São Paulo, terça, 8 de setembro de 1998
Tóquio vê o maior evento de rock do Japão

MARCELO NEGROMONTE
enviado especial a Tóquio

Desta vez foi em Tóquio. O maior festival de rock do Japão aconteceu nos dias 1º e 2 de agosto, sob um calor de 34ºC, muita lama, com o “skyline” da cidade ao fundo e 32 nomes do melhor do rock e pop japonês e mundial.

O 2º Fuji Rock Festival reuniu cerca de 70 mil pessoas, nos dois dias, às margens da baía de Tóquio, com atrações do peso de Beck, Prodigy, Björk, Sonic Youth, Goldie, Iggy Pop, Garbage, Nick Cave, Shonen Knife, Lo-Fidelity Allstars, Primal Scream, Ian Brown, Audio Active, Geodezik (ufa!), Asian Dub Foundation, Korn e outros vários, num evento bem-sucedido, diferente do de 97.

Um tufão destruiu tudo na primeira edição do festival, realizado próximo ao monte Fuji (a cerca de 40 minutos de Tóquio), cancelando o segundo dia do evento, que teria Massive Attack, Prodigy, Beck, Green Day e Lee “Scratch” Perry.
Chegaram a tocar, em 97, Foo Fighters, Red Hot Chili Peppers, Girls against Boys, Rage against the Machine e Denki Groove.

Sob calor e umidade quase insuportáveis, o primeiro dia do Fuji Rock deste ano teve uma atração extra: a lama. Como choveu na noite anterior, os 100 mil metros quadrados da área do festival estavam imersos num grande pântano, com lama que cobria os pés. Todo bom festival tem que ter lama.

O grande destaque desse dia foi, sem dúvida, o cantor norte-americano Beck, que tinha o público sob seu total controle. Subiu ao palco por volta das 18h, ajudado por um sol que se punha “como uma manteiga”, como ele disse, com “Loser”. Bastou o primeiro acorde da música para o público correr para perto do palco e pular loucamente, fazendo tremer o chão.

Na segunda música, “New Pollution”, alguém da organização interrompeu o show para pedir que o público fosse mais para trás, pois estava esmagando os que estavam perto do palco. “Take back”, disse Beck. Os japoneses nem esperaram o fim do pedido para, calmamente, dar alguns passos para trás.

Beck também foi o único a arrancar gargalhadas dos japoneses ao parodiar um dançarino de break e imitar um carrasco com chicote e camiseta encobrindo o rosto, em “Where It’s At”. Um show inesquecível com cenário brega (um pano verde com desenhos de plumas brancas), dois toca-discos, um microfone e carisma raro.

O Garbage sacudiu a baía de Tóquio, por volta das 13h, com um show pesado, apesar do calor inclemente. A música “Only Happy When It Rains” poucas vezes teve sentido tão real quanto lá.

A linda e ruiva Shirley Manson parecia estar sentindo os efeitos da temperatura, mas fez bonito em “Push It” e “Temptation Waits”, do recém-lançado “Version 2.0”.

Lindo de fato foi o Sonic Youth, às 14h, logo após o Garbage. Kim Gordon aparece de óculos escuros, vestido azul e uma guitarra com adesivo do Snoopy, provocando uma avalanche sonora com “Becuz”, levando os japoneses a uma outra concepção de terremoto.

Em “Sunday”, Gordon já é rainha impávida no palco, quase imóvel. O público estava entorpecido e aparvalhado com aquele terrorismo das guitarras.

Em pouco mais de uma hora de apresentação, a banda tocou apenas seis músicas -o que levou Thurston Moore a pedir desculpas pelo “pouco tempo” de show.

O final foi algo muito próximo do apocalipse sonoro. Um barulho ensurdecedor com Kim pisando, com sandália de dedo e desdém, a guitarra, Lee Ranaldo se esfregando com a guitarra nos amplificadores, e o baterista Steve Shelley incorporando a guitarra de Moore a sua bateria, espancando-a com as baquetas. Indescritível.

Apesar das 35 mil pessoas, da lama e do rock, o clima do primeiro dia do festival era o de um grande piquenique com música ao vivo, tamanha era a calma no local.

Os japoneses, mesmo com a venda de cerveja, não causaram nenhum distúrbio. E alguns norte-americanos estavam adorando. Cerca de 60 gigantescos mariners dos EUA foram contratados para fazer a segurança extra (além dos japoneses pouco encorpados que faziam a segurança normal) no festival. “Nós trabalhamos em uma empresa que faz segurança em shows no Japão”, disse um deles sem se identificar. “Eles (os japoneses) são ótimos, não dão nenhum trabalho”, afirmou ao findar um cachorro-quente.

Dezenas de tendas dividiam o espaço com público e vendiam desde brinquedos Lego, objetos de decoração e discos a roupas, comidas (africana, indiana, chinesa e, óbvio, japonesa) e bebidas.

Tudo muito caro para os padrões brasileiros. Uma lata de cerveja custava cerca de R$ 4,50, camisetas giravam em torno de R$ 36 e a garrafa de 200 ml de água, que era mais consumida que cerveja, R$ 3.
A tenda mais concorrida era a da megastore Virgin, entupida a qualquer hora. Os atrativos: dois ar-condicionados e um DJ.

Se no primeiro dia houve muita lama, no seguinte havia brita no lugar. A organização cobriu boa parte do local com brita, fazendo desaparecer qualquer vestígio de água e barro. O sol que fez nos dois dias também ajudou.

O grande nome do dia foi Prodigy, precedido pelo cool Primal Scream e Ian Brown (ex-vocalista dos Stone Roses), que entrou com um chapéu de camponês asiático e leque, no palco verde.

Com um público mais “rocker” que no dia anterior, o Fuji Rock abrigou o pesadíssimo Korn, que estava prestes a lançar o disco “Follow the Leader”, a banda japonesa de hard rock Hotei, com covers do Led Zeppelin ao vivo, e os holandeses sub-Prodigy do Junkie XL, este no palco branco.

Os japoneses do Audio Active e, em seguida, a banda anglo-indiana Asian Dub Foundation, que mistura dub, drum’n’bass e rock, deram o tom contestador ao festival, com letras, som e atitudes rebeldes.

Diferentemente do que acontece na maioria dos festivais de rock, no Japão não havia nem cheiro de maconha nem qualquer comportamento que denotasse consumo de drogas. Os japoneses pareciam ter ido a um megafestival como se fossem a um programa qualquer de fim-de-semana. Sem exageros.

Exemplo disso era a fila indiana que se formava na calçada, após o término dos shows, no caminho para o metrô, sem que ninguém andasse pela rua -vazia.
Em 99, o Fuji Rock promete voltar aos pés do monte homônimo.

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