DOIS LIXEIROS DE AMARELO

Por acaso, conversei com dois lixeiros (ou garis, mas deve haver um nome “anos 2000”, tipo removedor de impurezas públicas), contratados de uma das empresas que prestam serviço para a prefeitura de SP. É sempre bom conversar com desconhecidos, contrariando o conselho materno.

Os nomes deles não perguntei, mas serão conhecidos aqui como o Da Vassoura, DV, e o Do Carrinho, DC (ainda que carrinho seja um nome pouco técnico). Primeiro: eles trabalham em dupla; um varre e o outro recolhe –sempre, me explicou o DC, o lixo que estiver “da guia da calçada pra cá”. Quando trabalham, ambos têm de manter uma distância não muito grande entre si, um dos vários aspectos que os fiscais da empresa observam quando circulam de moto ou de carro –e muitos desses aspectos resultam em suspensão.

Segundo: eles trabalham seis horas por dia, seis dias por semana. Durante o plantão, quando aconteceu a conversa, o parceiro é aleatório, de acordo com a escala da empresa; nos demais dias, o parceiro é fixo. O plantão é sempre um domingo ou feriado. E há folga de um dia por plantão trabalhado.

No domingo em que encontrei DC e DV, eles cumpriam o horário das 8h às 14h na região da av. Paulista. E chovia. DC usava capa de chuva grossa e amarela, cor da empresa e fornecida por ela. DV usava um fino saco de lixo, também amarelo, que fazia as vezes de capa de chuva, e torcia para que nenhum fiscal passasse por ali, porque isso é outro dos aspectos pelos quais os lixeiros são multados (ou suspensos, de acordo com a gravidade do caso).

DC fez elogios contidos à empresa, que fornece uniforme “bom”, mas que poderia ser melhor, como a própria capa de chuva com capuz, que, segundo ele, deveria ser mais longa e ir além da metade da canela. DV esqueceu a capa em algum armário e não pôde comprar uma capa de chuva própria (parece que isso é permitido, contanto que seja amarela) porque o “cartão do banco está bloqueado” e ele não pôde sacar dinheiro.

Pergunto quanto é o salário deles. R$ 500 mensais. “Tá bom”, elogiou DC, acho que com pouco menos de 60 anos, cabelos grisalhos e pele vincada, “tem empresa por aí que paga muito menos”. DV, 40 e poucos anos e me pareceu que de cabelos tingidos de castanho sob o boné amarelo, também não acha má a quantia, mas ressalva que “podia ser melhor”.

Os fiscais da empresa de lixo são rígidos e conferem desde a eficiência da varrição, a conformidade do uniforme (uma das exigências é que “tem de ter o X”, disse DC, ao se referir ao acessório verde-reflexivo que usam sobre a camisa) e o proceder no ofício até a mencionada distância entre as duplas.

Os fiscais são uma das preocupações cotidianas dos garis. A outra são os acidentes. “Quando tem canteiro no meio da avenida, é pior porque vem carro dos dois lados”, disse DC. “Tem gente que entra com o carro na calçada.” Atropelamentos não são raros. “Não acontece sempre, mas acontece.” Quedas também “acontecem”, e, tal o exército norte-americano, a empresa para qual trabalham considera a vítima culpada. “Querem saber se a bota [que a empresa fornece] não estava lisa, se o piso do caminhão estava com defeito, se a gente não prestou atenção”, disse DV, que chama seu instrumento de trabalho de “bassoura” e fala mais alto que o necessário.

Quando um acidente acontece com um deles –e esse é um dos motivos de os lixeiros trabalharem em dois–, o outro tem de avisar imediatamente à empresa por meio do telefone, que carregam no bolso. (Muitos DJs de música eletrônica trabalham em dupla provavelmente por razões similares e mantêm sempre a mesma distância entre si.)

Sobre o tipo de lixo que recolhem: folhas e papéis, basicamente. O que é especialmente mais chato de recolher quando chove. Sacos com cocô de cachorro não são recolhidos por eles. “Tem gente que nos vê e já coloca o saco com cocô de bicho dentro do carrinho. Que é isso? Aqui é privada?”, indigna-se DC.

Também não recolhem “lixo de prédio”, identificados por sacos pretos nas lixeiras em frente aos edifícios. Também não podem recolher “lixo de bar”. “Às vezes acontece de o dono do bar sair de dentro e trazer o saco de lixo pra gente levar. Não pode”, afirmou DC, que é tão falante quanto DV, mas mais articulado.

Pergunto o que acontece quando há mais lixo a ser recolhido por eles do que a capacidade do carrinho, um recipente plástico retangular, da altura de uma criança de 9 anos, com duas rodas e uma alça. “Aí a gente tira o saco e deixa em lugares como aquele ali, ó [aponta para alguns sacos pretos de lixo encostados em um poste, pelo que entendi, lugar apropriado para isso]. Mas o nosso saco é amarelo, então outra equipe passa e recolhe só os amarelos”, informa DC.

As duplas não trabalham sempre na mesma região mesmo em dias convencionais. Curioso por saber se em bairros mais ricos há mais ou menos sujeira ou lixo “melhor” do que em bairros mais pobres, DC me frustra e diz que “é tudo igual”. Mas parece que há regiões mais “iguais” que outras. O bairro do Pacaembu, diz DC, é “terrível”. “O pessoal respeita menos e tem muita árvore”. Árvores, como se vê, não agradam a todos.

DV olha o relógio e avisa o companheiro de que precisam ir “porque o fiscal pode passar”. “Mas está chovendo ainda. Vocês têm de trabalhar mesmo sob chuva?”, pergunto. “[Quando há] Chuva mais forte, como estava quando a gente parou, não. Mas chuva assim, o fiscal pega”. Chovia apenas um pouco menos, o suficiente para molhar bem os cabelos durante dois quarteirões.

E então foram-se os dois. DV “barreu” e agrupou folhas molhadas que estavam no asfalto. DC recolheu-as, apesar de estarem “da guia pra lá”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: