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Sobre Tessália

04/02/2010

Tessália foi uma participante incomum no BBB. E por isso bem-vinda, por se comportar de modo heterodoxo, quase um antiespetáculo. Não se trata, obviamente, da cena do suposto sexo que ela teria feito com Michel sob edredom, mas o modo agressivo e nada condicionado como ela “jogou” e como ela reagiu na noite de sua eliminação.

Na noite do paredão, Tessália não correu em direção à TV da casa para cumprimentar seus parentes aos gritos. Chorou um pouco, forçosamente, sentada no sofá. Não me recordo de um “brother” que tenha reagido assim quando estava na “berlinda”. Os demais candidatos, amestrados por nove edições de BBB, gritam e choram ao ver pai, mãe etc. na plateia, mesmo que estejam apenas há uma ou duas semanas sem vê-los. Difícil acreditar que eles tivessem a mesma reação se não estivessem sendo vistos pelo país todo (e monitorados por um medidor de batimentos cardíacos, máquina que tem o papel de converter a tal “emoção” em números). Macacos, corretamente estimulados, não reagiriam diferente dos “brothers”.

Tessália não chorou ao se despedir dos demais moradores, visivelmente mais “consternados” com a eliminação dela –ou seja lá de quem for, o comportamento é o mesmo. É improvável que, se não tivesse sido eliminada, Tessália tivesse “agradecido” ao Brasil no jardim, também aos berros, como virou padrão há várias edições entre os “sobreviventes”. Logo após o anúncio anticlimático de Pedro Bial, Tessália ouviu até palavras de consolo que jamais pediu ou fez por merecer. Já eliminada, a tuiteira falou com certo equilíbrio com “Pedro”, mais uma vez infeliz em seus comentários. E essa placidez dela não dá audiência em televisão, especialmente na brasileira, movida a lágrimas. É antipático, não é?

Tessália também não se “emocionou” quando foi indicada por Eliane, que o fez depois de dizer que sentia “dor no coração” por fazê-lo. Ela “sabia” que seria indicada e lidou com o fato quase sem reação. Tratou a situação como uma condição desfavorável em relação a qual, também sabia, tinha pouco a fazer em 48 horas.

Tessália encarava o programa como uma guerra que poderia vencer com sua frieza, cálculo e certa perspicácia (sob o ponto de vista dela). Poderia se essa guerra não fosse definida pelo público, que tende a rejeitar comportamentos que destoam do “normal”, ou seja, que saem do roteiro que ele, igualmente ou mais condicionado que os participantes, quer ver. Tivesse Tessália chorado ou “sofrido” por algum motivo cretino (como são todos os motivos pelos quais se chora num reality show), talvez houvesse menos votos para eliminá-la.

O elemento surpresa, o participante “desestabilizador”, aquele que identifica quem é o mais “forte” e traça metas para “eliminá-lo” e que revela ao país que está disposto a entrar em algum “esquema” para ganhar (visto como amoral), esse candidato tende a ser expulso. Especialmente se tiver feito sexo. Claro que, nesse caso, a rejeição do público recai apenas sobre as mulheres.

E então geralmente vencem (ou melhor, não são eliminados) participantes limítrofes (Kleber Bambam, Alemão), inexpressivos (Cida, Mara) ou os dois (Dhomini, Max). Afinal, os galãs e as mocinhas das novelas, por quem o público “torce”, também não são assim?

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