São Paulo, sexta-feira, 18 de maio de 2001
Cybervovô

MARCELO NEGROMONTE
DA REDAÇÃO

O avô da música eletrônica não possui nenhum aparelho eletrônico em casa. Nada de rádio, televisão nem computador. “Não tenho nada disso. Quero ficar em paz”, diz Karlheinz Stockhausen por telefone, o aparelho-exceção. Para tomar conhecimento do que acontece no mundo e em sua volta, o compositor lê jornais quando viaja de avião. “É o suficiente”, diz de sua casa em Kürten, Alemanha, próxima de onde nasceu.
A partir dos anos 50, a música passou por transformações profundas, originadas pela curiosidade, inteligência e uma dose espantosa de intuição e determinação de um jovem de menos de 30 anos. Stockhausen foi o primeiro músico a criar uma peça em que unia -literal e artesanalmente- o tradicional e a vanguarda, utilizando a eletricidade como elemento musical.
Ele vive num universo próprio, criado por ele mesmo nos anos 50 e influente até hoje em toda música mundial, de Beatles, Sonic Youth e Brian Eno a Björk, Kraftwerk e Aphex Twin -o último citado por ele como um de seus seguidores preferidos.
“Gesang der Jünglinge” (Canção das Crianças, de 1956) foi a primeira peça da história a usar loops eletrônicos. A música tornava-se infinita.
Um dos pioneiros da música concreta e do serialismo (ou dodecafonismo), em que 12 notas em série, funcionando como células harmônicas, podiam ser combinadas, misturadas, transpostas, com mais ou menos velocidade, de trás para frente -tudo ao mesmo tempo-, Stockhausen é a atração musical do Carlton Arts, evento multimídia que acontece em São Paulo.
O compositor faz sua segunda “performance” no Brasil, nos dias 29 e 30 de junho, às 21h. Os ingressos estarão à venda a partir da próxima sexta em http://www.carltonarts.com.br.
Leia a seguir trechos da entrevista com um dos maiores compositores vivos do mundo, que, aos 72 anos, considera máquinas como integrantes da “natureza” e mantém a curiosidade, determinação e praticidade de quem ainda tem muito a fazer (sua obra “Licht” -luz-, iniciada em 1977, ainda não foi concluída). “Às vezes reajo como humano”, diz sem maiores preocupações.

Folha – O sr. foi o primeiro músico a compor uma música eletrônica nos anos 50. Hoje a música eletrônica se tornou pop.
Karlheinz Stockhausen – Por que não? Eu comecei a música eletrônica em 1953 e anunciei que toda música de rádio deveria ser música eletrônica, porque era genuína música de rádio. Todas as outras músicas eram músicas tradicionais, que não foram compostas para serem transmitidas por rádio. Pop music e música de entretenimento seriam feitas para mídia eletrônica, é natural.

Folha – O sr. foi um dos criadores da música eletroacústica, em 1955, em que se fundiam músicas concreta (criada em disco ou fita magnética a partir de gravações de sons naturais) e eletrônica (que utiliza sons artificiais produzidos eletricamente). Isso era o futuro?
Stockhausen – Sim. Oh, sim. Meus antigos artigos, de 1952, 1953, previam exatamente isto: que toda mídia tradicional, ou instrumentos ou vozes, seriam apenas parte da música no futuro. E que o mainstream usaria produção eletrônica principalmente.

Folha – E o resultado disso é mais racional ou emotivo?
Stockhausen – Os dois. Não há contradição entre os dois. Se você ouve algo dentro de você, ou se você sente algo, você tem de usar o seu cérebro para fazê-lo funcionar. O cérebro é outra máquina.

Folha – O que o motiva a compor uma música? Como o sr. faz isso?
Stockhausen – Uma mistura de imaginação, intuição, visões de sons -o tempo todo- e fazendo o trabalho enquanto as idéias vêm. Tudo junto. É o trabalho em si que inspira o próximo passo sempre. E imaginação, que vem da experiência da vida toda, do sobreconsciente. E tudo junto resulta em música nova.

Folha – Quando o sr. acha que vai terminar “Licht”?
Stockhausen – Devo concluí-la antes de julho de 2005. A apresentação no ar deve acontecer em 1º de julho de 2005, mas ainda temos de achar o lugar ideal.

Folha – Um lugar específico?
Stockhausen – Nas casas de óperas não dá. Talvez duas cenas (a terceira e a quarta) possam ser apresentadas num palco de uma casa de ópera, mas, mesmo assim, precisaria de movimentações no auditório. As outras cenas não podem ser apresentadas nesse lugar, porque há muitas movimentações pelo público, projeções. Simplesmente é impossível.

Folha – Seu trabalho é direcionado a buscas de novos timbres aliadas ao desenvolvimento tecnológico. Isso não acaba tornando um universo muito fechado?
Stockhausen – Sim, certamente. Eu faço tudo isso por que eu tenho muita curiosidade. Eu me interesso o tempo todo por experimentar. E acho que muitas pessoas vão seguir isso.

Folha – A questão então não é ser popular, é tudo só por curiosidade?
Stockhausen – O problema é que a maioria das pessoas não têm tempo para acompanhar o desenvolvimento… Até agora eu tenho 289 trabalhos. São dias e dias de música. Se alguém estiver interessado em estudar a minha música, são necessários anos para isso.

Folha – Como serão as apresentações aqui? É só o sr. no palco?
Stockhausen – Ninguém no palco. Estarei no centro, no mixer. E é tudo escuro, só haverá um facho de luz para as pessoas que não gostam de escuro. Atrás do palco há uma pequena lua, mas é tudo. São concertos para as pessoas apenas ouvirem. Serão dois dias. No primeiro, apresentarei “Oktophonie” e “Kontakte”; no seguinte, “Hymnem”, que dura quase duas horas.

Folha – O sr. é uma das maiores influências da música pop e eletrônica, de Sonic Youth a Kraftwerk…
Stockhausen – Sim, sim… Aliás, Karl Bartos [do Kraftwerk” foi o convidado especial para ler o texto do meu prêmio do Polar Prize [leia texto ao lado”.

Folha – O sr. gosta de Kraftwerk?
Stockhausen – Sim, mas é muito simples! Eu falei isso para Bartos, e ele sabe que é ruim. Ele disse: “Bem, é a maneira que começamos, influenciado pelo seu trabalho”. Mas eu esperava mais polifonia, mais mudanças ricas de estruturas, harmonias etc. É muito limitado em termos de qualidade musical. É uma coleção atmosférica de eventos, mas de envergadura muito, muito pequena.

Folha – Como o sr. reage quando ouve músicos contemporâneos, seja pop, rock ou eletrônico, utilizando alguma coisa criada pelo sr.?
Stockhausen – É normal. Todo o universo da música vem do passado. Tem sido sempre uma mistura de padrões ou clichês musicais, que se juntam a algo que possui algo a mais além dessa reunião preexistente. Mas algumas vezes eu reajo como um humano. Por exemplo, um músico alemão me mandou uma fita e disse que faria um mix de três composições minhas. É assim mesmo. Músicos usam material de músicos dos quais gostam. Mas eu não gosto disso para mim. Eu tomo muito cuidado de nunca usar nada que foi usado antes.

Folha – O sr. não usa samples?
Stockhausen – Samples da natureza, apenas. Sons de indústria, metrô… Em “Hymnem” há samples de todo os tipos de eventos: da China, África, fábricas, navios, jogos de futebol, aviões etc. [e hinos nacionais de alguns países”. Deve ter sido a primeira composição com samples da história.

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