Viajar

Muito já se falou sobre a diferença entre turista e viajante. Conheço ambos. Eu sou um viajante, ainda que não haja nisso um juízo de valor como pode parecer. É apenas uma opção.

Quando viajo, quero estar no lugar. O turista nunca está no lugar aonde vai. Ele sempre está no lugar de onde veio, não importa onde esteja. Visitar pontos turísticos, especialmente de cidades grandes; ser guiado por livros ou pessoas; estar em grupo que se desloca em conjunto; isso tudo é estar ausente. É absorver o mínimo possível do lugar novo.

Apesar de isso não me interessar, reconheço o conforto que o estado de turista proporciona. Não há riscos _ou eles são extremamente calculados. “Não abro mão de viajar em uma excursão, adoro, a gente faz amigos…”. Ouvi isso no interior da Rússia, acho que em Suzdal, de um brasileiro que estava na mesma excursão que eu (a minha primeira e talvez a última). Ele estava satisfeito com o passeio, achava ótimo ter um guia que falasse português (ou algo próximo), que o indicasse aonde ir e que lhe explicasse o que ele estava vendo.

Não compreendo a vantagem de fazer amigos brasileiros na Rússia, prefiro conhecer os russos, é por isso que estou lá. Não quero a companhia de um guia para ir à esquina. Quero ir sozinho e provavelmente ir muito além da esquina, para voltar com uma bagagem pela qual não se paga excesso: histórias. Ir a um show em Moscou (que você viu no único jornal em inglês da cidade), conhecer uma doce garota moscovita, pegar carona com um desconhecido _prática comum_, ir a um bar onde há uma banda de soca, só com negros _absolutamente incomum_, e conversar sobre a vida, o mundo, mim e ela não está na lista de atrações de nenhuma agência de turismo.

Não se encontram histórias sem correr riscos, daí a natureza básica do viajante e a diferença primordial entre ele e o turista, que obedece aos guias de viagem como a um líder espiritual, sem contestá-lo.

O viajante age de maneira oposta. Busca informações mais detalhadas, tenta se infiltrar na cidade de modo que ela o absorva e ele a engula e passe a chamá-la de sua cidade também. O viajante opta por uma via mais espinhosa, e o turista, por uma mais alcochoada, digamos assim.

Então é preciso observar, planejar e principalmente arriscar_ e isso não é confortável, dá trabalho, às vezes cansa_, que é o que um turista menos quer, afinal o descanso e a “maravilha da vista da cidade do alto” é tudo o que ele busca quando sai de casa. Frequentemente ele encontra o que já sabe como é. Surpresa nula, o prazer reside apenas em ter “conseguido” fazê-lo. Ir a um lugar é bem diferente de ter estado lá.

É uma questão de disposição de espírito. É preferível ir ao Chez Marianne em Paris a subir na Torre Eiffel. É muito mais interessante ficar perto da praça Taksim em Istanbul do que se hospedar em Sultanahmet, onde está a maioria das atrações “turísticas” e a minoria dos lugares legais da cidade. É aconselhável ir a uma festa no subsolo de um estacionamento em Nova York a ir até a Estátua da Liberdade. Acordar na casa de um “novo amigo” em Berlim é o tipo de diversão que nenhum folheto de turismo pode oferecer. E você jamais encontraria uma professora do Texas num clube “semiproibido” de São Petersburgo se você tivesse que acordar cedo no dia seguinte para ir a algum palácio kitsch fora da cidade.

Ou seja, é uma questão de escolha, não exatamente de aventura, ainda que, como disse, isso envolva alguns riscos. O prazer do risco, de descobrir o desconhecido, de excitar suas pupilas com o verdadeiramente novo, o prazer de se surpreender de fato é o que move um viajante. Ou pelo menos é o que me faz sair de casa.

Mas tudo isso já foi dito.

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