me desconcerta com frequência, já que, sempre que ouço “português”, eu me detenho para verificar se estou louco mesmo ou se existem brasileiros conversando sobre temas banais ao meu lado. A primeira opção é a mais frequente.

Até que, ontem à noite na balada, um pouco bêbado, ouço português em meio à música alta (sempre variações chatas de techno, mesmo de músicas mais pop). Não é possível! Agora eu estou delirando sob efeito de álcool, o que configura certo risco, já que, se isso está ocorrendo, o imprevisível pode acontecer.

Decidi verificar. Não perguntei que língua a pessoa estava falando, o que seria uma abordagem neutra e levemente linguística/antropológica. Interrompi a conversa de dois caras e perguntei, em inglês, se o que ele estava falando era português. “Yes”, foi a resposta. “Não acredito! Finalmente!”, comemorei em português, diante de dois brasileiros que estariam incrédulos, não fosse a interpretação mais óbvia da situação: eu estava contente em ter encontrado dois compatriotas (que também estavam viajando) num buraco na Áustria.

Então eles foram receptivos, me apresentaram aos amigos vienenses de cada um, e conversamos um pouco –eles, animados com um brasileiro animado em encontrá-los; eu, aliviado por ter constatado que não estava completamente louco.