21/04/2006 – 21h15
Caso Márcia X: Museu deveria ser território livre do alcance de qualquer Igreja

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Cinema

A proibição de qualquer manifestação por meio da arte é inócua. Não apenas o impedimento provoca uma exposição exacerbada daquilo que se pretendia eliminar, como os seus praticantes, cegos pela ignorância, são incapazes de perceber o fato.

O Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro abriga até o dia 30 a mostra “Erotica – Os Sentidos na Arte”. Nesse evento estava a obra “Desenhando em Terços”, de Márcia X (1959-2005) _um sobrenome que sugere a piada de ter sido também ele censurado_, retirado esta semana devido a “centenas de reclamações”, segundo a direção do CCBB. Pesa na decisão também o fato de a organização católica Opus Christi ter entrado na Justiça por causa da obra. Esse grupo considera a obra “blasfema” e “agressiva à fé católica”.

A “blasfêmia”: dois terços dispostos em forma de pênis que resultam numa cruz _ou num X.

O tal Opus Christi quer mais. Vai pedir na Justiça a retirada de um quadro sem título, da mesma mostra do CCBB, de autoria de Alfredo Nicolaiewsky, em que são Jorge está ao lado de um “nu masculino”.

Quase na segunda década do século 21, a Igreja Católica, por meio de uma obscura facção reacionária, continua agindo como se ainda fosse o século 14, quando a política vigente da instituição era a selvagem Inquisição _expediente de que a própria Igreja hoje se envergonha.

Duas discussões surgem aqui. A primeira é que a “fé católica” está fora do âmbito religioso no caso em questão, ainda que seja explicitamente referente a ela. Não se trata de uma profanação de um altar de igreja. O museu é por definição território livre _de tudo e de todos. Portanto ocorre uma manifestação que não diz respeito aos valores sacros, mas ao que eles representam numa cultura católica (por enquanto) como a brasileira _e isso vai além do alcance da Igreja.

O que está no espaço expositivo de um museu, “templo das Musas”, deveria ser tratado com a mesma reverência que qualquer obra que integra o ambiente de uma igreja porque há motivos para que esse ou aquele objeto esteja lá _e esteja disposto da maneira em que está. Não consta que tenha havido censura externa de nada do que a Igreja exiba em seus templos. Por que a violência do caso Márcia X?

A segunda questão é o direito de expressão. Isso é pedra fundamental da democracia. Não se pode aceitar tudo de todos, é saudável haver abordagens divergentes da “oficial”; é iluminador, acima de tudo.

Por fim, há o fato de nem todos serem católicos nem acreditarem em Deus, e essa pluralidade está sendo “agredida”, para usar o mesmo termo do grupo. Santa ignorância.

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