São Paulo, terça, 19 de maio de 1998

Massive Attack

MARCELO NEGROMONTE
free-lance para a Folha

Bem-vindos ao lado escuro da Lua. O ataque massivo aos ouvidos e à mente se faz mais eficiente do que nunca em “Mezzanine”, álbum claustrofóbico, aterrador e o mais denso do trio inglês de Bristol Massive Attack.

Essa sedutora mistura de beats de hip hop, dub, groove de soul, guitarras atmosféricas, melodias etéreas com baixo profundo, que é o trip hop, mudou de rumo depois de “Mezzanine”.

O rebento levou quatro anos para nascer, depois de “Protection” (1994), e a espera pelo parto foi uma das mais adiadas e especuladas desde então. Cogitou-se um “OK Computer”, do Radiohead, inteiro remixado pelos três no lugar deste “Mezzanine”.

O terceiro álbum do trio formado por Grant Marshall (Daddy Gee), Robert Del Naja (3D) e Andrew Vowles (Mushroom, cogumelo em inglês) foi lançado em 20 de abril na Inglaterra e na terça-feira passada nos Estados Unidos. A gravadora Virgin promete colocá-lo nas prateleiras brasileiras esta semana (aqui, como sempre, há complicações injustificáveis no parto).

Mas o bebê já anda. Alcançou o primeiro lugar na Inglaterra, França e Austrália e sexto na Alemanha na semana em que veio ao mundo. Se os brasileiros tratarem bem de “Mezzanine”, a gravadora dá esperanças de relançar seus irmãos “Blue Lines” (1991) e “Protection” em seguida.

Os primeiros sinais de que “Mezzanine” é um dos discos mais soturnos deste ano (e ainda não estamos nem na metade) é a primeira música, “Angel”.

Um baixo poderosíssimo, guitarras ecoantes em overdose de dubs, clima pós-pós-Pink Floyd, aliados à voz fantasmagórica do reggaeman Horace Andy -cuja carreira mudou de direção depois de sua participação em “Blue Lines”-, fazem com que você, amedrontado, verifique se a porta de sua casa está de fato trancada. Porque a da sua mente foi completamente arrombada.

E os pioneiros do trip hop vão direto à parte mais desconhecida dela em “Risingson”, single “extra-oficial”, lançado em 97, em versão limitada, por conta da participação da banda no festival de Glastonbury.

Daddy Gee e 3D parecem dialogar, sussurrando, num lugar perdido e congelado, numa conspiração diabólica contra o bem, emoldurados por batidas sujas e ambiência surreal. “Nós viemos para mover sua alma/ e você como que desaparece ao fundo”.

Ameaça cumprida -com vocais mais ameaçadores ainda- em “Inertia Creeps”, que surge devagar e sobe num crescendo em espiral infinita e hipnótica. Devastadora, um dos pontos altos do disco.

“Teardrop”, o primeiro single “oficial”, é claustrofóbica, como o clipe, em que um bebê, antes de nascer, “dubla” a música cantada por Liz Fraser, do Cocteau Twins – que estava grávida ao gravar a canção. Sujeira estática de vinis se opõe à voz clara de Liz e às batidas secas, criando algo perturbador.

Horace Andy empresta a voz novamente em “Man Next Door”, música que está mais para “Blue Lines” do que para “Protection”. “Tenho que sair daqui,/ este não é um lugar para ficar”, diz em meio a samples das guitarras de “10:15 Saturday Morning”, do The Cure.

O Massive Attack sabe que cria o medo e abusa disso na faixa-título, para, em seguida, seduzir – e executar o golpe mortal-, em “Group Four”, duas músicas em uma genial. Uma parede de guitarras surge na segunda parte com Liz cantando como um anjo malévolo. A tensão aumenta e seus limites são testados.

Volte a respirar, abra os olhos; a lobotomia foi bem-sucedida.

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