PÊNDULO

Adimiro as residências que possuem relógio com pêndulo na parede. O tempo da casa ganha andamento; a casa ganha um coração que se ouve bem à noite. Ou, antes, é a respiração do lar que se torna audível quando todos dormem.

Por mais de 20 anos morei em uma casa com um relógio assim. De madeira escura nas laterais e laca branca de fundo, anos 70, pêndulo prateado, o relógio mostrava também a data, que mudava tal um painel de aeroporto. Ao fim de mês sim, mês não e também em fevereiro, meu pai ajustava-o.

A casa sem o relógio era uma casa morta, o coração tinha parado de bater e um vazio preencheu a sala. Mesmo que o motivo de o relógio ter parado tenha sido bom (mudança), o silêncio ao qual não estava acostumado trazia certa melancolia.

Mais portentoso era o espetacular carrilhão do meu avô. Um relógio de mesa escuro e ponteiros dourados que ficava numa sala onde ninguém freqüentava. Apesar de solitário, o relógio ditava o tempo da casa a cada meia hora. E às horas cheias soava uma introdução inesquecível e tantas badaladas quanto fosse o número de horas. Meia-dia era uma festa.

Minha casa precisa de um coração.

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