STONES E DYLAN NO MESMO DIA

Pela manhã, show dos Rolling Stones. À noite, show de Bob Dylan. Como bem disse meu grande amigo que me acompanhou nesses eventos, “hoje foi um dia feliz”.

Sobre os Stones, o balé de Mick Jagger é captado de modo inédito em “Shine a Light” (China Light?), de Martin Scorsese. A dança do líder sexy da banda que faz o blues mais sexy que existe é tão enérgica quanto bela. E eficiente. Aquele cara magro transborda para dentro de quem o olha. Isso inclui seus colegas de banda, o público do Beacon Theatre e você.

Scorsese faz com que você seja Mick Jagger, que você esteja no palco com Keith Richards, que você possa perceber como é ser o maior e mais longevo rock star do mundo.

E os olhares. Os olhares! A câmera se move na altura dos olhos dos caras (Scorsese style), não de cima para baixo, como são as captações regulares de shows. E ali se dá uma comunicação fodida entre todos. Cada olhar diz tudo que precisa ser dito. Depois de mais de 40 anos juntos, os Stones se comunicam cada vez mais com cada vez menos recursos.

E então, Dylan. Gostaria de ter visto Dylan e sua ótima banda num bar de beira de estrada no Kentucky enquanto tomava cerveja com um amigo –o mesmo que viu esses shows ontem não seria mau, hein?. Acho que prefiro ouvir a música no lugar onde ela faz sentido, ou, nesse caso específico, no lugar de onde ela brotou, na América Profunda, banhada de conservadorismo, religião e desolação. Dylan subverte isso ao pertencê-lo.

Que voz, não? Uma voz poderosa que diz poucas palavras inteligíveis, mas que reverbera uma trajetória singular, uma voz que emite o palimpsesto da história do rock que viveu e cantou. Em cada nota (nota?) ecoa uma respeitabilidade fodida (ainda que isso não seja sinônimo de reverência), que só esse sujeito tem, porque, como Campari, só ele é assim. É quase palpável essa voz. Não se fica imune a isso, há que se perceber que existe uma força incomum.

Então, eu puxei o coro de “Judas! Judas! Judas!” enquanto todos gritavam “Dylan!”. Primeiro e principalmente porque foi divertidíssimo, segundo porque isso é a subversão da reverência sacra devotada a ele por meio de um expediente caretíssimo, usado justamente porque Dylan havia sido subversivo.

Mas também gritei “Suplicy! Suplicy! Suplicy!”, que até agora deve estar procurando a resposta que o vento levou pra longe.

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