18/06/2006 – 12h53
Festival espanhol Sónar ficou mais pop em sua 13ª edição

MARCELO NEGROMONTE
em Barcelona, Espanha

Na sua 13ª edição, o Sónar foi menos Sónar. O Festival Internacional de Música Avançada e Arte Multimídia de Barcelona, conhecido por apresentar atrações de vanguarda, ficou mais pop. Lado bom: estava mais divertido. Lado não tão bom: tornou-se mais parecido com qualquer grande festival europeu.

Claro que houve atrações experimentais, como os japoneses ensandecidos (no Sónar, isso foi quase um pleonasmo) Doravideo e Tucker, o elegante grupo Circlesquare e a bem-humorada Modified Toy Orchestra, mas os shows da veterana banda disco Chic e dos debochados Scissor Sisters, além do cha-cha-cha de Señor Coconut and His Orchestra deram aquilo de que o público –qualquer público de qualquer festival– mais gosta: uma festa-baile daquelas.

O Chic, liderado pelo guitarrista e produtor Nile Rodgers, tocou uma avalanche de hits da discoteca, numa apresentaçao longe do melancólico ou deprimente, o que geralmente acontece quando bandas de 30 anos de carreira ainda tocam músicas de quando se tornaram conhecidas.

“Everybody Dance”, “Le Freak” (com inserção de “Rappers Delight”, do Sugarhill Gang, que sampleou trecho da música), “Good Times”, “I’m Coming Out”, “Dance, Dance, Dance (Yowsah, Yowsah, Yowsah)”, “Upside Down”, “We Are Family” foram algumas das músicas que todo mundo conhece apresentadas com classe e suingue no show da noite de sexta passada. Destaque para a o desempenho da vocalista de tranças vermelhas Sylver Logan Sharp. A tal “música avançada” deu uns passinhos -bem ensaiados, aliás– para o lado e abriu espaço para o entretenimento dançante.

Na tarde da sexta, os anos 70 estiveram no ar com os roqueiros revisionistas Scissor Sisters, que fizeram um excelente show surpresa no palco principal da quente tarde de sexta.

Na programação do festival, a banda, que lança disco novo em setembro, aparecia com o sugestivo nome de White Diet, mais uma piada desse grupo devasso que traz de volta o rock com calças justas de lamê e falsete nos vocais.

Gratamente surpreendido, o público dançou e cantou bravamente a popular versão de “Comfortably Numb” e “Filthy Gorgeous”, uma “homenagem” aos bigodes masculinos, que “graças a Deus estão na moda de novo”, comemorou a vocalista Ana Matronic.

E o Señor Coconut, com seu “conjunto”, sobriamente vestido de paletó e gravata, proporcionou um belo fim de tarde desse último fim de semana antes do verão, com versões latinas de “We Are the Robots”, “Showroom Dummies”, ambas do Kraftwerk, e “Smooth Operator”, de Sade. Fiesta, fiesta!

Igualmente memoráveis foram as performances de Jimmy Edgar, Goldfrapp (pop classudo), Circlesquare, Modeselektor (brutal, espetacular), dos DJs Diplo e A-Trak (Guns´n Roses com funk carioca, MIA com Beatles), Hot Chip (disco punk fofo), The MFA e do “poeta do reggae” Linton Kwesi Johnson.

Veja abaixo os destaques dos três dias do Sónar 2006, encerrado ontem (17) em Barcelona.

Quinta, 15

The Knife foi o nome do dia. A dupla de irmãos suecos congelou o Sónar num show poderoso e sombrio (leia mais). Kraut rock distorcido, contorcido e retorcido ficou a cargo da banda Shit and Shine, com quatro bateristas e dois baixistas. O grupo inglês Tunng levou mais tranquilidade com sua folktrônica ao Sónar Dôme, palco coberto na frente do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona. Antes dele, o rapper fanfarrão Jake balançou sua pança norte-americana com músicas do seu disco “The Rapper”.

À noite, no Auditori, sede da orquestra sinfônica da cidade, o japonês Ryuichi Sakamoto e o finladês Alva Noto apresentaram o projeto minimalista “Insen”.

Sexta, 16

O show surpresa do Scissors Sisters, a surpresa do show do Chic e Señor Coconut botaram todos a bailar. O trio nova-iorquino Liars, com membros vestidos com roupas femininas (à la New York Dolls), levou crueza punk e violência sonora ao palco. Em seguida, Circlesquare, do canadense Jeremy Shaw, apresentou músicas do álbum “Fight Sounds”, com banda, glitches elegantes e eletrônica intimista.

O baterista japonês Doravideo combinou imagens, samples e muito barulho numa performance curiosa. Ele toca bateria sobre bases pré-programadas em sintonia com imagens de vídeo que ele seleciona na hora. Samples de “Blue Monday”, do New Order, imagens de Britney Spears, George Bush, do primeiro-ministro do Japão, de filmes pornô e de espetáculos tradicionais nipônicos formavam uma salada niilista de resultado vigoroso.

O quarteto de DJs franceses Birdy Nam Nam encerrou a parte diurna, com versatilidade e criatividade e nada de virtuosisimo com scratches (ainda bem).

À noite, a banda Chic fez o que fez e foi antecedida pelo “beatbox humano” Rhazel, um dos convidados de Björk para o seu disco “Medúlla”. Dono de uma técnica impressionante, ele canta e faz os sons de bateria, baixo e mais instrumentos, ao mesmo tempo, só com a voz. OK, mas mais do que dois minutos disso é bem chato: pra que isso, afinal?

Ainda no palco principal, depois do Chic, veio Jimmy Edgar. Visivelmente nervoso, o sujeito de 22 anos e unhas pretas, comandava teclas, teclado, mouse e botões e também cantava com voz processada (vocoder) e fumava de vez em quando. Músicas do seu novo álbum “Color Strip” (Warp), como a ótima “My Beats”, que encerrou o set numa versão mais acelerada, compuseram boa parte da apresentação. Espécie de nova sensação eletrônica semi-underground, Edgar também é fotógrafo, designer gráfico, pintor e faz roupas. E, é claro, é übercool.

O reggaeman Linton Kwesi Johnson, ex-militante do grupo Panteras Negras, destoou positivamente da programação noturna do evento. Senhor distinto e alinhado, Johnson cantou suas poesias engajadas de quando era mais jovem (ele tem 54) e pregou contra o racismo e a violência contra os negros.

De pijamas azuis de seda e toalhas laranjas no pescoço, Herbert e sua banda –mas sem a prometida cantora Dani Siciliano, mulher do artista– exibiram músicas do novíssimo álbum “Scale”, de envergadura mais pop do que seus trabalhos recentes e que dialoga com seu disco “Bodily Functions” (2001). Foi um show pouco mais do que apenas convencional.

E o DJ Kenny Dope, um clássico, tocou enquanto amanhecia.

Sábado, 17

Foi o dia mais fraco e a melhor noite. Enquanto havia sol, se destacou a banda inglesa The Modified Toy Orchestra. E o nome da banda é exatamente isso: brinquedos “transgênicos”, modificados para soar como “instrumentos musicais”. A banda é bem humorada, engraçada até. Seus cinco membros se posicionam atrás de uma espécie de bancada, se vestem de paletó e gravata como vendedores e apresentam seus “produtos”, no caso os brinquedos. Humor e glitches raramente andam juntos, afinal a IDM é muito séria para brincadeiras, não é? No fim, a banda fez uma versão de “Pocket Calculator”, do Kraftwerk.

A noite começou com o grupo Hot Chip, que lançou há pouco o bom álbum “The Warning”. Disco punk menos agressiva do que sensível, uma beleza. O hit “Over and Over” encerrou o show bacana dos ingleses.

Depois foi a vez do Goldfrapp no palco principal. A vocalista Allison Goldfrapp, de shorts curtos e cabelos longos, loiros e esvoaçantes, está mais para Britney Spears do que para a imagem de pin-up cool de tempos atrás. A despeito disso, o concerto entretém bastante. Contribuem para isso as boas músicas do álbum “Supernature” e as moças de colant e cabeça de cavalo gigante e prateada que subiram ao palco em “Ride a White Horse”, além, obviamente, da voz de Allison.

A boa dupla inglesa The MFA antecedeu a Miss Kittin, que tocou antes dos alemães do Modeselektor. As três apresentaçoes formaram uma seqüência destruidora para dançar no último dia do festival. A dupla Modeselektor, especialmente, fez uma apresentação empolgante com músicas do disco “Hello Mom!”, com graves absurdos e batidas inteligentes.

Depois disso, a pista com Ricardo Villalobos e Richie Hawtin estava entupida já pela manhã, e o DJ Disco D tocava pancadão para bem pouca gente.

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