São Paulo, Terça-feira, 10 de Agosto de 1999
FESTIVAL DULÔCO 99
Rap instaura paz, união, amor e diversão em SP

MARCELO NEGROMONTE
da Redação

São Paulo tomou um banho de hip hop no último fim-de-semana. E ficou com a alma mais preta, mais rica. O bem-sucedido festival Dulôco 99 elevou a tríade hip hop -musical, visual e corporal- ao panteão dos grandes eventos pop que o Brasil já presenciou. Foi uma enxurrada de black music, a cultura da rua se manifestando da maneira mais organizada, o underground emergindo civilizadamente.

Grandes nomes do rap mundial e brasileiro pisaram nos palcos dos Sesc Belenzinho e Itaquera (para ser bem-sucedido não é mister lugares caros) e deram uma aula de história da música negra. Só não foi quem não quis.

O turbilhão cultural Dulôco 99 começou na última sexta-feira, com um debate com os mestres Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash no auditório do Sesc Belenzinho (região centro-leste paulistana), completamente lotado por um público interessado e esclarecido de mais de 260 pessoas.

Antes, uma observação: foi um festival de rap, em locais ditos não muito nobres, com a periferia como maior parte do público e… Alguém falou em violência? O estereótipo não passou disso: um clichê de desinformados. Não houve, nos três dias de festival e nas duas unidades do Sesc, um único distúrbio, de nenhuma natureza. Brigas, selvageria e agressões vêm, está provado, de festivais para a classe média branquinha.

Como disse o sr. “Sample”, Grandmaster Flash: “O hip hop dá a liberdade de poder falar, com letras e música, sobre o que você quiser, inclusive violência”. TC Slam, do Soul Sonic Force, foi além: “Somos “entertainers”, não temos tempo de ser assassinos. Ou somos uma coisa ou outra”.

A noite de sexta, com público menor que nos demais dias, foi o “avant-garde” do hip hop. Começou com o membro da Hemp Family carioca Black Alien enfumaçando raggamuffin e Cypress Hill.

O trio paulistano Nitro mais o DJ Nuts improvisaram bem com participação de Thaíde. O rapper de Chicago Common não emplacou com algumas presepadas e um show chatinho.

O bom da noite, que começava a esvaziar e esfriar, ficou com o original DJ Spooky.
De jazz, drum’n’bass a rap e ambient, DJ Spooky recebeu MCs brasileiros e do Soul Sonic Force. E ainda tocou contrabaixo enquanto discotecava. Quem terá a desfaçatez de enumerar os elementos do hip hop diante de DJ Spooky?

O sábado começou antes no Itaquera (a cerca de 40 minutos do centro de São Paulo) com shows de Consequência e De La Soul. O sol se punha por entre as árvores do parque do Carmo, crianças brincavam no escorregador do parquinho à esquerda do palco e, nele, o pulsante De La Soul entoava “Say No Go” -um final de tarde arrepiante, sem dúvida.

Ver o homem que criou o sample, Grandmaster Flash, no palco, esse show de um homem só (DJ e MC em um só), é uma aula de arqueologia -a que Mano Brown assistiu. Os Chemical Brothers seriam a de processamento de dados. A discotecagem artesanal, “old skull”, é do tempo bom que não volta nunca mais. Mas voltou sábado no Belenzinho.

Entrou com “The Message” e engatou LL Cool J, B.I.G., Naughty by Nature, House of Pain. Chamou b-boys e “minas” b-girls ao palco com um painel de grafite ao fundo.
Uma verdadeira “block party” com um público de mais de de 2.000 pessoas.

Os veteranos Thaíde & DJ Hum empolgaram e convidaram ao palco uma das figuras lendárias do hip hop brasileiro, Nelson Triunfo, conhecido como o primeiro b-boy do país e a maior cabeleira do planeta. Destaque para a aveludada backing vocal Ieda Rios. Show soul.

Comentário de alguém da platéia: “Nossa, muito som para uma noite só.” Ao lado, um grupo erguia um mini-system, levantado como um troféu.

Primeiro, Soul Sonic Force e, muito depois, Afrika Bambaataa, vestido como um Mobutu Sese Seko estilizado e com alma. Aí, foi uma festa, como prometeu. “Planet Rock” e “Unity” com b-girls e uma senhora “mutcho lôca”, que quase roubou a cena, no palco. Funk, funk. “Renegades of Funk” e “Sex Machine” foram estupendas. A música negra não tem fronteiras: de drum’n’bass, funk carioca (potente), R&B suingado, electro-funk… Vamos lá, diga com quantos elementos se faz hip hop, “muthafucka”.

No gelado domingo, Bambaataa, vestido como um príncipe africano, de oncinha, sem voz, repetiu a dose com mais “brazilian funk”, dançarinos de break, sacudiu o Itaquera.

À tarde, workshops de DJ, batalha de MCs, campeonato de break, demonstração de grafite. A expressão do que pode ser feito na rua estava nos Sesc.

Ainda no Itaquera, uma das duplas que prometem: Xis e Dentinho, com o DJ King. Soul music pesada, rap consistente e carisma fácil. O público cantava em coro.

Ainda faltava o último dia. Posse Mente Zulu e Záfrica Brasil, dois nomes underground do rap paulistano, abriram o domingo no Belenzinho, seguidos por Jungle Brothers.

O trio alopradinho sacou a hip house “I’ll House You”, remixou “Busy Child”, do Crystal Method, “Straight Out of the Jungle”, “Because I Got It Like That” e ainda dançaram sob o tema de “Jeannie É um Gênio”. “Put your hands in the air, São Paulo.”

De La Soul encerrou o festival com um show atrapalhado por problemas no som, Contru, vizinhança e a polícia. Por isso, “Pony Ride”, “Me Myself and I” e “A Rollerskating Named Saturday” estavam muito mais bem-humoradas no fim de tarde em Itaquera.
Dulôco 99 entrou para a história pelas atrações, diversidade, organização e iniciativa. Foi tudo uma questão de “peace, unity, love and having fun”. O mundo pode acabar amanhã.

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