SEMENTE DE MOSTARDA

Após perder seu filho, uma mãe procura Buda na esperança de que seu filho volte com vida e de que sua dor seja aplacada. Buda lhe diz que a cura está na semente de mostarda encontrada no jardim de uma casa. Mas não de uma casa qualquer. Nela não podem ter havido mortes de ninguém que more nela nem dos seus parentes; enfim, a mãe teria de encontrar uma semente de mostarda em um jardim de uma casa livre de dores. Ela sai em busca da semente em tal casa. A procura foi grande, mas infrutífera. A mãe não encontrou nenhuma casa onde não tivessem havido mortes e dores. Eis o ensinamento: a compreensão de que o sofrimento dela não era único e o consolo que as dores alheias podem lhe dar.

A diretora Fernanda Scalzo fez sua busca particular em jardins de casas cujas dores são tão pungentes quanto as dela no documentário “Semente de Mostarda”, recém-finalizado. E ela não vai sozinha nessa jornada.

Sete mães desconhecidas entre si compartilham suas experiências de terem seus filhos mortos, numa espécie de ciranda em que uma entrevista a outra, que entrevista uma terceira, e assim por diante. Não há pais, irmãos ou parentes no filme, apenas mães e algumas imagens das crianças.

A causa das mortes desses filhos são tão variadas quanto a idade deles: assassinato, doença congênita, desaparecimento, meningite fulminante, acidente de moto, leucemia e bebê natimorto. O tempo de perda varia de pouco menos de dois anos a mais de 20 anos, o que faz com que as reações dessas mães sejam distintas entre si.

O tema é duro, duríssimo, e é tratado com elegância e sobriedade notáveis, sem que a obviedade da busca pela lágrima gratuita (ainda que nenhuma das derramadas no documentário possa ser classificada assim) seja determinante. O que importa aqui é a expurgação da alma.

E o fime é tocante não só pelos casos relatados, mas, principalmente, pela maneira como ele é conduzido. É muito fácil emocionar o espectador com depoimentos de mães que perderam seus filhos. Difícil é fazer disso algo libertador tanto para as próprias mães quanto para quem lhes assiste. “Semente de Mostarda” cumpre esse papel, tal a lenda de Buda, e em escala maior.

Ao fazer com que uma mãe entreviste a outra, Fernanda obtém um diálogo profundo com a experiência da perda, algo impossível numa conversa entre um documentarista “isento” (ou um jornalista, profissão da diretora) e alguém que hoje não tem mais o seu filho por perto. As dores se complementam e se diluem no decorrer do filme e se tornam um grande oceano difícil de navegar, onde elas mesmas ditam a rota da serenidade, já que, como diz uma delas, “ninguém perguntou se eu queria passar por isso, simplesmente tive que lidar”.

Há uma cumplicidade tão espantosa entre elas que é preciso repetir que essas mães não se conheciam até a filmagem desse documentário. E é aí que reside a força de perguntas como “como foi quando você soube?”, porque quem questiona não o faz por nenhum outro interesse que não seja o de simplesmente ouvir, já que ela própria também tem a sua resposta.

A diretora começa a ciranda de entrevistas. E ela é a última entrevistada, que narra sua experiência com a morte de Matias aos 4 anos, há 15 anos.

“Semente de Mostarda”, o primeiro documentário de Fernanda, é um filme corajoso por expor talvez a maior dor que uma mulher possa sentir, ainda que “não seja uma questão de escala de dor”, como diz uma mãe. E por expor com delicadeza e “emoção objetiva” a própria condição da diretora.

Com isso, o filme oferece a cura possível para uma dor tão infinita quanto a vida, um poder que só as mães têm.

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