Archive for julho \31\UTC 2007

31/07/2007

IDÉIA GENIAL

Aí o piloto de carros Mika Hakkinen vem ao Brasil e vai a um bar para “conscientizar sobre a relação entre bebida alcoólica e o ato de dirigir”. Bom, ou ele vai a pé pra esse evento ou ele vai só tomar guaraná e frustrar o patrocinador Johnnie Walker hahaha.

Será que ele vai dizer pros bêbados: don’t drive, man, keep walking?

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31/07/2007

BASTA!

Adorei a nova campanha dos tucanos: Cansei. O vídeo mostra pessoas, super-indignadas, com uma cartolina que diz “Cansei de bala perdida”, “Cansei do caos aéreo”, “Cansei de empresários corruptores” e por aí vai.

Nunca vi uma campanha capaz de mobilizar tanta gente! É de matar de inveja os piqueteiros argentinos hahaha. Os tucanos são ótimos mesmo.

Aí vem o João Dória Junior e diz que a campanha não é contra o governo, é “cívica”. Só se for campanha Honda Civic! Se você acredita que um almofadinha que vive de negócios em Campos do Jordão vai ser contra um governo de um metalúrgico analfabeto, você só pode estar louco.

Mas faltou uma gostosa, bem brasileira e bem indignadona, com um cartaz na bunda: “Cansei de ser sexy” hahahahaha. Sabe, está na hora de dar um basta (eu amo essa frase!).

E o melhor disso são os vídeos relacionados ao vídeo dessa campanha que aparecem no Youtube: só clipes do Cansei de Ser Sexy! hahaha.

Não, quer dizer, melhor do que tudo isso junto foi o protesto que aconteceu sábado passado no lugar onde o avião da TAM bateu: um monte de cartazes com “Queremos paz!”, “Chega de violência!” hahahaha. Erraram tudo! Os caras têm cartazes default pra protesto, não importa o motivo, sempre é hora de “dar um basta à violência” hahahahaha. Só faltava ter gente indignada com a transposição do rio São Francisco.

Eu amo o Brasil. Ou melhor, eu amo Portugal, que colonizou o Brasil e deixou aqui essa overdose de altíssima auto-estima e nenhum complexo de inferioridade hahaha.

30/07/2007

PÊNDULO

Adimiro as residências que possuem relógio com pêndulo na parede. O tempo da casa ganha andamento; a casa ganha um coração que se ouve bem à noite. Ou, antes, é a respiração do lar que se torna audível quando todos dormem.

Por mais de 20 anos morei em uma casa com um relógio assim. De madeira escura nas laterais e laca branca de fundo, anos 70, pêndulo prateado, o relógio mostrava também a data, que mudava tal um painel de aeroporto. Ao fim de mês sim, mês não e também em fevereiro, meu pai ajustava-o.

A casa sem o relógio era uma casa morta, o coração tinha parado de bater e um vazio preencheu a sala. Mesmo que o motivo de o relógio ter parado tenha sido bom (mudança), o silêncio ao qual não estava acostumado trazia certa melancolia.

Mais portentoso era o espetacular carrilhão do meu avô. Um relógio de mesa escuro e ponteiros dourados que ficava numa sala onde ninguém freqüentava. Apesar de solitário, o relógio ditava o tempo da casa a cada meia hora. E às horas cheias soava uma introdução inesquecível e tantas badaladas quanto fosse o número de horas. Meia-dia era uma festa.

Minha casa precisa de um coração.

23/07/2007

Berlim é a cidade da qual eu tenho mais músicas dos seus bairros. A ver:

– “Prenzlauerberg, Beirut
– “Kreuzberg”, Bloc Party
– “Neuköln”, David Bowie

17/07/2007

Eu até não acho mau assistir a atletas desconhecidos em esportes estranhos na TV. É tudo uma novidade.

O problema é a Rede Globo, dona das imagens, e, portanto dona do Pan, exibir apenas atletas desconhecidos e apenas atletas brasileiros que estão a chorar na tela. É bem desgradável.

Primeiro porque eles não ganham, daí o choro do perdedor, o que, em esporte, não interessa. Segundo porque o vencedor é uma grande incógnita! O que, em esporte, é só o que interessa!

Como os atletas brasileiros são pobres, há o “drama”, a “emoção”, recorte bastante discutível porque babaca. Que o sujeito tenha vindo do Mato Grosso, que ele tenha tido uma “infância difícil”, que tivesse de que andar 50 km a pé para treinar, que não tivesse dinheiro, nunca, para comprar nada, isso não importa. E ele fez tudo isso para ganhar, sei lá, uma medalha de bronze ou ficar em quarto lugar. Bom, e daí? Quem ganhou, afinal? O melhor, mas isso você não fica sabendo.

Além disso, como a Globo precisa de audiência, a emissora tem de fazer com que o espectador contunue asssitindo a esses jogos, que, ao fim e ao cabo, não têm lá muita importância mundial. Para isso, ela quase que obriga o espectador a “torcer pelo Brasil”, o que não faz muito sentido. Por que eu vou “torcer para o Brasil” no tae-kwon-do? Na ginástica artística? No badminton, por deus?! Nesse eu soube até que “o Brasil quebrou tabu” hahahahaha.

Como são muitos os brasileiros atletas perdedores em muitas modalidades, mesmo se quisesse, eu teria dificuldade para tocer pelo meu novo ídolo, porque são vários e têm nomes um pouco confusos.

A Globo deve ser uma das poucas emissoras do mundo que prioriza os atletas que não ganham. Poderia ser um novo viés de cobertura esportiva se não fosse por uma motivação babaca que é a busca da audiência por meio da patriotada tosca.

Sendo assim, prefiro não ver os “jogos”, o que no Brasil, significa assistir a ginastas que perdem e choram. Ou, vai saber, talvez esse seja um novo tipo de modalidade criada pela Globo: o choro atlético.

E, sombra da Globo, os demais veículos, impressos inclusive, noticiam apenas o que acontece com os atletas brasileiros. Não há uma linha sobre americanos, canadenses e cubanos. É a cobertura mais aleijada de um evento esportivo que eu já vi.

16/07/2007

O CÉU CHORA

No dia em que o sr. Nilo descansou, o céu derramou algumas lágrimas, talvez de alegria por receber um convidado tão ilustre. No dia em que o sr. Nilo chegou ao céu, o choro foi constante: um choro de boas-vindas discreto e elegante como o novo hóspede.

Não posso dizer que conheci o sr. Nilo, mas que convivi com ele por alguns anos, em almoços dominicais, em eventos familiares. Senhor tranqüilo e reservado, demorou algum tempo até que fosse rompido o tratamento de cordialidade mútuo e pudesse se estabelecer uma conversa para além das amenidades; a nossa timidez não era pequena.

Quando conversávamos, era uma alegria. Jazz, literatura, festivais de música, Frank Sinatra, ouvia com muito entusiasmo o que ele dizia e apreciava fascinado aquela biblioteca preciosa todas as vezes que o visitava.

Fiquei muito orgulhoso quando ele foi ao show de Matthew Herbert e sua big band por sugestão minha. Ali formou-se um laço. Fez observações pertinentes, muito educadas, sobre o que viu e ouviu (nunca houve um momento em que ele demonstrasse desapreço por algo, ele ponderava tudo de modo extremamente polido).

Se ele sabe, não fui eu que disse, mas ele e dona Martha me deram o mais lindo amor que eu já senti, a quem ele sempre chamava de “meu bem”…

Jornalista com valores nobres e raros, trasmitiu-os para as três filhas também jornalistas, o que lhe enchia de orgulho, eu sei.

Não o vi nos últimos anos, os piores da sua vida. Ainda não sei se foi melhor assim, mas assim foi. Hoje foi o primeiro dia em que fui a sua casa e ele não estava como costumava estar, mas, ainda assim, estava lá. A família reunida na sala, com o sr. Nilo, agora na mesa de centro, impresso no jornal onde trabalhou por quase 40 anos.

E estava também na elegância da Marília, no sorriso da Fernanda, no semblante da Mariana. O céu está felicíssimo hoje.

14/07/2007

TOP 10 CHATICE DOS 2000

1. Minimal.
Chato, chato, chato, boring as hell. Esnobe, pedante, ridículo. A cerveja fica mais cara e os saltos das mulheres ficam mais altos em lugares que tocam isso.

2. Emo.
Chato, mas mais aceitável se você escolher o viés do humor para encarar o cajal, o choro e a ausência de síntese.

3. Orkut.
Oh, my. Muita gente estúpida reunida, com fotos, vídeos e preferências reveladas demais.

4.”O Senhor dos Anéis”.
Uma história só com homens brancos e monstros é muito chata.

5. Emoticons.
É como o Cansei de Ser Sexy: é divertido uma vez, depois fica irritante, e volta a ficar divertido, só que menos…

6. Check-in no aeroporto.
O ideal seria que você embarcasse nu com uma sacola transparente. E você ainda vai fazer isso.

7. Reality show.
Eu faço o meu próprio todos os dias e é infinitamente mais legal.

8. Celular em shows.
OK, às vezes a iluminação das telas com o cantor ao fundo pode ser interessante. Só às vezes.

9. Flashmob.
Chato, mas pelo menos foi rapidinho.

10. Neo-analfabetismo.
Conferir, seguir e outros verbos ganharam outro significado: o errado.

10/07/2007

Madonna insiste em cantar “La Isla Bonita” em todos os shows que faz há mais de 20 anos. A melhor performance dessa música aconteceu sábado passado, em Londres, quando o incrível Eugene Hutz e Sergey Ryabtsev, da banda Gogol Bordello, um selvagem mash-up multicultural punk cigano, tocaram com ela. Mas eles não são romenos, como ela os apresentou, são ucraniano e russo, respectivamente…

Madonna e Gogol Bordello juntos é um encontro improvável, mas o resultado disso foi vibrante e agressivo, duas qualidades que “La Isla Bonita” nunca tinha tido. Sensacional.

03/07/2007

São Paulo, Quinta-feira, 20 de Maio de 1999

Chemical Brothers fazem remix de pessoas

MARCELO NEGROMONTE
da Redação

Absurdo! Não avisaram a ninguém que anteontem quase 6.000 pessoas passariam por uma experiência químico-sensorial que mudaria a maneira de como ouvem música. A terra arrasada, inóspita, assexuada, esse cenário de Mad Max que se tornou o pop tem uma destruidora trilha sonora em 1999: uma ode às sirenes. Uma música quase interativa, hedonista e coletiva, maléfica e psicodélica, rocker e… quem se importa com gêneros?

O laboratório ideal: Via Funchal, lugar fechado. Os ingredientes: Tom Rowlands e Ed Simons, os Chemical Brothers, os feiticeiros do mix eletro-psicodélico.

Os capetas alquimistas entortaram qualquer sinapse dos presentes no 1º Levi’s Live, o primeiro show do resto de nossas vidas.

A experiência oxidante foi muito além; não era o som que era remixado, triturado, liquefeito, acidulado, explodido e implodido a todo instante; era cada um dos cobaias que desembolsou R$ 45 para entrar num parque de diversões que poderia se chamar A Fantástica Viagem pela Tabela Periódica.

“Hey Boy Hey Girl”, o primeiro single de “Surrender”, intima o passageiro a entrar no acelerador de partículas. As palavras do título da música pipocam nos três telões instalados no palco e uma batida hip hop poderosa dá início ao transe que parece não ter fim. “Here we go”, diz, sarcástica, a música.

O mago Tom Rowlands parece despejar poções venenosas a cada tecla apertada, a cada botão girado -quem são esses caras que extraem sons oníricos de botões?

“Music: Response”, também do vindouro “Surrender”, remete a robôs setentistas, à ficção científica, que se faz presente e real. Kraftwerk é o primeiro nome que vem à mente -a essa altura começando a borbulhar, como num caldeirão-, mas é mais um ingrediente para a mistura. DJs vomitam toda a história do pop de uma vez só.
Todos pulam loucamente, o som (que som!), tão alto quanto perfeito, e as imagens lisérgicas e dementes anabolizam a experiência.

“Doesn’t Matter” e “Chemical Beats” ficam mais ácida, mais densa. “Life Is Sweet” transforma a vida num doce ensurdecedor. “Private Psychedelic Reel” é gigante.

Nada pára. As imagens de santos, manchas disformes, alquimistas-duendes, cores em profusão, luzes esquizofrênicas, tudo parece epiléptico demais, apesar de certo progressivismo. A alma desaba em queda livre com a espetacular “Setting Sun”. Todos com as mãos para o alto, o êxtase e o remix dos corpos são inevitáveis -os Brothers estavam apenas “working it out”.

O cenário é tão desolador quanto apaixonante em “Leave Home”. A música literalmente entra por um ouvido e sai pelo outro e assola qualquer coisa que ainda permaneça no cérebro.

Os Chemical Brothers, clássicos digitais, fazem de Marinetti mais atual do que nunca neste mundo de máquinas e sonhos. Em 1999, o discurso pop é ficcional, caótico e quase supérfluo, como a orelha nas costas do camundongo -e daí?

03/07/2007

São Paulo, terça, 19 de maio de 1998

Massive Attack

MARCELO NEGROMONTE
free-lance para a Folha

Bem-vindos ao lado escuro da Lua. O ataque massivo aos ouvidos e à mente se faz mais eficiente do que nunca em “Mezzanine”, álbum claustrofóbico, aterrador e o mais denso do trio inglês de Bristol Massive Attack.

Essa sedutora mistura de beats de hip hop, dub, groove de soul, guitarras atmosféricas, melodias etéreas com baixo profundo, que é o trip hop, mudou de rumo depois de “Mezzanine”.

O rebento levou quatro anos para nascer, depois de “Protection” (1994), e a espera pelo parto foi uma das mais adiadas e especuladas desde então. Cogitou-se um “OK Computer”, do Radiohead, inteiro remixado pelos três no lugar deste “Mezzanine”.

O terceiro álbum do trio formado por Grant Marshall (Daddy Gee), Robert Del Naja (3D) e Andrew Vowles (Mushroom, cogumelo em inglês) foi lançado em 20 de abril na Inglaterra e na terça-feira passada nos Estados Unidos. A gravadora Virgin promete colocá-lo nas prateleiras brasileiras esta semana (aqui, como sempre, há complicações injustificáveis no parto).

Mas o bebê já anda. Alcançou o primeiro lugar na Inglaterra, França e Austrália e sexto na Alemanha na semana em que veio ao mundo. Se os brasileiros tratarem bem de “Mezzanine”, a gravadora dá esperanças de relançar seus irmãos “Blue Lines” (1991) e “Protection” em seguida.

Os primeiros sinais de que “Mezzanine” é um dos discos mais soturnos deste ano (e ainda não estamos nem na metade) é a primeira música, “Angel”.

Um baixo poderosíssimo, guitarras ecoantes em overdose de dubs, clima pós-pós-Pink Floyd, aliados à voz fantasmagórica do reggaeman Horace Andy -cuja carreira mudou de direção depois de sua participação em “Blue Lines”-, fazem com que você, amedrontado, verifique se a porta de sua casa está de fato trancada. Porque a da sua mente foi completamente arrombada.

E os pioneiros do trip hop vão direto à parte mais desconhecida dela em “Risingson”, single “extra-oficial”, lançado em 97, em versão limitada, por conta da participação da banda no festival de Glastonbury.

Daddy Gee e 3D parecem dialogar, sussurrando, num lugar perdido e congelado, numa conspiração diabólica contra o bem, emoldurados por batidas sujas e ambiência surreal. “Nós viemos para mover sua alma/ e você como que desaparece ao fundo”.

Ameaça cumprida -com vocais mais ameaçadores ainda- em “Inertia Creeps”, que surge devagar e sobe num crescendo em espiral infinita e hipnótica. Devastadora, um dos pontos altos do disco.

“Teardrop”, o primeiro single “oficial”, é claustrofóbica, como o clipe, em que um bebê, antes de nascer, “dubla” a música cantada por Liz Fraser, do Cocteau Twins – que estava grávida ao gravar a canção. Sujeira estática de vinis se opõe à voz clara de Liz e às batidas secas, criando algo perturbador.

Horace Andy empresta a voz novamente em “Man Next Door”, música que está mais para “Blue Lines” do que para “Protection”. “Tenho que sair daqui,/ este não é um lugar para ficar”, diz em meio a samples das guitarras de “10:15 Saturday Morning”, do The Cure.

O Massive Attack sabe que cria o medo e abusa disso na faixa-título, para, em seguida, seduzir – e executar o golpe mortal-, em “Group Four”, duas músicas em uma genial. Uma parede de guitarras surge na segunda parte com Liz cantando como um anjo malévolo. A tensão aumenta e seus limites são testados.

Volte a respirar, abra os olhos; a lobotomia foi bem-sucedida.

03/07/2007

São Paulo, Terça-feira, 10 de Agosto de 1999
FESTIVAL DULÔCO 99
Rap instaura paz, união, amor e diversão em SP

MARCELO NEGROMONTE
da Redação

São Paulo tomou um banho de hip hop no último fim-de-semana. E ficou com a alma mais preta, mais rica. O bem-sucedido festival Dulôco 99 elevou a tríade hip hop -musical, visual e corporal- ao panteão dos grandes eventos pop que o Brasil já presenciou. Foi uma enxurrada de black music, a cultura da rua se manifestando da maneira mais organizada, o underground emergindo civilizadamente.

Grandes nomes do rap mundial e brasileiro pisaram nos palcos dos Sesc Belenzinho e Itaquera (para ser bem-sucedido não é mister lugares caros) e deram uma aula de história da música negra. Só não foi quem não quis.

O turbilhão cultural Dulôco 99 começou na última sexta-feira, com um debate com os mestres Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash no auditório do Sesc Belenzinho (região centro-leste paulistana), completamente lotado por um público interessado e esclarecido de mais de 260 pessoas.

Antes, uma observação: foi um festival de rap, em locais ditos não muito nobres, com a periferia como maior parte do público e… Alguém falou em violência? O estereótipo não passou disso: um clichê de desinformados. Não houve, nos três dias de festival e nas duas unidades do Sesc, um único distúrbio, de nenhuma natureza. Brigas, selvageria e agressões vêm, está provado, de festivais para a classe média branquinha.

Como disse o sr. “Sample”, Grandmaster Flash: “O hip hop dá a liberdade de poder falar, com letras e música, sobre o que você quiser, inclusive violência”. TC Slam, do Soul Sonic Force, foi além: “Somos “entertainers”, não temos tempo de ser assassinos. Ou somos uma coisa ou outra”.

A noite de sexta, com público menor que nos demais dias, foi o “avant-garde” do hip hop. Começou com o membro da Hemp Family carioca Black Alien enfumaçando raggamuffin e Cypress Hill.

O trio paulistano Nitro mais o DJ Nuts improvisaram bem com participação de Thaíde. O rapper de Chicago Common não emplacou com algumas presepadas e um show chatinho.

O bom da noite, que começava a esvaziar e esfriar, ficou com o original DJ Spooky.
De jazz, drum’n’bass a rap e ambient, DJ Spooky recebeu MCs brasileiros e do Soul Sonic Force. E ainda tocou contrabaixo enquanto discotecava. Quem terá a desfaçatez de enumerar os elementos do hip hop diante de DJ Spooky?

O sábado começou antes no Itaquera (a cerca de 40 minutos do centro de São Paulo) com shows de Consequência e De La Soul. O sol se punha por entre as árvores do parque do Carmo, crianças brincavam no escorregador do parquinho à esquerda do palco e, nele, o pulsante De La Soul entoava “Say No Go” -um final de tarde arrepiante, sem dúvida.

Ver o homem que criou o sample, Grandmaster Flash, no palco, esse show de um homem só (DJ e MC em um só), é uma aula de arqueologia -a que Mano Brown assistiu. Os Chemical Brothers seriam a de processamento de dados. A discotecagem artesanal, “old skull”, é do tempo bom que não volta nunca mais. Mas voltou sábado no Belenzinho.

Entrou com “The Message” e engatou LL Cool J, B.I.G., Naughty by Nature, House of Pain. Chamou b-boys e “minas” b-girls ao palco com um painel de grafite ao fundo.
Uma verdadeira “block party” com um público de mais de de 2.000 pessoas.

Os veteranos Thaíde & DJ Hum empolgaram e convidaram ao palco uma das figuras lendárias do hip hop brasileiro, Nelson Triunfo, conhecido como o primeiro b-boy do país e a maior cabeleira do planeta. Destaque para a aveludada backing vocal Ieda Rios. Show soul.

Comentário de alguém da platéia: “Nossa, muito som para uma noite só.” Ao lado, um grupo erguia um mini-system, levantado como um troféu.

Primeiro, Soul Sonic Force e, muito depois, Afrika Bambaataa, vestido como um Mobutu Sese Seko estilizado e com alma. Aí, foi uma festa, como prometeu. “Planet Rock” e “Unity” com b-girls e uma senhora “mutcho lôca”, que quase roubou a cena, no palco. Funk, funk. “Renegades of Funk” e “Sex Machine” foram estupendas. A música negra não tem fronteiras: de drum’n’bass, funk carioca (potente), R&B suingado, electro-funk… Vamos lá, diga com quantos elementos se faz hip hop, “muthafucka”.

No gelado domingo, Bambaataa, vestido como um príncipe africano, de oncinha, sem voz, repetiu a dose com mais “brazilian funk”, dançarinos de break, sacudiu o Itaquera.

À tarde, workshops de DJ, batalha de MCs, campeonato de break, demonstração de grafite. A expressão do que pode ser feito na rua estava nos Sesc.

Ainda no Itaquera, uma das duplas que prometem: Xis e Dentinho, com o DJ King. Soul music pesada, rap consistente e carisma fácil. O público cantava em coro.

Ainda faltava o último dia. Posse Mente Zulu e Záfrica Brasil, dois nomes underground do rap paulistano, abriram o domingo no Belenzinho, seguidos por Jungle Brothers.

O trio alopradinho sacou a hip house “I’ll House You”, remixou “Busy Child”, do Crystal Method, “Straight Out of the Jungle”, “Because I Got It Like That” e ainda dançaram sob o tema de “Jeannie É um Gênio”. “Put your hands in the air, São Paulo.”

De La Soul encerrou o festival com um show atrapalhado por problemas no som, Contru, vizinhança e a polícia. Por isso, “Pony Ride”, “Me Myself and I” e “A Rollerskating Named Saturday” estavam muito mais bem-humoradas no fim de tarde em Itaquera.
Dulôco 99 entrou para a história pelas atrações, diversidade, organização e iniciativa. Foi tudo uma questão de “peace, unity, love and having fun”. O mundo pode acabar amanhã.

03/07/2007

São Paulo, terça, 5 de janeiro de 1999
SPIRITUALIZED

MARCELO NEGROMONTE
da Redação

Recomenda-se enfaticamente a segunda dose de Spiritualized, lançada recentemente, como complemento de “Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space”. Não que o remédio original tenha perdido suas propriedades, mas a dose de reforço se faz necessária para manter a alma sã.

O complemento medicamentoso chama-se “Royal Albert Hall October 10 1997 Live”, portanto ao vivo, o que lhe confere certo frescor. É duplo, como convém a um complemento, e muito mais pesado, como convém a um reforço.

Se em “Ladies and Gentlemen” (97) a banda inglesa Spiritualized optou por desenvolver um “remédio” (o disco foi lançado na Inglaterra em uma embalagem de remédio com bula inclusa), neste ao vivo, em que a maioria dos ingredientes ativos (músicas) derivam de “Ladies”, tudo é despojado -até demais-, exceto o som.

Psicodelia, distorções, sensualidade e o minimalismo hipnótico são captados em sua plenitude, tornando-se uma exceção à regra dos discos ao vivo (são produtos baratos de fazer e nada acrescentam à discografia de artistas -um placebo, enfim, diriam os cientistas mais ortodoxos).

Neopsicodelia, dream pop, noise pop, space rock, post-rock são alguns dos termos usados pela medicina moderna para tentar classificar essa banda derivada do Spacemen 3 e que hoje é uma das melhores bandas de rock do mundo.

Se não, vejamos: pela manhã recomenda-se a audição de “Electric Mainline” e “Electricity”, ambas muito mais densas e propositalmente feitas para perturbar com uma saraivada de barulhos bem construídos e destruídos e reconstruídos. Suspensos ficam a respiração e os batimentos cardíacos.

À tarde, dez minutos de “I Think I’m in Love” (“acho que estou louco por você, provavelmente só aprendendo (…)/ acho que posso voar, provavelmente só caindo”), a melhor e mais bela canção do álbum, numa versão mais resistente do que a original e, por isso, imbatível. Pura sinfonia pop com coro arrepiante.

À noite, bem, à noite, não há recomendações explícitas quanto ao que ouvir.
Os dois discos podem ser ingeridos de uma vez, via oral ou intravenosa -a mais indicada. A conhecida versão gospel de “Oh Happy Day” é dilacerada por Jason Pierce, Sean Cook e Damon Reece, e o dia fica muito mais feliz. “Walking with Jesus” faz com que os sonhos virem realidade.

A combinação equilibrada, se é que se pode falar em equilíbrio com o Spiritualized, de sax, órgãos e guitarras de “No God Only Religion” abre o segundo CD com ode ao amor, ainda que instrumental.

E segue com “Broken Heart”, linda, serena, plácida.
“Estou chorando o tempo todo/ e tenho que disfarçar com um sorriso/ e tenho que seguir em frente, por enquanto/ Deus eu tenho um coração partido”, quase sussurra Pierce, que também ressalta que tem sonhos partidos. A cura está próxima.
O disco não tem contra-indicações, mas muitos efeitos colaterais.

01/07/2007

São Paulo, terça, 8 de setembro de 1998
Tóquio vê o maior evento de rock do Japão

MARCELO NEGROMONTE
enviado especial a Tóquio

Desta vez foi em Tóquio. O maior festival de rock do Japão aconteceu nos dias 1º e 2 de agosto, sob um calor de 34ºC, muita lama, com o “skyline” da cidade ao fundo e 32 nomes do melhor do rock e pop japonês e mundial.

O 2º Fuji Rock Festival reuniu cerca de 70 mil pessoas, nos dois dias, às margens da baía de Tóquio, com atrações do peso de Beck, Prodigy, Björk, Sonic Youth, Goldie, Iggy Pop, Garbage, Nick Cave, Shonen Knife, Lo-Fidelity Allstars, Primal Scream, Ian Brown, Audio Active, Geodezik (ufa!), Asian Dub Foundation, Korn e outros vários, num evento bem-sucedido, diferente do de 97.

Um tufão destruiu tudo na primeira edição do festival, realizado próximo ao monte Fuji (a cerca de 40 minutos de Tóquio), cancelando o segundo dia do evento, que teria Massive Attack, Prodigy, Beck, Green Day e Lee “Scratch” Perry.
Chegaram a tocar, em 97, Foo Fighters, Red Hot Chili Peppers, Girls against Boys, Rage against the Machine e Denki Groove.

Sob calor e umidade quase insuportáveis, o primeiro dia do Fuji Rock deste ano teve uma atração extra: a lama. Como choveu na noite anterior, os 100 mil metros quadrados da área do festival estavam imersos num grande pântano, com lama que cobria os pés. Todo bom festival tem que ter lama.

O grande destaque desse dia foi, sem dúvida, o cantor norte-americano Beck, que tinha o público sob seu total controle. Subiu ao palco por volta das 18h, ajudado por um sol que se punha “como uma manteiga”, como ele disse, com “Loser”. Bastou o primeiro acorde da música para o público correr para perto do palco e pular loucamente, fazendo tremer o chão.

Na segunda música, “New Pollution”, alguém da organização interrompeu o show para pedir que o público fosse mais para trás, pois estava esmagando os que estavam perto do palco. “Take back”, disse Beck. Os japoneses nem esperaram o fim do pedido para, calmamente, dar alguns passos para trás.

Beck também foi o único a arrancar gargalhadas dos japoneses ao parodiar um dançarino de break e imitar um carrasco com chicote e camiseta encobrindo o rosto, em “Where It’s At”. Um show inesquecível com cenário brega (um pano verde com desenhos de plumas brancas), dois toca-discos, um microfone e carisma raro.

O Garbage sacudiu a baía de Tóquio, por volta das 13h, com um show pesado, apesar do calor inclemente. A música “Only Happy When It Rains” poucas vezes teve sentido tão real quanto lá.

A linda e ruiva Shirley Manson parecia estar sentindo os efeitos da temperatura, mas fez bonito em “Push It” e “Temptation Waits”, do recém-lançado “Version 2.0”.

Lindo de fato foi o Sonic Youth, às 14h, logo após o Garbage. Kim Gordon aparece de óculos escuros, vestido azul e uma guitarra com adesivo do Snoopy, provocando uma avalanche sonora com “Becuz”, levando os japoneses a uma outra concepção de terremoto.

Em “Sunday”, Gordon já é rainha impávida no palco, quase imóvel. O público estava entorpecido e aparvalhado com aquele terrorismo das guitarras.

Em pouco mais de uma hora de apresentação, a banda tocou apenas seis músicas -o que levou Thurston Moore a pedir desculpas pelo “pouco tempo” de show.

O final foi algo muito próximo do apocalipse sonoro. Um barulho ensurdecedor com Kim pisando, com sandália de dedo e desdém, a guitarra, Lee Ranaldo se esfregando com a guitarra nos amplificadores, e o baterista Steve Shelley incorporando a guitarra de Moore a sua bateria, espancando-a com as baquetas. Indescritível.

Apesar das 35 mil pessoas, da lama e do rock, o clima do primeiro dia do festival era o de um grande piquenique com música ao vivo, tamanha era a calma no local.

Os japoneses, mesmo com a venda de cerveja, não causaram nenhum distúrbio. E alguns norte-americanos estavam adorando. Cerca de 60 gigantescos mariners dos EUA foram contratados para fazer a segurança extra (além dos japoneses pouco encorpados que faziam a segurança normal) no festival. “Nós trabalhamos em uma empresa que faz segurança em shows no Japão”, disse um deles sem se identificar. “Eles (os japoneses) são ótimos, não dão nenhum trabalho”, afirmou ao findar um cachorro-quente.

Dezenas de tendas dividiam o espaço com público e vendiam desde brinquedos Lego, objetos de decoração e discos a roupas, comidas (africana, indiana, chinesa e, óbvio, japonesa) e bebidas.

Tudo muito caro para os padrões brasileiros. Uma lata de cerveja custava cerca de R$ 4,50, camisetas giravam em torno de R$ 36 e a garrafa de 200 ml de água, que era mais consumida que cerveja, R$ 3.
A tenda mais concorrida era a da megastore Virgin, entupida a qualquer hora. Os atrativos: dois ar-condicionados e um DJ.

Se no primeiro dia houve muita lama, no seguinte havia brita no lugar. A organização cobriu boa parte do local com brita, fazendo desaparecer qualquer vestígio de água e barro. O sol que fez nos dois dias também ajudou.

O grande nome do dia foi Prodigy, precedido pelo cool Primal Scream e Ian Brown (ex-vocalista dos Stone Roses), que entrou com um chapéu de camponês asiático e leque, no palco verde.

Com um público mais “rocker” que no dia anterior, o Fuji Rock abrigou o pesadíssimo Korn, que estava prestes a lançar o disco “Follow the Leader”, a banda japonesa de hard rock Hotei, com covers do Led Zeppelin ao vivo, e os holandeses sub-Prodigy do Junkie XL, este no palco branco.

Os japoneses do Audio Active e, em seguida, a banda anglo-indiana Asian Dub Foundation, que mistura dub, drum’n’bass e rock, deram o tom contestador ao festival, com letras, som e atitudes rebeldes.

Diferentemente do que acontece na maioria dos festivais de rock, no Japão não havia nem cheiro de maconha nem qualquer comportamento que denotasse consumo de drogas. Os japoneses pareciam ter ido a um megafestival como se fossem a um programa qualquer de fim-de-semana. Sem exageros.

Exemplo disso era a fila indiana que se formava na calçada, após o término dos shows, no caminho para o metrô, sem que ninguém andasse pela rua -vazia.
Em 99, o Fuji Rock promete voltar aos pés do monte homônimo.