O FETICHE DO TRÂNSITO

Há uns 30 anos, o trânisto em SP é tema de indignação, revolta, stress. Ou seja, ninguém se acostumou ainda. Ou melhor, reclamar da dificuldade de circulação de véculos na cidade é um fetiche social. Engraçado que quem reclama tem carro e ajuda a aumentar o trânsito na cidade (obviamente que SP não oferece muitas alternativas a quem não tem carro, além de ser mal administrada há décadas, cujos prefeitos construíram “Minhocão”, “Cebolão” e outras aberrações para “melhorar” o trânsito –a mais nova bizarrice é uma ponte monstruosa que liga o Morumbi à Cidade Jardim, que alguns idiotas chamam de “novo cartão-postal”– etc. etc. blablablá).

Basta uma chuva no fim da tarde para que “o motorista encontre dificuldades”. E tome prazer sádico ao acompanhar a evolução de gráficos que mostram as centenas de quilômetros de engarrafamentos. O prazer está também em compartilhar com “os amigos numa mesa de bar” o tempo “absurdo” que se levou para ir de um lugar a outro.

Agora descobriram que existe até engarrafamento nas garagens de edifícios.

A conversa geralmente acaba em “Onde isso vai parar?”, sendo que parado já está, não é por nada não.

Outro dia estava ouvindo uma rádio que cobre exclusivamente o trânsito em SP –veja o grau de sofisticação desse fetiche– “a rádio que cobre o trânsito da cidade mais engarrafada da América Latina”, disse o locutor, orgulhosíssimo. É muito bom, porque é uma rádio sobre o nada, a não ser que você seja taxista ou um sádico para gozar ao saber que tais e tais corredores estão parados –ou desconfiar quando ouve que determinado trecho da Marginal está livre (“e, quando eu digo livre, é livre meeeeeesmo”, como ouvi) às 20h de uma sexta.

Enfim, é curioso que haja surpresa e indignação vazia em relação a isso. Uma cidade com uns 12 milhões de habitantes que não investe nem investiu em metrô e outros transportes públicos deveria ter um trânsito fluido? Jura mesmo? É assim e não vai mudar tão cedo, não precisa ficar nervosinho nem exigir “respeitô”. Lide com isso e pronto, normal.

Mas eu acho que há um sentimento de orgulho, no fundo. O trânsito em SP é um sinal de progresso, de caos urbano, de “loucura da metrópole”. Du-vi-do que, se os engarrafamentos monumentais deixassem de existir, SP se orgulharia dessa ausência de trânsito. É legal ter um motivo “externo” para se estressar –e um motivo que se sabe inexorável. É quase como xingar o time adversário em futebol. É saudável!

Por isso a “delícia” que São Paulo é durante os feriados, “sem trânsito nenhum”.

E te digo mais uma coisa: sabe o que esse trânsito todo em SP provoca nas outras cidades do Brasil? Inveja. Em Brasília, cidade com trânsito sonolento, se diz que “o trânsito está uma loucura”, como sinal orgulhoso de que a cidade “evoluiu” e agora, sim, é uma cidade de verdade, e não mais um fim de mundo no meio do cerrado.

Enquanto isso, acompanha-se com a curiosidade de um voyeur, pelo rádio ou Internet, as “dificuldades” do motorista, esse sujeito indeterminado, e planeja-se o trajeto –ou uma desculpa para se atrasar– de acordo com esse fetiche.

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