DUBROVNIK, MEU AMOR

Cerca de uma hora depois de decolar de Zagreb, eu estava diante de um cenário de uma beleza tão impactante que me fez chorar pequeno. Pequeno eu também me sentia diante daquele mar azul klein que ganhava matizes incríveis à medida que se aproximava do continente, formado por montanhas tão áridas quanto claras.

Aliás, eu tinha certeza de que as montanhas, ao se interromperem abruptamente na água, reverenciavam o mar. A terra, cinza claro, literalmente se curvava ao profundo azul; elas jamais poderiam conquistá-lo, apenas se resignar. No encontro dos dois, uma cor inédita para os meus olhos, uma felicidade incontida de estar confortavelmente pequeno diante do sublime.

Na verdade, aquelas rochas sem vida eram esmagadas pelos azuis do mar e do céu –se eram respeitosos para com o primeiro, pareciam desafiar o segundo com suas dobraduras em forma de lanças. A tensão que a natureza provoca entre alguns dos seus componentes parece destinada a causar a mais completa excitação nos homens, como se esse embate fosse um clímax de uma história da qual eu era só um figurante –e, naquele momento, sem fala.

Pelo litoral da Dalmácia, o avião me levava ao que me pareceu ser o paraíso. Quanto mais baixo ele voava, maior era o entusiasmo. Não apenas pelo cenário, mas por não fazer idéia aonde aquela máquina poderia pousar naquele terreno pontiagudo e disforme, onde a superfície mais plana visível era apenas o mar. Eis que a areonave da Croatian Airlines entra em uma montanha aberta especialmente para uma pista de pouso, e quase pedi para o piloto voltar e fazer tudo de novo.

Pisei na pista do aeroporto de Dubrovnik sem passar pelos assépticos fingers que ligam o avião à sala de desembarque. Eu estava aonde eu mais queria estar! Havia muito tempo que eu não sentira isso.

E por que eu queria estar lá? Por que não?, poderia ser uma resposta pedante e evasiva. Mas eu queria estar em Dubrovnik, porque desde sempre me parecia uma cidade única sob todos os aspectos. A Stari Grad (Cidade Velha), o centro, é murada diante do mar. Esse aspecto militar medieval me encantava. Já fui a cidades muradas ou que foram muradas, mas todas estavam bem dentro do continente. Dubrovnik, ao contrário, se fecha diante do Adriático, espremida entre o mar e a montanha, como uma ostra medrosa.

E então entendi que dentro dessa ostra está a tal “pérola do Adriático”, como definiu Byron, branca, linda, brilhante. As pedras das ruelas estreitas, por onde não circulam carros, chegam a ofuscar de tão polidas. As das construções são mais foscas, mas igualmente claras, como se fossem mármore.

De cima, Dubrovnik é laranja, cor de açafrão. Se eu lhe perguntasse o que é vermelho por fora e claro por dentro, você teria duas opções: Dubrovnik e cheesecake. Os telhados, com suas telhas iguais, mas longe de serem monótonas, são as penas de uma mãe ganso a proteger os seus filhotes, tal a simetria das telhas e o pequeno caos formado pelas direções em que apontam. As telhas de laranja mais vivo são as recolocadas há menos de 20 anos, depois da guerra. As mais leitosas sobreviveram aos ataques.

Não se pode dizer que você entra em São Paulo, Londres ou Madri; você chega a esses lugares. Em Dubrovnik, você entra. Por um portão, o Pile, que dá na Placa, a rua principal que divide a Stari Grad mais ou menos no meio.

À esquerda, as ruas são escadas, com degraus altos, que se tornam cada vez mais íngremes à medida que se adentra. À direita, as ruas são planas até certo ponto; depois, mais escadas para o alto. E a muralha a conferir um aconchego esquisito dos limites de sua ação. E a montanha a sinalizar o limite de tudo. E o céu azul-marlboro azul, além.

Pra que mapa? Eu quero me perder em Dubrovnik! Quero conseguir me perder aqui. Sem malas, saio pela cidade. Eu estava em Dubrovnik. E estava num lugar que não existe. A sua existência é a medida da minha ausência na cidade. Então eu liguei para alguns amigos para que eles me vissem lá por uma webcam instalada ao lado da Torre do Relógio, na extremidade oposta ao portão que entrei.

Eu queria que todos eles estivessem lá. Não porque eu quisesse companhia, mas porque eles –e todo mundo de quem eu gosto– também mereciam estar lá, sentir as pedras. Penso que Dubrovnik é o lugar ideal para morrer. É lá que eu quero ficar para sempre.

Ainda vivo e já tendo compartilhado um pouco de felicidade com os amigos por telefone, fui. E imaginava como seria morar ali, em meio a turistas, pedras e o mar exuberante. Como seria a rotina, acordar todos os dias, almoçar, trabalhar, dormir, se divertir, fazer sexo, estudar, ficar bêbado e ver o dia seguinte em Dubrovnik.

Fiz algumas dessas ações, a primeira delas, é claro, foi ficar bêbado. Sabia da existência de um bar localizado além das fronteiras da cidade, entre a muralha e o mar, sobre rochas. Achei-o por acaso, uma pequena entrada escura na parede e… uau!

No bar Buza tocava uma música que se chama de lounge e seria cafona em qualquer outra situação. Ali era incrível que simplesmente houvesse música. De frente para o bar, estava a ilha de Lokrum. Havia pequenos corrimões, como os de piscina, nas rochas que ajudavam os banhistas a regressar do mar. A visão do bar a partir do mar você não encontra em lugar nenhum. Especialmente ao entardecer. Foi meu pôr-do-sol diário em Dubrovnik.

Um pouco bêbado, tentava voltar ao hotel. Ou pelo menos chegar à Placa, para onde tudo converge, ainda que seja uma reta de uns 300 metros. Janelas verdes, pedras brancas, beges, cinzas, como de resto as roupas dos turistas –ainda vou descobrir por que os turistas europeus e norte-americanos usam cáqui em todas as peças de roupas; os asiáticos não poupam o preto pelo menos nos chapéus.

Andava sem pressa e sem rumo, seguindo sempre a direção contrária do que poderia ser um mínimo fluxo de pessoas, mesmo que fosse só uma. Não queria ir aonde alguém fosse, queria Dubrovnik só para mim. E consegui algumas vezes, como quando vi crianças brincando num “quadrado” sem saída ou quando encontrei uma velha louca com peruca loira pretensamente elegante a distribuir presunto a uma dezena de gatos sem que ninguém interferisse nem fotografasse porque não havia ninguém, só ela, sua loucura, os gatos, a vida e Dubrovnik. Eu, mais uma vez, não estava lá. Não havia como estar.

A irrealidade da cidade é opressora. Existe uma impossibilidade tão grande de Dubrovnik existir (pelas dezenas de ocupações e guerras desde o século 7° até a mais recente, a dos Bálcãs, que destruiu 2/3 da cidade e a deixou sitiada por um ano) que a minha própria existência era colocada em xeque constantemente. Eu não posso estar aqui. Assim como meu querido amigo não está mais aqui. Ou ele estava lá, como sempre, e talvez eu tenha ido encontrá-lo. Mas eu ainda não estava em Dubrovnik.

Acordava às 6h, antes de todos, menos das andorinhas, que são uma festa. Eu, que detesto passarinhos, lidava surpreendentemente bem com as andorinhas de Dubrovnik. Pela manhã, elas eram mais populosas que os seres humanos. Ainda estavam um tanto sonolentas, mas já demonstravam um entusiasmo invejável para enfrentar o dia que começava. Ao cair da tarde, por volta de umas 20h, as andorinhas ensinavam como se faz um quase literal happy hour. Elas estavam mais do que eufóricas, elas estavam alucinadas, todos os dias, como a se exibir sem pudores para homens, mulheres e crianças, esses bichos estranhos que não saem do chão. Mais um pouco de animação, e eu consideraria as andorinhas violentas.

É provável que elas estivessem tão enlouquecidas porque queriam nos prevenir para o porvir. O mundo vai virar de cabeça para baixo, pareciam dizer, preparem-se! Pois o céu, antes de a luz do sol sumir completamente, ficava azul da cor do mar, aquele azul-bic que se vê durante o dia. O contraste entre as cores claras e escuras por toda a parte devia ser um prato cheio para qualquer pintor.

Passeava pela cidade à noite, quando a grande maioria dos turistas já tinha ido embora (só há dois hotéis na Stari Grad, e eu fiquei em um deles; os turistas ficam em Lapad, fora das muralhas, ou os navios de cruzeiro os despejam lá durante o dia) e quando o chão da cidade é iluminado por postes fixados na parede. Precisava sentir alguma normalidade ali. Algo como me deparar com uma escola vizinha à muralha, do lado do mar, mas sem vê-lo, que me trouxe algumas memórias de infância, tendo eu estudado numa escola localizada num sítio histórico, sem muralhas e com vista para o mar. Almocei e jantei sempre em lugares diferentes para poder desgustar a cidade por todos os lados. Eu queria engolir Dubrovnik.

Mas, pela manhã, é possível ver Dubrovnik nua, sem gente, com janelas e portas fechadas. Ela estava lá, cáqui, impávida, imponentemente charmosa, me recebendo tão bem quanto eu imaginara e acordando devagar. Talvez aí eu estivesse um pouco em Dubrovnik, mas, ainda assim, faltava algo palpável que eu não sei explicar. Faltava o que sempre falta em um sonho.

Hoje eu percebo que Dubrovnik está em mim para sempre porque sinto o que não havia quando estava lá. Era a cidade se introjetando em mim, me seduzindo ferozmente a todo momento para além do meu cortejo constante e vulgar. Sucumbi com prazer a Dubrovnik e a seu feitiço de efeito retardado. Ela não é murada à toa.

Talvez –e sem diminuir o meu amor pela cidade– a raiz desse sentimento esteja mesmo na muralha. Os grandes muros, seja o nefasto Der Mauer em Berlin, seja a Muralha da China vista da Lua, fascinam até hoje pela sua intransponibilidade. Diante dessa construção feita pela homem, desde os tempos mais remotos até 2008, é possível se sentir tão pequeno quanto diante de uma paisagem sublime.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: