Archive for fevereiro \20\UTC 2008

20/02/2008

Já falei aqui sobre essa gente que fala no cinema, e essa é uma pauta tão “mesa-de-bar” que é ideal para o programa da Regina Casé –se ela gravasse em lugares onde existem cinemas.

Acredito que quem paga um ingresso de cinema é rico o suficiente para ser o mais selvagem possível, e isso é um processo sem volta no Brasil.

Então eu faço um pedido, quase uma exigência: vamos elevar o nível dos comentários? Sim, porque me atrapalhando você já está, então ao menos me faça refletir.

Frases como “ele vai matar ele”, “ele voltou”, “ela parece com aquela minha tia”, “o filho ficou surdo, olha”, “ô, meu deus…”(ao ver um bebê/criança/animal) e variações (infelizmente infinitas) desses temas passam a ser consideradas… cafonas. Vamos chamar de cafonas para que os ricos pelo menos se sensibilizem.

Em vez dessas burrices –porque invariavelmente *todos* os comentários feitos dentro de uma sala de cinema são estúpidos; to-dos–, você pode falar “a luz dessa cena se parece com a luz do Coppola”, “nossa, a trilha incidental é muito boa”, “esse filme é óbvio demais” (atenção para essa última, que pode parecer estúpida, mas denota um senso crítico acima da média), “que roteiro engenhoso!” ou simplesmente “uau!”.

Assim é possível até que você faça amizade comigo, caso eu esteja ao seu lado.

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20/02/2008

Fidel Castro é bem gênio. Ele fodeu todos os meios de comunicação do mundo, que esperavam prontinhos a morte dele com biografia, fotos da “trajetória”, repercussão, análises, artigos, o escambau. Agora, quando ele morrer, todo mundo vai usar o mesmo material tudo de novo hahahaha.

Rrênio!

E eu gosto também que Fidel é autoritário até quando diz que não manda mais em nada:
Comunico que não aspirarei nem aceitarei –repito– não aspirarei nem aceitarei o posto de presidente do Conselho de Estado e comandante-em-chefe das Forças Armadas.

Entenderam? Então obedeçam! hahahahaha.

16/02/2008

É difícil ser mais velho e detraquê do que ao dizer que um filme é uma “fraude”. Outro dia eu li um texto sobre um determinado filme brasileiro em que a autora dizia que se tratava disso, de uma fraude.

É o tipo da crítica que era feita –e provocava sensação– nos anos 80, época, aliás, em que se passa o tal filme. Nos anos 90, esse tipo de abordagem em relação a filmes ou discos ainda se manteve, mas com impacto diluído.

Hoje, quase nos anos 10 do século 21, soa bobo. Por várias razões, a principal é que nenhum texto análítico sobre um produto cultural ou manifestação artística tem o mesmo impacto de 10, 20 anos atrás, pelo fato de hoje haver uma disseminação brutal dos meios de comunicação, de modo que não há mais veículos de referência, tampouco críticos e jornalistas que funcionam como guias, como vozes a serem ouvidas.

Se eu ou você podemos publicar o que quer que seja, os jornalistas mais talentosos perdem com isso, e a luz do seu farol de idéias se torna mais e mais fraca.

Desse modo, uma crítica que parte para “acusações” contra um filme, um disco ou um livro é, antes, uma maneira de se sobressair do mar de textos a que estamos imersos. Claro que aparece, mas a um custo, ao meu ver, desvantajoso, porque provoca um debate estéril, de amor ou ódio, em vez de reflexão.

É difícil também que uma crítica que “denuncie” um filme (o diretor, pelo texto, quase merece ser preso ou submetido ao escárnio geral pelo “crime”) não seja vítima, ela mesma, de clichês e chavões, justamente as “provas” de acusação.

Enfim, a crítica cultural que se pratica no Brasil é bastante desimportante. Quase uma piada. Quase sem exceções, seja pela influência que exerce, seja pelo talento dos que escrevem.

Por isso e por muito mais, fico feliz de não mais fazer parte desse universo, em que meu desempenho não foi sem sequer igualado, seja pela influência, seja pelo talento dos que escrevem. Um dia eu ia dizer isso, ainda que possa estar enganado.

11/02/2008

Sem aviso prévio, diversos amigos próximos se reproduziram ou estão à espera de um herdeiro. No último ano e meio e por mais ano e meio, creio, acontece um baby boom particular.

Como não faço parte dos novos pais e como os amigos em questão são bem próximos, isso provoca algumas mudanças em mim e na minha relação com eles e com o mundo.

O fato de eu passar a ter novos amigos, na forma de amigos antigos, é a mais evidente. Os hábitos, especialmente neste início de vida, mudam radicalmente. A saber, passam a ser diurnos e caseiros por motivos óbvios. Pelos mesmos motivos, eles se tornam mais ausentes (do meu ponto de vista, é claro).

A descoberta da paternidade e maternidade provoca profundas modificações neles e, em menor medida, em mim mesmo, que acompanho relativamente de perto e de certa forma convivo com uma criança pequena –e não é uma criança qualquer, é o filho deles. E uma criança, definitivamente, é uma novidade no convívio entre os meus amigos.

Enfim, meus amigos se tornam outros, e eu, sem filho, me torno também diferente à revelia. Uma nova relação se dá, ainda que os alicerces da amizade permaneçam e, até, se fortaleçam.

É um divisor de águas nas nossas vidas, ainda que eu use a “minha” vida como parâmetro. Até agora é prazeroso esse câmbio brutal e, pela primeira vez, uma mudança que será para toda a vida, com desdobramentos imprevisíveis, como é, ela mesma, a vida.

Curioso que o fato de os meus amigos terem filhos faz com que eu reflita sobre a minha própria vida, por comparação e espelhamento. O outro se torna a medida de mim mesmo.

Isso também se dá com uma coincidente descoberta de novos amores por parte de alguns amigos bem próximos. Uau. Muita informação. Que, do posto de observador, me contento em ser exatamente isto: um espectador, sem, contudo, apenas ver a vida passar.

Os 35 me parecem uma idade fértil sob todos os aspectos. É claramente o auge da vida.