São Paulo, terça, 5 de janeiro de 1999
SPIRITUALIZED

MARCELO NEGROMONTE
da Redação

Recomenda-se enfaticamente a segunda dose de Spiritualized, lançada recentemente, como complemento de “Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space”. Não que o remédio original tenha perdido suas propriedades, mas a dose de reforço se faz necessária para manter a alma sã.

O complemento medicamentoso chama-se “Royal Albert Hall October 10 1997 Live”, portanto ao vivo, o que lhe confere certo frescor. É duplo, como convém a um complemento, e muito mais pesado, como convém a um reforço.

Se em “Ladies and Gentlemen” (97) a banda inglesa Spiritualized optou por desenvolver um “remédio” (o disco foi lançado na Inglaterra em uma embalagem de remédio com bula inclusa), neste ao vivo, em que a maioria dos ingredientes ativos (músicas) derivam de “Ladies”, tudo é despojado -até demais-, exceto o som.

Psicodelia, distorções, sensualidade e o minimalismo hipnótico são captados em sua plenitude, tornando-se uma exceção à regra dos discos ao vivo (são produtos baratos de fazer e nada acrescentam à discografia de artistas -um placebo, enfim, diriam os cientistas mais ortodoxos).

Neopsicodelia, dream pop, noise pop, space rock, post-rock são alguns dos termos usados pela medicina moderna para tentar classificar essa banda derivada do Spacemen 3 e que hoje é uma das melhores bandas de rock do mundo.

Se não, vejamos: pela manhã recomenda-se a audição de “Electric Mainline” e “Electricity”, ambas muito mais densas e propositalmente feitas para perturbar com uma saraivada de barulhos bem construídos e destruídos e reconstruídos. Suspensos ficam a respiração e os batimentos cardíacos.

À tarde, dez minutos de “I Think I’m in Love” (“acho que estou louco por você, provavelmente só aprendendo (…)/ acho que posso voar, provavelmente só caindo”), a melhor e mais bela canção do álbum, numa versão mais resistente do que a original e, por isso, imbatível. Pura sinfonia pop com coro arrepiante.

À noite, bem, à noite, não há recomendações explícitas quanto ao que ouvir.
Os dois discos podem ser ingeridos de uma vez, via oral ou intravenosa -a mais indicada. A conhecida versão gospel de “Oh Happy Day” é dilacerada por Jason Pierce, Sean Cook e Damon Reece, e o dia fica muito mais feliz. “Walking with Jesus” faz com que os sonhos virem realidade.

A combinação equilibrada, se é que se pode falar em equilíbrio com o Spiritualized, de sax, órgãos e guitarras de “No God Only Religion” abre o segundo CD com ode ao amor, ainda que instrumental.

E segue com “Broken Heart”, linda, serena, plácida.
“Estou chorando o tempo todo/ e tenho que disfarçar com um sorriso/ e tenho que seguir em frente, por enquanto/ Deus eu tenho um coração partido”, quase sussurra Pierce, que também ressalta que tem sonhos partidos. A cura está próxima.
O disco não tem contra-indicações, mas muitos efeitos colaterais.

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