“Parece que esse cara é daqueles que saem de casa e vão tentar impressionar o mundo com seus conhecimentos musicais”, pensei ao conversar com um sujeito que falava de alguns acts com intimidade e segurança. A intimidade foi adquirida talvez no dia anterior com alguns cliques na internet, e a segurança advinha dessa facilidade em se tornar falsamente íntimo de algo de que nunca nem ouvira falar poucas horas antes.

Eu tenho um prazer genuíno em conversar com pessoas assim. Porque desestruturá-las é a minha diversão. “Sei, que legal. Você conhece mesmo essa banda, né?”. Ah, não gosta tanto assim dela, era o balanço que ele tentava me transmitir baseado em seu amplo conhecimento do assunto.

É preciso boa dose de nonchalance para tentar convencer, de outro modo fica evidente o seu esforço em mostrar alguma superioridade intelectual, e não é legal se exibir de modo tão óbvio. Então de vez em quando ele falava só o primeiro nome dos músicos –ele realmente estava me entretendo.

Os melhores momentos são quando surgem exemplos para darem uma idéia do que ele está falando, preocupação didática bem-vinda. “É meio White Williams, meio Liquid Liquid, sabe?”, “É uma mistura de Calvin Harris e Beatles pré-Yoko”. O cara era bom mesmo, porque ele fazia tudo direitinho: citava gente com um (ou nenhum) álbum lançado como referência e soltava ora nomes antigos e undergrounds, ora bastante reconhecíveis para trazer o interlocutor de volta à conversa –nesse último caso, nota-se um sentimento de piedade em relação à ignorância alheia. Ele era mesmo muito bom.

“O show do Hercules and Love Affair“, disse ele, “é um lixo, uma bosta”. Ele havia gostado muito do disco, em sintonia com o grupo no qual ele está/quer ser inserido (não é preciso muito talento para identificar quais bandas você deve dizer que gosta), mas se “decepcionou” com o show que viu na Espanha (outro país, festival legal: tudo credencial positiva para ele).

Como um mensageiro que chega de terras distantes para anunciar as boas novas, esse cara falava como se fosse testemunha única de um evento que não poderia ser compartilhado por mim e pelas outras pessoas em volta porque não estávamos lá. Tinha razão. E isso lhe dava autoridade para ser peremptório.

“Ah, eu me diverti bastante no show deles”, disse eu para uma inenarrável surpresa do cara. “Onde você viu?”, me perguntou como um guarda pede os documentos. Então eu, que já estava me divertindo horrores, me preparei para a punch line e obviamente usei as mesmas armas que o cara havia usado até então para deixar tudo melhor ainda: pedantismo, demonstração tola de suposta superioridade, idéia de exclusividade e alguma indiferença.

“Em Londres. Foi o primeiro show deles na Inglaterra, uns dias antes desse festival aí, num buraco no Soho, muito legal, foi beeeem divertido, devia ter umas 200 pessoas, acho, sold out. Quer mais cerveja?”.

Nesse ponto o cara passou a dizer que realmente o show que ele vira tinha sido péssimo, tão ruim que o tom era quase agressivo. Claro que a agressividade dele não era em relação à banda, mas a mim que havia direcionado os holofotes para longe do seu campo de atuação, meu objetivo incial.

“Falou, o prazer foi todo meu”, me despedi.

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