São Paulo, Quinta-feira, 20 de Maio de 1999

Chemical Brothers fazem remix de pessoas

MARCELO NEGROMONTE
da Redação

Absurdo! Não avisaram a ninguém que anteontem quase 6.000 pessoas passariam por uma experiência químico-sensorial que mudaria a maneira de como ouvem música. A terra arrasada, inóspita, assexuada, esse cenário de Mad Max que se tornou o pop tem uma destruidora trilha sonora em 1999: uma ode às sirenes. Uma música quase interativa, hedonista e coletiva, maléfica e psicodélica, rocker e… quem se importa com gêneros?

O laboratório ideal: Via Funchal, lugar fechado. Os ingredientes: Tom Rowlands e Ed Simons, os Chemical Brothers, os feiticeiros do mix eletro-psicodélico.

Os capetas alquimistas entortaram qualquer sinapse dos presentes no 1º Levi’s Live, o primeiro show do resto de nossas vidas.

A experiência oxidante foi muito além; não era o som que era remixado, triturado, liquefeito, acidulado, explodido e implodido a todo instante; era cada um dos cobaias que desembolsou R$ 45 para entrar num parque de diversões que poderia se chamar A Fantástica Viagem pela Tabela Periódica.

“Hey Boy Hey Girl”, o primeiro single de “Surrender”, intima o passageiro a entrar no acelerador de partículas. As palavras do título da música pipocam nos três telões instalados no palco e uma batida hip hop poderosa dá início ao transe que parece não ter fim. “Here we go”, diz, sarcástica, a música.

O mago Tom Rowlands parece despejar poções venenosas a cada tecla apertada, a cada botão girado -quem são esses caras que extraem sons oníricos de botões?

“Music: Response”, também do vindouro “Surrender”, remete a robôs setentistas, à ficção científica, que se faz presente e real. Kraftwerk é o primeiro nome que vem à mente -a essa altura começando a borbulhar, como num caldeirão-, mas é mais um ingrediente para a mistura. DJs vomitam toda a história do pop de uma vez só.
Todos pulam loucamente, o som (que som!), tão alto quanto perfeito, e as imagens lisérgicas e dementes anabolizam a experiência.

“Doesn’t Matter” e “Chemical Beats” ficam mais ácida, mais densa. “Life Is Sweet” transforma a vida num doce ensurdecedor. “Private Psychedelic Reel” é gigante.

Nada pára. As imagens de santos, manchas disformes, alquimistas-duendes, cores em profusão, luzes esquizofrênicas, tudo parece epiléptico demais, apesar de certo progressivismo. A alma desaba em queda livre com a espetacular “Setting Sun”. Todos com as mãos para o alto, o êxtase e o remix dos corpos são inevitáveis -os Brothers estavam apenas “working it out”.

O cenário é tão desolador quanto apaixonante em “Leave Home”. A música literalmente entra por um ouvido e sai pelo outro e assola qualquer coisa que ainda permaneça no cérebro.

Os Chemical Brothers, clássicos digitais, fazem de Marinetti mais atual do que nunca neste mundo de máquinas e sonhos. Em 1999, o discurso pop é ficcional, caótico e quase supérfluo, como a orelha nas costas do camundongo -e daí?

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