05/07/2005 – 22h10
Escritor cult e ex-prostituto, JT LeRoy lança “Sarah” no Brasil; leia entrevista

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Cinema

Depois de conversar por mais de uma hora com o escritor JT LeRoy, é impossível chamá-lo de “ele”. Principalmente se o autor estiver à paisana, como nunca aparece em público, sem perucas loiras nem óculos escuros. Em vez disso, expressivos olhos verdes e cabelos curtos assimétricos e descoloridos emolduravam um rosto angelical, apesar do buço púbere, que parece de menina.

Uma garota que já usou o pseudônimo de Terminator (Exterminador; o T de JT do seu nome) em textos no começo da carreira e que lança agora no Brasil “Sarah” (Geração Editorial), romance autobiográfico sobre um garoto que vive com a mãe, prostituta juvenil, e se torna, ele mesmo, uma putinha mirim de beira de estrada.

JT LeRoy chegou ao flat onde se hospedou em São Paulo com calças pretas, casaco preto de um tecido sintético enrugado, cujas lapelas eram unidas por um alfinete, com gola e punhos alcochoados. Ele vinha de um passeio pelo centro da cidade em que visitou a Catedral da Sé, conheceu a rua Direita, comeu salada e peixe num restaurante por quilo (“Uma delícia”) e comprou um par de luvas de lycra cor da pele, sem as pontas dos dedos (“Não é esquisito? Adorei”).

No dia seguinte (6/7), embarcaria para Parati, onde acontece a festa literária da cidade (Flip) para a qual não foi convidado. Apesar disso, iria até lá para passear e ver o show de Paulinho da Viola.

Minutos depois da entrevista, LeRoy iria de metrô à sessão de autógrafos de “Sarah” na Livraria da Vila, onde responderia a perguntas de leitores, e estava entusiasmado com o programa a seguir: visitar uma casa de forró no bairro de Pinheiros (“Oh, não, não vou dançar”).

No dia anterior à entrevista, foi exibido em SP o filme “The Heart Is
Deceitful Above All Things”, dirigido e protagonizado por Asia Argento, 29, filha do diretor italiano Dario Argento. Era do pai de Dario o chapéu negro de abas largas que o escritor usava durante a sessão, presente de Asia. “É o meu chapéu da sorte”.

O filme é baseado no livro homônimo de LeRoy, escrito quando ele tinha 16 anos e publicado em 2001, após “Sarah” (de 2000), escrito quando ele tinha 20. Estão no filme Winona Ryder, Michael Pitt, Marilyn Manson, Peter Fonda e Ornella Muti.

Asia interpreta Sarah, a mãe de LeRoy (batizado de Jeremiah; o J do seu nome), uma prostituta bagaceira que atendia caminhoneiros no interior dos EUA. O filme mostra a infância de LeRoy, criado por pais adotivos até os quatro anos, quando voltou para a mãe _que lhe apresentou algumas drogas antes de ele perder os dentes de leite e lhe ensinou a catar comida do lixo para sobreviver_ até ser currado por um dos maridos eventuais dela. Então ele passou a ser criado pelos avós ultra-religiosos e conservadores. Mas a mãe resgatou o filho novamente e o levou para a estrada com ela.

A história de “Sarah” se dá quando ele (a essa altura “ela”) conta as suas experiências de prostituta pelas boléias dos caminhões de West Virginia, Estado natal de LeRoy, a maioria acompanhadas de um osso de pênis de guaxinim pendurado no pescoço (que está na capa da edição brasilera, com o nome do autor impresso).

LeRoy usa o codinome da própria mãe, hoje já morta, para se prostituir. “Tenho dezenas de ossos de pênis de guaxinim em casa”, diz o autor, relativamente animado ao mencionar o amuleto que ganhou do seu cafetão.

O parágrafo acima relata alguns dos aspectos peculiares do seu comportamento, que inclui andar sob disfarces, a lenda de que não dá entrevistas face a face _ambos por suposta timidez_ e a dúvida sobre o seu nome verdadeiro, entre muitos outros. Isso, aliado ao seu círculo de amigos como Madonna (“ela se alterna entre legal e fria comigo”), Gus Van Sant (autor da foto da capa de “Sarah”) e Shirley Manson, vocalista do Garbage que fez a música “Cherry Lips (Go Baby Go!)” em sua homenagem _Cherry Lips era também seu “nome de guerra”_, entre outras celebridades, lhe confere certo status cult nos EUA.

Filho de pai teólogo _”não o conheço, não tenho muito a dizer dele”_, LeRoy mora hoje em San Francisco com um casal de ex-sem-teto e seu filho pequeno, grupo que ele chama de “família”. É com essa dupla que o autor de “Sarah” tem a banda de rock Thistle (espinho), da qual ele é o pirncipal letrista.

Do rosto doce de LeRoy sai um fiapo de voz feminina no começo da conversa, e seus gestos são contidos acompanhados pelo seu olhar cabisbaixo. Ao final, ele está descontraído, falante, e diz ter adorado açaí, novidade brasileira, e detestado a festa de encerramento do São Paulo Fashion Week, a que fora na noite anterior, convidado pela colunista da “Folha” Erika Palomino. “Era muito esquisito, aquelas pessoas pareciam marionetes e o DJ era péssimo”, disse.

Em tempo: Assim como o primeiro livro de LeRoy, “Sarah” será adaptado para o cinema pelo diretor Steven Shainberg, ainda sem data de lançamento.

Veja abaixo os principais trechos da conversa com o escritor que toma
hormônios femininos “há muito tempo”, tem 25 anos e é capoerista há cinco.

Você acha que existe algum paralelo entre se prostituir e escrever?
JT LeRoy – Sim, existe (pausa). Acho que, em ambos os casos, existe uma busca. Seja de clientes, seja de editor (risos). E existe também uma excitação em encontrar algo que tenha algum resultado. Acho que o fato de ter passado um período nas ruas me deu uma “streetwise” (malícia das ruas) fundamental para o que escrevo.

Você não acha que andar disfarçado (peruca e óculos escuros) chama mais atenção do que andar à paisana? Qual o seu objetivo em aparecer em público dessa maneira?
JT LeRoy – Eu sempre tive vários disfarces, desde criança, quando a minha mãe me chamava de vários nomes, me vestia de mulher, dizia que eu era sua irmã etc. É como uma máscara protetora contra as outras pessoas, de quem geralmente “ouço” o que estão pensando a meu respeito. Quando eu era criança, as pessoas sempre me olhavam, mas por motivos diferentes dos que me olham agora. Não estava preparado para isso, ou melhor, não sabia como reagir a esse “assédio”. É uma carcaça blindada, como a do Darth Vader.

Além disso, eu adoro brincar com roupas, usar o que tiver vontade e agir de acordo com a indumentária. Quando você se fantasia, você age, fala, se comporta e se senta de modo diferente. Gosto de ser fluido, de ter liberdade de ser uma coisa ou outra.

Ontem, por exemplo, fui a uma festa (de encerramento do São Paulo Fashion Week) com peruca e óculos escuros, e os fotógrafos começaram a me fotografar assim que me viram. E não tinham idéia de quem eu era! Se fosse um pedaço de pau com peruca, esse comportamento teria sido igual. Isso é divertido.

Depois da exibição do filme “The Heart Is Deceitful Above All Things” (dia 4/7, em SP), você estava muito nervoso, parecia quase em pânico por falar diante de uma platéia. Não era uma mise-en-scène que faz parte da sua publicidade?
JT LeRoy – Não, de fato estava nervoso, mas acho que estou melhorando em relação a isso. (risos)

Você disse em entrevistas que costuma transar com as pessoas que entrevista para publicações como “i-D”, “Spin”, “New York Press” etc. É verdade?
JT LeRoy – Hum… Ainda há muitas perguntas ou essa é a última? (risos). Bem, isso já rolou, mas acho que não foi importante, foi algo que simplesmente aconteceu naturalmente. Você nunca transou com os seus entrevistados?

Não. Mas isso leva à próxima pergunta: você ainda faz programas?
JT LeRoy – (Pausa) Bem… Acho que não vou responder a essa pergunta (faz um tipo envergonhado).

Até quando o que se passou na sua infância será determinante na sua criação literária?
JT LeRoy – Até daqui a seis meses? (risos). Não sei, mas entendo o que você quer dizer e não quero ficar conhecido apenas como o escritor que fala de sua infância conturbada e prostituída. Acho que nos primeiros livros havia uma grande necessidade de escrever o que se passou comigo, como se eu precisasse expelir aquela experiência para ficar mais tranqüilo.

Agora, depois de ter feito isso, sinceramente acho que é possível tratar de outros temas, haja vista que hoje em dia sinto que há tanto mais a fazer do que apenas escrever romances. E escrevo muito lentamente atualmente.

Mas, de qualquer forma, estou cada vez mais ficcional e gosto disso. É o que mantém o corpo feliz: “play” (brincar, representar).

Quando você começou a escrever e a ter contato com literatura?
JT LeRoy – O contato com literatura se deu quando morei com os meus avós (durante sete anos em períodos intercalados), que são muito religiosos. Então li a Bíblia, inteira, e inventava histórias a partir de Shakespeare, dos clássicos. Os livros não me diziam muito, mas algo do que há neles ficou em mim de certa maneira. E, quando estava com a minha mãe, eu sempre fazia anotações, escrevia pequenos textos. Ela odiava isso.

Depois, comecei a escrever por perscrição do meu psiquiatra, de quem ainda não tive alta. Ele sugeriu, como parte do tratamento que eu escrevesse o que se passava comigo para que houvesse continuidade do tratamento na sessão seguinte. Foi assim que escrevi “The Heart Is Deceitful Above All Things”, uma coletânea de 11 textos.

O que você faz agora? Quando sai o seu próximo livro?
JT LeRoy – O próximo livro _ainda sem nome, quer dizer, há um nome provisório, mas é muito bobo, então prefiro não falar_ já está mais da metade escrito, deve sair no ano que vem, espero. Nele há ainda o personagem Cherry Vanilla (o seu alter-ego _ou ele próprio_ em “Sarah”). Pode-se dizer que é uma seqüência de “Sarah”.

Também fiz o roteiro de um episódio de “Deadwood” (seriado do canal Fox), que deve ser exibido na próxima temporada. “Deadwood” não é o máximo? Meu Deus, como é bom! Ian McShane (ator da série) é o meu herói.

E tenho colaborado num filme de animação para crianças, com Todd Kessler (criador da animação “Blue’s Clues”, da Nickelodeon) e Rebecca Goldstein (da produtora No Hands Production). Além disso, estou trabalhando num documentário musical sobre (o artista plástico) Andy Warhol, que vai ser algo meio operístico, grandioso. Estou escrevendo as letras das músicas.

No filme de Asia Argento, o personagem Jeremiah aparece pregando a Bíblia na rua. Você chegou a fazer aquilo? Você acha que seria escritor se tivesse morado o tempo todo com os seus avós religiosos?
JT LeRoy – Sim, fiz aquilo quando criança. Asia fez uma adaptação muito literal do livro. E fiquei tão feliz quando o meu psiquiatra foi ver o filme, que eu disse a ele: “Está vendo? Era exatamente isso o que eu estava tentando dizer a você!”.

É curioso, mas acho que seria um pastor se morasse com os meus avós (risos). Sério, há uma excitação em pregar que é muito legal.

Quais foram os autores que o influenciaram?
JT LeRoy – Mary Karr, que foi ótima e realmente fez críticas construtivas ao que escrevia, adoro “The Liar’s Club”. Além dela, há Dennis Cooper e Frank McCourt.

Você é conhecido por inventar muitas coisas a seu respeito. Quanto do que você falou nesta entrevista é real?
JT LeRoy – (Risos) Deixe-me pensar… Alguma coisa, muita coisa.

____________________
SARAH
» Autor: JT LeRoy
» Editora: Geração Editorial
» Preço : R$ 32 (160 págs.)

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