26/12/2006 – 14h24
James Brown, o funk soul brother, esquenta ainda mais o inferno com seu groove

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Música

25 de dezembro se tornou uma data mais marcante ainda. Nesse dia nasceu um sujeito que definiu a civilização ocidental e morreram pelo menos dois gênios que definiram as artes do século 20: Charles Chaplin, em 1977, e James Brown, ontem.

Assim, “o homem que mais trabalha no show business” tirou férias. Mais do que isso, mais do que “Mr. Dynamite”, mais do que o “Padrinho do Soul”, mais do que o “Ministro do Super Heavy Funk”, todos epítetos dados a si mesmo, James Brown era o funk em pessoa.

Cabelo inacreditável em forma de capacete, dentadura alvíssima, roupas acetinadas e extravagantes e aquele suor constante que umidificava seu rosto, resultado do mais puro sexo que a música já experimentou em cima de um palco. E o sexo que mr. Brown praticava fora dele era tão selvagem quanto a sua música; as moças que apanharam dele que o digam.

As pedras fundamentais do funk, soul, r&b e, por transubstanciação, do hip hop anos depois, “Sex Machine”, “Hot Pants”, “I Got You (I Feel Good)”, “Cold Sweat”, “I Got Ants in My Pants” (bastariam os nomes dessas músicas para figurarem numa lista de melhores do pop), além da porrada anti-racista “Say It Loud – I’m Black and I’m Proud” (em que crianças brancas e orientais cantam o refrão), rolam 40 anos depois com o mesmo viço. Bem, clássicos são exatamente isso. Ou, como ele imodestamente disse em 1990, “estou sempre 25 anos à frente do meu tempo”.

A capa de cetim que usava nos shows era só um dos aspectos da africanidade de Brown. Ele era o chefe de uma tribo que “aprendeu tudo que ele ensinou -mas ele não ensinou tudo o que sabia”, como escrevera em sua autobiografia. A complexidade negra teve poucos tradutores tão viscerais como James Brown.

Apesar de dar voz (rouca, improvisada, genial) aos negros numa época em que os negros começavam a ganhar voz (e, é claro, ganhava eco entre os brancos), Brown era ambíguo politicamente e conservador em relação aos membros de sua banda, que eram só menos maltratados do que as mulheres que se deitavam com o Funk Soul Brother.

Em 1968, ele cantava alto que era negro e tinha orgulho disso. Anos mais tarde apoiava a reeleição do republicano Richard Nixon. Da banda que comandava com cetro de ferro, Brown chegava a cobrar multa por um sapato menos engraxado do que o aceitável –por ele, o homem que brilhava literalmente da cabeça aos pés. Pergunte a Maceo Parker e a Bootsy Collins.

E Brown dançava. Como ninguém. Talvez como o Diabo. Michael Jackson e seu “moonwalk” são tributários dos rodopios, parcerias com o pedestal do microfone e abertura de pernas, dignos de figurarem em “calças quentes”. Mick Jagger, Prince e todos esses “Justin Timbalands” dos anos 2000 também só existem como tais porque antes houve Brown.

Como se trata do pai do funk (sujo, fedorento em sua acepção pré-Brown), o Mr. Dynamite não teve uma vida limpinha, como, digamos, o pai de um gênero mais comportado como a bossa nova. James Brown era mau, e foi mau até o fim. Criado na infância num puteiro da Georgia, o menino teve problemas com a polícia desde então (por causa de drogas, roubos, armas etc.) e até 2004, quando foi fichado por violência doméstica –“It’s a Man’s Man’s Man’s World”, já havia avisado.

Enfim, desde ontem o gênio do funk, o padrinho do soul, o “boss” do ritmo e do blues está, espero, não no céu, mas no inferno que ele ajudou a materializar aqui na Terra: quente, sexy, rico e certamente acompanhado de metais endiabrados (ops!). Porque o céu deve ser um tédio para Brown, e o groove mora perto dos malfeitores para sempre. Amém.

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