A FOCA E O PALHAÇO

Soube do assunto pela primeira vez ontem e de modo inusitado. Um amigo escrevera após seu nome no msn: “considero encerradas as discussões sobre o drible da foca”.

Isso não me disse nada, nunca tinha ouvido falar nesse drible (em termos animais, acho que só no da vaca. E no frango, que é o oposto de um drible), nem tinha idéia de que havia discussões sobre isso. Cogitei, por aproximação e proximidade, que a foca em questão fosse uma jornalista iniciante, mas, de qualquer modo, isso não me disse nada.

Eis que ligo a TV, praticamente um pequeno evento. Começa um programa chamado “entre”, do qual não tinha conhecimento (tenho a impressão, agora, de que vivo em outro mundo). Achei simpático o nome, parecia convidar o telespectador, seja bem-vido, por aqui, entre. Engano. O programa se chama “entre” e, devido ao seu formato, percebi que o nome dele se chamava Entre Aspas. Ave maria…

E o programa, ao vivo, começou com a “polêmica” do drible da foca. Foram exibidas imagens do tal drible, e havia no estúdio duas pessoas (não se podem chamá-las de especialistas, né?), uma delas Daniel Piza (??), para comentar o tal drible e, incrível, a agressão à “foca” provocada por um jogador chamado Coelho e elogiada por um técnico chamado Leão.

Não era possível.

Metade dos “internautas” também achava que a agressão era justificada pelos motivos mais cretinos. A outra metade discordava disso, informou a apresentadora.

E então começam os argumentos: o futebol é um jogo tenso, não um espetáculo circense; é um “desrespeito” ao adversário; com tantos animais em jogo, literalmente, a história ganhava tintas de fábula; e por aí vai.

Fiquei um pouco pasmo com tudo isso. O fato de um jogador conduzir a bola na cabeça por alguns metros virou tema de discussões acaloradas. Aliás, a questão em si não era o tal drible; era se a porrada que ele recebeu era merecida ou não.

Confesso que isso me provoca um certo desconforto. Parece algo perigosamente surreal, coisa de ficção. Ou de Portugal, onde temas absolutamente desimportantes são temas de debates e artigos por semamas a fio.

Bom, se futebol fosse legal, se houvesse pessoas inteligentes e interessantes que o praticam e comentam, se fosse um esporte libertário (isso existe?), se questões conservadoras como respeito, honra e “amor à camisa” não fizessem parte do seu “core”, talvez o cara que fez o tal drible pudesse ser elogiado, justamente por ter criado um drible novo ou, vá lá, por trazer de volta o espírito do “futebol moleque”.

Mas não.

A discussão –que, por si só, já é inacreditável– era se a “foca” deveria ser punida por isso, o que não faz nenhum sentido.

Assim como tem ares nonsense uma manifestação com que eu tive a infelicidade de topar na av. Paulista, em que alguns otários, com narizes de palhaço e faixas em que se liam “Respeito”, pediam a saída do presidente do Senado. Por pouco não atropelei alguns desses palhaços –que eram mesmo, só que sem graça.

Custo a entender como um senador corrupto pode fazer com que pessoas se disponham a sair de casa como palhaços para “protestar” contra o sujeito. Ele deve achar, no mínimo, engraçado.

Também tenho dificuldades para compreender por que se discute se alguém deve ser agredido por causa de um drible no futebol.

Algo está muito fora de esquadro aí. E sinto o cheiro forte de reacionarismo e imbecilidade combinados, o que me dá náusea.

Sugiro ao tal jogador “foca” que entre em campo com um nariz de palhaço a partir de agora.
Ou não é isso?

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