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07/05/2007

São Paulo, sexta-feira, 18 de maio de 2001
Cybervovô

MARCELO NEGROMONTE
DA REDAÇÃO

O avô da música eletrônica não possui nenhum aparelho eletrônico em casa. Nada de rádio, televisão nem computador. “Não tenho nada disso. Quero ficar em paz”, diz Karlheinz Stockhausen por telefone, o aparelho-exceção. Para tomar conhecimento do que acontece no mundo e em sua volta, o compositor lê jornais quando viaja de avião. “É o suficiente”, diz de sua casa em Kürten, Alemanha, próxima de onde nasceu.
A partir dos anos 50, a música passou por transformações profundas, originadas pela curiosidade, inteligência e uma dose espantosa de intuição e determinação de um jovem de menos de 30 anos. Stockhausen foi o primeiro músico a criar uma peça em que unia -literal e artesanalmente- o tradicional e a vanguarda, utilizando a eletricidade como elemento musical.
Ele vive num universo próprio, criado por ele mesmo nos anos 50 e influente até hoje em toda música mundial, de Beatles, Sonic Youth e Brian Eno a Björk, Kraftwerk e Aphex Twin -o último citado por ele como um de seus seguidores preferidos.
“Gesang der Jünglinge” (Canção das Crianças, de 1956) foi a primeira peça da história a usar loops eletrônicos. A música tornava-se infinita.
Um dos pioneiros da música concreta e do serialismo (ou dodecafonismo), em que 12 notas em série, funcionando como células harmônicas, podiam ser combinadas, misturadas, transpostas, com mais ou menos velocidade, de trás para frente -tudo ao mesmo tempo-, Stockhausen é a atração musical do Carlton Arts, evento multimídia que acontece em São Paulo.
O compositor faz sua segunda “performance” no Brasil, nos dias 29 e 30 de junho, às 21h. Os ingressos estarão à venda a partir da próxima sexta em http://www.carltonarts.com.br.
Leia a seguir trechos da entrevista com um dos maiores compositores vivos do mundo, que, aos 72 anos, considera máquinas como integrantes da “natureza” e mantém a curiosidade, determinação e praticidade de quem ainda tem muito a fazer (sua obra “Licht” -luz-, iniciada em 1977, ainda não foi concluída). “Às vezes reajo como humano”, diz sem maiores preocupações.

Folha – O sr. foi o primeiro músico a compor uma música eletrônica nos anos 50. Hoje a música eletrônica se tornou pop.
Karlheinz Stockhausen – Por que não? Eu comecei a música eletrônica em 1953 e anunciei que toda música de rádio deveria ser música eletrônica, porque era genuína música de rádio. Todas as outras músicas eram músicas tradicionais, que não foram compostas para serem transmitidas por rádio. Pop music e música de entretenimento seriam feitas para mídia eletrônica, é natural.

Folha – O sr. foi um dos criadores da música eletroacústica, em 1955, em que se fundiam músicas concreta (criada em disco ou fita magnética a partir de gravações de sons naturais) e eletrônica (que utiliza sons artificiais produzidos eletricamente). Isso era o futuro?
Stockhausen – Sim. Oh, sim. Meus antigos artigos, de 1952, 1953, previam exatamente isto: que toda mídia tradicional, ou instrumentos ou vozes, seriam apenas parte da música no futuro. E que o mainstream usaria produção eletrônica principalmente.

Folha – E o resultado disso é mais racional ou emotivo?
Stockhausen – Os dois. Não há contradição entre os dois. Se você ouve algo dentro de você, ou se você sente algo, você tem de usar o seu cérebro para fazê-lo funcionar. O cérebro é outra máquina.

Folha – O que o motiva a compor uma música? Como o sr. faz isso?
Stockhausen – Uma mistura de imaginação, intuição, visões de sons -o tempo todo- e fazendo o trabalho enquanto as idéias vêm. Tudo junto. É o trabalho em si que inspira o próximo passo sempre. E imaginação, que vem da experiência da vida toda, do sobreconsciente. E tudo junto resulta em música nova.

Folha – Quando o sr. acha que vai terminar “Licht”?
Stockhausen – Devo concluí-la antes de julho de 2005. A apresentação no ar deve acontecer em 1º de julho de 2005, mas ainda temos de achar o lugar ideal.

Folha – Um lugar específico?
Stockhausen – Nas casas de óperas não dá. Talvez duas cenas (a terceira e a quarta) possam ser apresentadas num palco de uma casa de ópera, mas, mesmo assim, precisaria de movimentações no auditório. As outras cenas não podem ser apresentadas nesse lugar, porque há muitas movimentações pelo público, projeções. Simplesmente é impossível.

Folha – Seu trabalho é direcionado a buscas de novos timbres aliadas ao desenvolvimento tecnológico. Isso não acaba tornando um universo muito fechado?
Stockhausen – Sim, certamente. Eu faço tudo isso por que eu tenho muita curiosidade. Eu me interesso o tempo todo por experimentar. E acho que muitas pessoas vão seguir isso.

Folha – A questão então não é ser popular, é tudo só por curiosidade?
Stockhausen – O problema é que a maioria das pessoas não têm tempo para acompanhar o desenvolvimento… Até agora eu tenho 289 trabalhos. São dias e dias de música. Se alguém estiver interessado em estudar a minha música, são necessários anos para isso.

Folha – Como serão as apresentações aqui? É só o sr. no palco?
Stockhausen – Ninguém no palco. Estarei no centro, no mixer. E é tudo escuro, só haverá um facho de luz para as pessoas que não gostam de escuro. Atrás do palco há uma pequena lua, mas é tudo. São concertos para as pessoas apenas ouvirem. Serão dois dias. No primeiro, apresentarei “Oktophonie” e “Kontakte”; no seguinte, “Hymnem”, que dura quase duas horas.

Folha – O sr. é uma das maiores influências da música pop e eletrônica, de Sonic Youth a Kraftwerk…
Stockhausen – Sim, sim… Aliás, Karl Bartos [do Kraftwerk” foi o convidado especial para ler o texto do meu prêmio do Polar Prize [leia texto ao lado”.

Folha – O sr. gosta de Kraftwerk?
Stockhausen – Sim, mas é muito simples! Eu falei isso para Bartos, e ele sabe que é ruim. Ele disse: “Bem, é a maneira que começamos, influenciado pelo seu trabalho”. Mas eu esperava mais polifonia, mais mudanças ricas de estruturas, harmonias etc. É muito limitado em termos de qualidade musical. É uma coleção atmosférica de eventos, mas de envergadura muito, muito pequena.

Folha – Como o sr. reage quando ouve músicos contemporâneos, seja pop, rock ou eletrônico, utilizando alguma coisa criada pelo sr.?
Stockhausen – É normal. Todo o universo da música vem do passado. Tem sido sempre uma mistura de padrões ou clichês musicais, que se juntam a algo que possui algo a mais além dessa reunião preexistente. Mas algumas vezes eu reajo como um humano. Por exemplo, um músico alemão me mandou uma fita e disse que faria um mix de três composições minhas. É assim mesmo. Músicos usam material de músicos dos quais gostam. Mas eu não gosto disso para mim. Eu tomo muito cuidado de nunca usar nada que foi usado antes.

Folha – O sr. não usa samples?
Stockhausen – Samples da natureza, apenas. Sons de indústria, metrô… Em “Hymnem” há samples de todo os tipos de eventos: da China, África, fábricas, navios, jogos de futebol, aviões etc. [e hinos nacionais de alguns países”. Deve ter sido a primeira composição com samples da história.

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07/05/2007

05/07/2005 – 22h10
Escritor cult e ex-prostituto, JT LeRoy lança “Sarah” no Brasil; leia entrevista

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Cinema

Depois de conversar por mais de uma hora com o escritor JT LeRoy, é impossível chamá-lo de “ele”. Principalmente se o autor estiver à paisana, como nunca aparece em público, sem perucas loiras nem óculos escuros. Em vez disso, expressivos olhos verdes e cabelos curtos assimétricos e descoloridos emolduravam um rosto angelical, apesar do buço púbere, que parece de menina.

Uma garota que já usou o pseudônimo de Terminator (Exterminador; o T de JT do seu nome) em textos no começo da carreira e que lança agora no Brasil “Sarah” (Geração Editorial), romance autobiográfico sobre um garoto que vive com a mãe, prostituta juvenil, e se torna, ele mesmo, uma putinha mirim de beira de estrada.

JT LeRoy chegou ao flat onde se hospedou em São Paulo com calças pretas, casaco preto de um tecido sintético enrugado, cujas lapelas eram unidas por um alfinete, com gola e punhos alcochoados. Ele vinha de um passeio pelo centro da cidade em que visitou a Catedral da Sé, conheceu a rua Direita, comeu salada e peixe num restaurante por quilo (“Uma delícia”) e comprou um par de luvas de lycra cor da pele, sem as pontas dos dedos (“Não é esquisito? Adorei”).

No dia seguinte (6/7), embarcaria para Parati, onde acontece a festa literária da cidade (Flip) para a qual não foi convidado. Apesar disso, iria até lá para passear e ver o show de Paulinho da Viola.

Minutos depois da entrevista, LeRoy iria de metrô à sessão de autógrafos de “Sarah” na Livraria da Vila, onde responderia a perguntas de leitores, e estava entusiasmado com o programa a seguir: visitar uma casa de forró no bairro de Pinheiros (“Oh, não, não vou dançar”).

No dia anterior à entrevista, foi exibido em SP o filme “The Heart Is
Deceitful Above All Things”, dirigido e protagonizado por Asia Argento, 29, filha do diretor italiano Dario Argento. Era do pai de Dario o chapéu negro de abas largas que o escritor usava durante a sessão, presente de Asia. “É o meu chapéu da sorte”.

O filme é baseado no livro homônimo de LeRoy, escrito quando ele tinha 16 anos e publicado em 2001, após “Sarah” (de 2000), escrito quando ele tinha 20. Estão no filme Winona Ryder, Michael Pitt, Marilyn Manson, Peter Fonda e Ornella Muti.

Asia interpreta Sarah, a mãe de LeRoy (batizado de Jeremiah; o J do seu nome), uma prostituta bagaceira que atendia caminhoneiros no interior dos EUA. O filme mostra a infância de LeRoy, criado por pais adotivos até os quatro anos, quando voltou para a mãe _que lhe apresentou algumas drogas antes de ele perder os dentes de leite e lhe ensinou a catar comida do lixo para sobreviver_ até ser currado por um dos maridos eventuais dela. Então ele passou a ser criado pelos avós ultra-religiosos e conservadores. Mas a mãe resgatou o filho novamente e o levou para a estrada com ela.

A história de “Sarah” se dá quando ele (a essa altura “ela”) conta as suas experiências de prostituta pelas boléias dos caminhões de West Virginia, Estado natal de LeRoy, a maioria acompanhadas de um osso de pênis de guaxinim pendurado no pescoço (que está na capa da edição brasilera, com o nome do autor impresso).

LeRoy usa o codinome da própria mãe, hoje já morta, para se prostituir. “Tenho dezenas de ossos de pênis de guaxinim em casa”, diz o autor, relativamente animado ao mencionar o amuleto que ganhou do seu cafetão.

O parágrafo acima relata alguns dos aspectos peculiares do seu comportamento, que inclui andar sob disfarces, a lenda de que não dá entrevistas face a face _ambos por suposta timidez_ e a dúvida sobre o seu nome verdadeiro, entre muitos outros. Isso, aliado ao seu círculo de amigos como Madonna (“ela se alterna entre legal e fria comigo”), Gus Van Sant (autor da foto da capa de “Sarah”) e Shirley Manson, vocalista do Garbage que fez a música “Cherry Lips (Go Baby Go!)” em sua homenagem _Cherry Lips era também seu “nome de guerra”_, entre outras celebridades, lhe confere certo status cult nos EUA.

Filho de pai teólogo _”não o conheço, não tenho muito a dizer dele”_, LeRoy mora hoje em San Francisco com um casal de ex-sem-teto e seu filho pequeno, grupo que ele chama de “família”. É com essa dupla que o autor de “Sarah” tem a banda de rock Thistle (espinho), da qual ele é o pirncipal letrista.

Do rosto doce de LeRoy sai um fiapo de voz feminina no começo da conversa, e seus gestos são contidos acompanhados pelo seu olhar cabisbaixo. Ao final, ele está descontraído, falante, e diz ter adorado açaí, novidade brasileira, e detestado a festa de encerramento do São Paulo Fashion Week, a que fora na noite anterior, convidado pela colunista da “Folha” Erika Palomino. “Era muito esquisito, aquelas pessoas pareciam marionetes e o DJ era péssimo”, disse.

Em tempo: Assim como o primeiro livro de LeRoy, “Sarah” será adaptado para o cinema pelo diretor Steven Shainberg, ainda sem data de lançamento.

Veja abaixo os principais trechos da conversa com o escritor que toma
hormônios femininos “há muito tempo”, tem 25 anos e é capoerista há cinco.

Você acha que existe algum paralelo entre se prostituir e escrever?
JT LeRoy – Sim, existe (pausa). Acho que, em ambos os casos, existe uma busca. Seja de clientes, seja de editor (risos). E existe também uma excitação em encontrar algo que tenha algum resultado. Acho que o fato de ter passado um período nas ruas me deu uma “streetwise” (malícia das ruas) fundamental para o que escrevo.

Você não acha que andar disfarçado (peruca e óculos escuros) chama mais atenção do que andar à paisana? Qual o seu objetivo em aparecer em público dessa maneira?
JT LeRoy – Eu sempre tive vários disfarces, desde criança, quando a minha mãe me chamava de vários nomes, me vestia de mulher, dizia que eu era sua irmã etc. É como uma máscara protetora contra as outras pessoas, de quem geralmente “ouço” o que estão pensando a meu respeito. Quando eu era criança, as pessoas sempre me olhavam, mas por motivos diferentes dos que me olham agora. Não estava preparado para isso, ou melhor, não sabia como reagir a esse “assédio”. É uma carcaça blindada, como a do Darth Vader.

Além disso, eu adoro brincar com roupas, usar o que tiver vontade e agir de acordo com a indumentária. Quando você se fantasia, você age, fala, se comporta e se senta de modo diferente. Gosto de ser fluido, de ter liberdade de ser uma coisa ou outra.

Ontem, por exemplo, fui a uma festa (de encerramento do São Paulo Fashion Week) com peruca e óculos escuros, e os fotógrafos começaram a me fotografar assim que me viram. E não tinham idéia de quem eu era! Se fosse um pedaço de pau com peruca, esse comportamento teria sido igual. Isso é divertido.

Depois da exibição do filme “The Heart Is Deceitful Above All Things” (dia 4/7, em SP), você estava muito nervoso, parecia quase em pânico por falar diante de uma platéia. Não era uma mise-en-scène que faz parte da sua publicidade?
JT LeRoy – Não, de fato estava nervoso, mas acho que estou melhorando em relação a isso. (risos)

Você disse em entrevistas que costuma transar com as pessoas que entrevista para publicações como “i-D”, “Spin”, “New York Press” etc. É verdade?
JT LeRoy – Hum… Ainda há muitas perguntas ou essa é a última? (risos). Bem, isso já rolou, mas acho que não foi importante, foi algo que simplesmente aconteceu naturalmente. Você nunca transou com os seus entrevistados?

Não. Mas isso leva à próxima pergunta: você ainda faz programas?
JT LeRoy – (Pausa) Bem… Acho que não vou responder a essa pergunta (faz um tipo envergonhado).

Até quando o que se passou na sua infância será determinante na sua criação literária?
JT LeRoy – Até daqui a seis meses? (risos). Não sei, mas entendo o que você quer dizer e não quero ficar conhecido apenas como o escritor que fala de sua infância conturbada e prostituída. Acho que nos primeiros livros havia uma grande necessidade de escrever o que se passou comigo, como se eu precisasse expelir aquela experiência para ficar mais tranqüilo.

Agora, depois de ter feito isso, sinceramente acho que é possível tratar de outros temas, haja vista que hoje em dia sinto que há tanto mais a fazer do que apenas escrever romances. E escrevo muito lentamente atualmente.

Mas, de qualquer forma, estou cada vez mais ficcional e gosto disso. É o que mantém o corpo feliz: “play” (brincar, representar).

Quando você começou a escrever e a ter contato com literatura?
JT LeRoy – O contato com literatura se deu quando morei com os meus avós (durante sete anos em períodos intercalados), que são muito religiosos. Então li a Bíblia, inteira, e inventava histórias a partir de Shakespeare, dos clássicos. Os livros não me diziam muito, mas algo do que há neles ficou em mim de certa maneira. E, quando estava com a minha mãe, eu sempre fazia anotações, escrevia pequenos textos. Ela odiava isso.

Depois, comecei a escrever por perscrição do meu psiquiatra, de quem ainda não tive alta. Ele sugeriu, como parte do tratamento que eu escrevesse o que se passava comigo para que houvesse continuidade do tratamento na sessão seguinte. Foi assim que escrevi “The Heart Is Deceitful Above All Things”, uma coletânea de 11 textos.

O que você faz agora? Quando sai o seu próximo livro?
JT LeRoy – O próximo livro _ainda sem nome, quer dizer, há um nome provisório, mas é muito bobo, então prefiro não falar_ já está mais da metade escrito, deve sair no ano que vem, espero. Nele há ainda o personagem Cherry Vanilla (o seu alter-ego _ou ele próprio_ em “Sarah”). Pode-se dizer que é uma seqüência de “Sarah”.

Também fiz o roteiro de um episódio de “Deadwood” (seriado do canal Fox), que deve ser exibido na próxima temporada. “Deadwood” não é o máximo? Meu Deus, como é bom! Ian McShane (ator da série) é o meu herói.

E tenho colaborado num filme de animação para crianças, com Todd Kessler (criador da animação “Blue’s Clues”, da Nickelodeon) e Rebecca Goldstein (da produtora No Hands Production). Além disso, estou trabalhando num documentário musical sobre (o artista plástico) Andy Warhol, que vai ser algo meio operístico, grandioso. Estou escrevendo as letras das músicas.

No filme de Asia Argento, o personagem Jeremiah aparece pregando a Bíblia na rua. Você chegou a fazer aquilo? Você acha que seria escritor se tivesse morado o tempo todo com os seus avós religiosos?
JT LeRoy – Sim, fiz aquilo quando criança. Asia fez uma adaptação muito literal do livro. E fiquei tão feliz quando o meu psiquiatra foi ver o filme, que eu disse a ele: “Está vendo? Era exatamente isso o que eu estava tentando dizer a você!”.

É curioso, mas acho que seria um pastor se morasse com os meus avós (risos). Sério, há uma excitação em pregar que é muito legal.

Quais foram os autores que o influenciaram?
JT LeRoy – Mary Karr, que foi ótima e realmente fez críticas construtivas ao que escrevia, adoro “The Liar’s Club”. Além dela, há Dennis Cooper e Frank McCourt.

Você é conhecido por inventar muitas coisas a seu respeito. Quanto do que você falou nesta entrevista é real?
JT LeRoy – (Risos) Deixe-me pensar… Alguma coisa, muita coisa.

____________________
SARAH
» Autor: JT LeRoy
» Editora: Geração Editorial
» Preço : R$ 32 (160 págs.)

07/05/2007

26/12/2006 – 14h24
James Brown, o funk soul brother, esquenta ainda mais o inferno com seu groove

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Música

25 de dezembro se tornou uma data mais marcante ainda. Nesse dia nasceu um sujeito que definiu a civilização ocidental e morreram pelo menos dois gênios que definiram as artes do século 20: Charles Chaplin, em 1977, e James Brown, ontem.

Assim, “o homem que mais trabalha no show business” tirou férias. Mais do que isso, mais do que “Mr. Dynamite”, mais do que o “Padrinho do Soul”, mais do que o “Ministro do Super Heavy Funk”, todos epítetos dados a si mesmo, James Brown era o funk em pessoa.

Cabelo inacreditável em forma de capacete, dentadura alvíssima, roupas acetinadas e extravagantes e aquele suor constante que umidificava seu rosto, resultado do mais puro sexo que a música já experimentou em cima de um palco. E o sexo que mr. Brown praticava fora dele era tão selvagem quanto a sua música; as moças que apanharam dele que o digam.

As pedras fundamentais do funk, soul, r&b e, por transubstanciação, do hip hop anos depois, “Sex Machine”, “Hot Pants”, “I Got You (I Feel Good)”, “Cold Sweat”, “I Got Ants in My Pants” (bastariam os nomes dessas músicas para figurarem numa lista de melhores do pop), além da porrada anti-racista “Say It Loud – I’m Black and I’m Proud” (em que crianças brancas e orientais cantam o refrão), rolam 40 anos depois com o mesmo viço. Bem, clássicos são exatamente isso. Ou, como ele imodestamente disse em 1990, “estou sempre 25 anos à frente do meu tempo”.

A capa de cetim que usava nos shows era só um dos aspectos da africanidade de Brown. Ele era o chefe de uma tribo que “aprendeu tudo que ele ensinou -mas ele não ensinou tudo o que sabia”, como escrevera em sua autobiografia. A complexidade negra teve poucos tradutores tão viscerais como James Brown.

Apesar de dar voz (rouca, improvisada, genial) aos negros numa época em que os negros começavam a ganhar voz (e, é claro, ganhava eco entre os brancos), Brown era ambíguo politicamente e conservador em relação aos membros de sua banda, que eram só menos maltratados do que as mulheres que se deitavam com o Funk Soul Brother.

Em 1968, ele cantava alto que era negro e tinha orgulho disso. Anos mais tarde apoiava a reeleição do republicano Richard Nixon. Da banda que comandava com cetro de ferro, Brown chegava a cobrar multa por um sapato menos engraxado do que o aceitável –por ele, o homem que brilhava literalmente da cabeça aos pés. Pergunte a Maceo Parker e a Bootsy Collins.

E Brown dançava. Como ninguém. Talvez como o Diabo. Michael Jackson e seu “moonwalk” são tributários dos rodopios, parcerias com o pedestal do microfone e abertura de pernas, dignos de figurarem em “calças quentes”. Mick Jagger, Prince e todos esses “Justin Timbalands” dos anos 2000 também só existem como tais porque antes houve Brown.

Como se trata do pai do funk (sujo, fedorento em sua acepção pré-Brown), o Mr. Dynamite não teve uma vida limpinha, como, digamos, o pai de um gênero mais comportado como a bossa nova. James Brown era mau, e foi mau até o fim. Criado na infância num puteiro da Georgia, o menino teve problemas com a polícia desde então (por causa de drogas, roubos, armas etc.) e até 2004, quando foi fichado por violência doméstica –“It’s a Man’s Man’s Man’s World”, já havia avisado.

Enfim, desde ontem o gênio do funk, o padrinho do soul, o “boss” do ritmo e do blues está, espero, não no céu, mas no inferno que ele ajudou a materializar aqui na Terra: quente, sexy, rico e certamente acompanhado de metais endiabrados (ops!). Porque o céu deve ser um tédio para Brown, e o groove mora perto dos malfeitores para sempre. Amém.

07/05/2007

22/07/2006 – 12h46
Metrô de Moscou é bom, bonito e barato

MARCELO NEGROMONTE
em Moscou, Rússia

Por apenas 15 rublos (cerca de R$ 1,20), o subterrâneo de Moscou é seu. O preço do bilhete do metrô dá direito a um eficiente deslocamento pela capital da Rússia e, muitas vezes, a um passeio por plataformas de estações de uma beleza inusual para espaços onde se permanece pouco _uns 90 segundos. A pequena aventura que, inevitavelmente, é chegar ao destino está incluída no pacote.

Construído durante o governo de Joseph Stálin, em 1935, o metrô de Moscou é um dos mais freqüentados do mundo (uns 8 milhões de pessoas sobem e descem dos vagões por dia, numa cidade de pouco mais de 10 milhões) e tem 171 estações, numa rede de 12 linhas. Algumas estações construídas durante a Segunda Guerra Mundial ou que passam sob o rio Moscou são profundas e foram planejadas para serem abrigos seguros em caso de bombardeio.

Sob o regime de Stálin, entre os anos 30 e 50, surgiram as estações mais grandiosas, com lustres suntuosos e decoração palaciana. Paradoxalmente, em todas elas, a ideologia da revolução comunista está presente, seja na quase onipresença da figura do ditador, seja nos afrescos e estátuas que remetem ao trabalhador, sempre em ação no seu ofício ou claramente feliz. É o luxo para todos à maneira do realismo soviético, isto é, opulência severa.

As estações construídas sob os governos de Nikita Kruschev e Leonid Brezhnev, entre os anos 50 e 70, ganharam ares mais austeros, com iluminação e decoração bem mais simples, apenas com azulejos e colunas cujas formas e cores as diferenciavam. Dos anos 80 para cá, as novas estações voltaram a ser mais extravagantes e arrojadas.

Aliás, austeridade é uma palavra bastante apropriada não só ao metrô, mas ao país ainda hoje. No metrô, o rigor começa do lado de fora das estações, geralmente construções de cimento de cores mortas, com o nome do local incrustado no topo delas, o que contrasta com o que há no interior de algumas delas. As bilheterias são franciscanas.

Então você começa a jornada. Mas antes você pode literalmente dar com a porta de entrada na cara se não estiver atento. Especialmente em Moscou, é quase um sinal de fraqueza segurar a porta para o próximo que vem atrás, gentileza universal dispensada aqui. OK, entre e mergulhe fundo.

Todas as estações, limpas e quase livres de pichação e publicidade, têm o mesmo desenho básico: escadas rolantes estreitas e longuíssimas (a maior é da estação Park Pobedy, com mais de 120 metros) que desembocam na plataforma de embarque, um corredor ladeado pelos trens, cada um em sua direção.

Como os trens passam, em média, a cada 90 segundos nos dias de semana (eficiência total), é comum passar mais tempo na escada em direção a eles do que a esperá-los na plataforma. Por exemplo, na estação VDNKh, são necessários 2 minutos e 15 segundos para vencer a íngreme escada rolante.

Na plataforma, a dúvida: qual trem pegar, o da direita ou o da esquerda? A programação visual das placas de informação do metrô, todas apenas em cirílico, é tão sóbria e suscinta que quase as deixa desapercebidas _especialmente para quem não domina o russo.

Iluminadas por lâmpadas fluorescentes por trás, as placas se dividem em duas: todas as estações da linha, a partir da estação em que você está, é listada, uma ao lado da outra; uma parte apontada para a direita e a outra para a esquerda. Depois de algum tempo conferindo o mapa (que você não encontra em nenhuma estação), você opta por um dos lados.

Às vezes acontece de se tomar o vagão na direção oposta, natural. Você percebe isso de duas maneiras. A mais óbvia é que a estação seguinte não era a que você esperava. A outra, mais sutil, é a voz do sistema de som do vagão que informa a próxima estação: se for masculina, o trem vai em direção ao centro (ou “ao trabalho”); feminina, na direção contrária (ou “para casa”). Na linha circular, a voz masculina soa nos vagões que trafegam no sentido horário, e a feminina, no anti-horário.

Mas por que chegar ao destino tão rápido? Perca-se embaixo da terra e admire as estações que surgem ao final das gigantes escadas rolantes. Depois você volta.

07/05/2007

21/04/2006 – 21h15
Caso Márcia X: Museu deveria ser território livre do alcance de qualquer Igreja

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Cinema

A proibição de qualquer manifestação por meio da arte é inócua. Não apenas o impedimento provoca uma exposição exacerbada daquilo que se pretendia eliminar, como os seus praticantes, cegos pela ignorância, são incapazes de perceber o fato.

O Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro abriga até o dia 30 a mostra “Erotica – Os Sentidos na Arte”. Nesse evento estava a obra “Desenhando em Terços”, de Márcia X (1959-2005) _um sobrenome que sugere a piada de ter sido também ele censurado_, retirado esta semana devido a “centenas de reclamações”, segundo a direção do CCBB. Pesa na decisão também o fato de a organização católica Opus Christi ter entrado na Justiça por causa da obra. Esse grupo considera a obra “blasfema” e “agressiva à fé católica”.

A “blasfêmia”: dois terços dispostos em forma de pênis que resultam numa cruz _ou num X.

O tal Opus Christi quer mais. Vai pedir na Justiça a retirada de um quadro sem título, da mesma mostra do CCBB, de autoria de Alfredo Nicolaiewsky, em que são Jorge está ao lado de um “nu masculino”.

Quase na segunda década do século 21, a Igreja Católica, por meio de uma obscura facção reacionária, continua agindo como se ainda fosse o século 14, quando a política vigente da instituição era a selvagem Inquisição _expediente de que a própria Igreja hoje se envergonha.

Duas discussões surgem aqui. A primeira é que a “fé católica” está fora do âmbito religioso no caso em questão, ainda que seja explicitamente referente a ela. Não se trata de uma profanação de um altar de igreja. O museu é por definição território livre _de tudo e de todos. Portanto ocorre uma manifestação que não diz respeito aos valores sacros, mas ao que eles representam numa cultura católica (por enquanto) como a brasileira _e isso vai além do alcance da Igreja.

O que está no espaço expositivo de um museu, “templo das Musas”, deveria ser tratado com a mesma reverência que qualquer obra que integra o ambiente de uma igreja porque há motivos para que esse ou aquele objeto esteja lá _e esteja disposto da maneira em que está. Não consta que tenha havido censura externa de nada do que a Igreja exiba em seus templos. Por que a violência do caso Márcia X?

A segunda questão é o direito de expressão. Isso é pedra fundamental da democracia. Não se pode aceitar tudo de todos, é saudável haver abordagens divergentes da “oficial”; é iluminador, acima de tudo.

Por fim, há o fato de nem todos serem católicos nem acreditarem em Deus, e essa pluralidade está sendo “agredida”, para usar o mesmo termo do grupo. Santa ignorância.

07/05/2007

16/06/2006 – 16h01
Dupla sueca The Knife congela Sónar com mistério no melhor show do primeiro dia

MARCELO NEGROMONTE
em Barcelona, Espanha

O melhor show do primeiro dia do Sónar não teve rosto. Vestida com macacões e balaclava (espécie de gorro que cobre toda a cabeça) pretos, a dupla The Knife, formada pelos irmãos suecos Olof Dreijer e Karin Dreijer Andersson, se apresentou apenas com os olhos, nariz, boca e orelhas à mostra.

Assim como Daft Punk, Artist Unknown e o rapper MF Doom, The Knife esconde a commodity mais valiosa do showbiz e integra o grupo radical de artistas partidários do lema “o que importa é o som”.

No palco, grafismos e imagens fluidas eram estampadas num anteparo translúcido, posicionado entre o público e a dupla. Ao fundo, outro telão exibia imagens diferentes, às vezes concomitantemente.

No show de uma hora de duração, o Knife mostrou músicas do álbum recém-lançado “Silent Shout”, como a faixa-título, numa versão poderosa, com baixo sintetizado a vibrar o subsolo do Centro de Cultura Catalã de Barcelona e com imagens do clipe da música no telão translúcido. Foi a música mais dançante do espetáculo.

“We Share Our Mother’s Health”, “Neverland” e “Na Na Na”, também de “Silent Shout”, ganharam mais reverência e seriedade do que no álbum. A voz de Karin era o som de um espectro algo doente, perdido numa floresta de árvores negras no inverno.

Com uma sonoridade oitentista, calcada em sintetizadores e bateria eletrônica, mas completamente remodelada para esta década, The Knife levou, com a ajuda de luzes frias e pequenas torres de lâmpadas coloridas, um clima de mistério congelante e sedutor ao quente Sónar. O curto concerto foi assustadoramente bom.

Jake
Outro bom show no fraco primeiro dia do evento em Barcelona foi o do rapper norte-americano Jake, um sardônico Louis Austen do hip hop. Sujeito barbudo e gordo que se apresenta com a camisa aberta a balançar a pança, Jake cantou sobre bases programadas e levou o público a destruir as almofadas da patrocinadora Vodafone e a jogar as espumas coloridas para o alto no final da apresentação. Jake encerrou o show com uma cover dos Monkees.

Shit and Shine
O grupo britânico Shit and Shine, além de ter esse nome ótimo, foi outro bom destaque da quinta no Sónar. Formado por quatro (!) bateristas e dois baixistas (um deles também programador), o Shit and Shine fez um show de praticamente uma música só. Uma espécie de kraut rock superdistorcido e propositalmente catártico, marcado pelas batidas marciais das baterias –uma delas, que ficava à frente, na posição que seria a do vocalista, era tocada por uma mulher que se parecia com a menina do filme “O Grito”, com longos cabelos a cobrir o rosto. Parece que em 2006 o negócio é esconder a cara atrás de barulhos.

07/05/2007

18/06/2006 – 12h53
Festival espanhol Sónar ficou mais pop em sua 13ª edição

MARCELO NEGROMONTE
em Barcelona, Espanha

Na sua 13ª edição, o Sónar foi menos Sónar. O Festival Internacional de Música Avançada e Arte Multimídia de Barcelona, conhecido por apresentar atrações de vanguarda, ficou mais pop. Lado bom: estava mais divertido. Lado não tão bom: tornou-se mais parecido com qualquer grande festival europeu.

Claro que houve atrações experimentais, como os japoneses ensandecidos (no Sónar, isso foi quase um pleonasmo) Doravideo e Tucker, o elegante grupo Circlesquare e a bem-humorada Modified Toy Orchestra, mas os shows da veterana banda disco Chic e dos debochados Scissor Sisters, além do cha-cha-cha de Señor Coconut and His Orchestra deram aquilo de que o público –qualquer público de qualquer festival– mais gosta: uma festa-baile daquelas.

O Chic, liderado pelo guitarrista e produtor Nile Rodgers, tocou uma avalanche de hits da discoteca, numa apresentaçao longe do melancólico ou deprimente, o que geralmente acontece quando bandas de 30 anos de carreira ainda tocam músicas de quando se tornaram conhecidas.

“Everybody Dance”, “Le Freak” (com inserção de “Rappers Delight”, do Sugarhill Gang, que sampleou trecho da música), “Good Times”, “I’m Coming Out”, “Dance, Dance, Dance (Yowsah, Yowsah, Yowsah)”, “Upside Down”, “We Are Family” foram algumas das músicas que todo mundo conhece apresentadas com classe e suingue no show da noite de sexta passada. Destaque para a o desempenho da vocalista de tranças vermelhas Sylver Logan Sharp. A tal “música avançada” deu uns passinhos -bem ensaiados, aliás– para o lado e abriu espaço para o entretenimento dançante.

Na tarde da sexta, os anos 70 estiveram no ar com os roqueiros revisionistas Scissor Sisters, que fizeram um excelente show surpresa no palco principal da quente tarde de sexta.

Na programação do festival, a banda, que lança disco novo em setembro, aparecia com o sugestivo nome de White Diet, mais uma piada desse grupo devasso que traz de volta o rock com calças justas de lamê e falsete nos vocais.

Gratamente surpreendido, o público dançou e cantou bravamente a popular versão de “Comfortably Numb” e “Filthy Gorgeous”, uma “homenagem” aos bigodes masculinos, que “graças a Deus estão na moda de novo”, comemorou a vocalista Ana Matronic.

E o Señor Coconut, com seu “conjunto”, sobriamente vestido de paletó e gravata, proporcionou um belo fim de tarde desse último fim de semana antes do verão, com versões latinas de “We Are the Robots”, “Showroom Dummies”, ambas do Kraftwerk, e “Smooth Operator”, de Sade. Fiesta, fiesta!

Igualmente memoráveis foram as performances de Jimmy Edgar, Goldfrapp (pop classudo), Circlesquare, Modeselektor (brutal, espetacular), dos DJs Diplo e A-Trak (Guns´n Roses com funk carioca, MIA com Beatles), Hot Chip (disco punk fofo), The MFA e do “poeta do reggae” Linton Kwesi Johnson.

Veja abaixo os destaques dos três dias do Sónar 2006, encerrado ontem (17) em Barcelona.

Quinta, 15

The Knife foi o nome do dia. A dupla de irmãos suecos congelou o Sónar num show poderoso e sombrio (leia mais). Kraut rock distorcido, contorcido e retorcido ficou a cargo da banda Shit and Shine, com quatro bateristas e dois baixistas. O grupo inglês Tunng levou mais tranquilidade com sua folktrônica ao Sónar Dôme, palco coberto na frente do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona. Antes dele, o rapper fanfarrão Jake balançou sua pança norte-americana com músicas do seu disco “The Rapper”.

À noite, no Auditori, sede da orquestra sinfônica da cidade, o japonês Ryuichi Sakamoto e o finladês Alva Noto apresentaram o projeto minimalista “Insen”.

Sexta, 16

O show surpresa do Scissors Sisters, a surpresa do show do Chic e Señor Coconut botaram todos a bailar. O trio nova-iorquino Liars, com membros vestidos com roupas femininas (à la New York Dolls), levou crueza punk e violência sonora ao palco. Em seguida, Circlesquare, do canadense Jeremy Shaw, apresentou músicas do álbum “Fight Sounds”, com banda, glitches elegantes e eletrônica intimista.

O baterista japonês Doravideo combinou imagens, samples e muito barulho numa performance curiosa. Ele toca bateria sobre bases pré-programadas em sintonia com imagens de vídeo que ele seleciona na hora. Samples de “Blue Monday”, do New Order, imagens de Britney Spears, George Bush, do primeiro-ministro do Japão, de filmes pornô e de espetáculos tradicionais nipônicos formavam uma salada niilista de resultado vigoroso.

O quarteto de DJs franceses Birdy Nam Nam encerrou a parte diurna, com versatilidade e criatividade e nada de virtuosisimo com scratches (ainda bem).

À noite, a banda Chic fez o que fez e foi antecedida pelo “beatbox humano” Rhazel, um dos convidados de Björk para o seu disco “Medúlla”. Dono de uma técnica impressionante, ele canta e faz os sons de bateria, baixo e mais instrumentos, ao mesmo tempo, só com a voz. OK, mas mais do que dois minutos disso é bem chato: pra que isso, afinal?

Ainda no palco principal, depois do Chic, veio Jimmy Edgar. Visivelmente nervoso, o sujeito de 22 anos e unhas pretas, comandava teclas, teclado, mouse e botões e também cantava com voz processada (vocoder) e fumava de vez em quando. Músicas do seu novo álbum “Color Strip” (Warp), como a ótima “My Beats”, que encerrou o set numa versão mais acelerada, compuseram boa parte da apresentação. Espécie de nova sensação eletrônica semi-underground, Edgar também é fotógrafo, designer gráfico, pintor e faz roupas. E, é claro, é übercool.

O reggaeman Linton Kwesi Johnson, ex-militante do grupo Panteras Negras, destoou positivamente da programação noturna do evento. Senhor distinto e alinhado, Johnson cantou suas poesias engajadas de quando era mais jovem (ele tem 54) e pregou contra o racismo e a violência contra os negros.

De pijamas azuis de seda e toalhas laranjas no pescoço, Herbert e sua banda –mas sem a prometida cantora Dani Siciliano, mulher do artista– exibiram músicas do novíssimo álbum “Scale”, de envergadura mais pop do que seus trabalhos recentes e que dialoga com seu disco “Bodily Functions” (2001). Foi um show pouco mais do que apenas convencional.

E o DJ Kenny Dope, um clássico, tocou enquanto amanhecia.

Sábado, 17

Foi o dia mais fraco e a melhor noite. Enquanto havia sol, se destacou a banda inglesa The Modified Toy Orchestra. E o nome da banda é exatamente isso: brinquedos “transgênicos”, modificados para soar como “instrumentos musicais”. A banda é bem humorada, engraçada até. Seus cinco membros se posicionam atrás de uma espécie de bancada, se vestem de paletó e gravata como vendedores e apresentam seus “produtos”, no caso os brinquedos. Humor e glitches raramente andam juntos, afinal a IDM é muito séria para brincadeiras, não é? No fim, a banda fez uma versão de “Pocket Calculator”, do Kraftwerk.

A noite começou com o grupo Hot Chip, que lançou há pouco o bom álbum “The Warning”. Disco punk menos agressiva do que sensível, uma beleza. O hit “Over and Over” encerrou o show bacana dos ingleses.

Depois foi a vez do Goldfrapp no palco principal. A vocalista Allison Goldfrapp, de shorts curtos e cabelos longos, loiros e esvoaçantes, está mais para Britney Spears do que para a imagem de pin-up cool de tempos atrás. A despeito disso, o concerto entretém bastante. Contribuem para isso as boas músicas do álbum “Supernature” e as moças de colant e cabeça de cavalo gigante e prateada que subiram ao palco em “Ride a White Horse”, além, obviamente, da voz de Allison.

A boa dupla inglesa The MFA antecedeu a Miss Kittin, que tocou antes dos alemães do Modeselektor. As três apresentaçoes formaram uma seqüência destruidora para dançar no último dia do festival. A dupla Modeselektor, especialmente, fez uma apresentação empolgante com músicas do disco “Hello Mom!”, com graves absurdos e batidas inteligentes.

Depois disso, a pista com Ricardo Villalobos e Richie Hawtin estava entupida já pela manhã, e o DJ Disco D tocava pancadão para bem pouca gente.

07/05/2007

26/01/2007 – 04h34
Os Mutantes reúnem 50 mil no aniversário de SP e chamam Lula de “el grande banana”

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Música

Cerca de 50 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, não pagaram nada para assistir nesta quinta (25) ao memorável retorno aos palcos brasileiros da banda paulistana Os Mutantes, que não se apresentava no país havia quase 30 anos. O evento, que também incluiu shows da Nação Zumbi e de Tom Zé, foi realizado no parque da Independência, em São Paulo, e promovido pela prefeitura para celebrar os 453 anos da cidade.

Com os originais Arnaldo Baptista (teclado), Sérgio Dias (guitarra) e Dinho Leme (bateria), mais a cantora Zélia Duncan, no lugar de Rita Lee, e o baixista Vinícius Junqueira, na posição que foi de Liminha, Os Mutantes trouxeram psicodelia atemporal, uma breve e clara crítica ao presidente Lula, além de rock, muito rock, durante as duas horas de espetáculo. Se a banda, formada no final dos anos 60, estava então à frente do seu tempo, muito graças ao produtor Rogério Duprat, hoje ela é atualíssima.

O show teve um começo triunfal. Zélia, Arnaldo, Sérgio e Dinho desceram as escadarias do Monumento à Independência e caminharam até o palco. Sérgio estava vestido como d. Pedro 1º (aliás, com a roupa e a espada que o imperador usava quando da proclamação da independência do Brasil na imagem imortalizada no quadro de François-René Moreau), Arnaldo usava batina e crucifixo, alusão ao padre José de Anchieta, um dos fundadores de São Paulo, e Zélia, com uma coroa de flores na cabeça e “look de Glória Coelho”, trazia um pequeno bolo com a bandeira de SP encravada. E Dinho estava vagamente caracterizado de bandeirante. Fogos explodiram no céu.

O público ocupava todo o parque da Independência até as escadarias do museu do Ipiranga, do lado oposto ao palco. Antes da primeira música, “Don Quixote”, Arnaldo tirou o traje religioso e exibiu uma camiseta com a caveira-símbolo do estilista Alexandre Herchcovitch. Foram os primeiros aplausos para ele, que sempre respondia à manifestação com caretas e trejeitos infantis durante a apresentação.

O repertório do show –e a ordem das músicas– é o mesmo apresentado no Barbican Theatre, em Londres, em maio de 2006, exceto pela inclusão de “Qualquer Bobagem” e a versão em português de músicas cantadas lá em inglês. Esse espetáculo foi o primeiríssimo retorno da banda aos palcos cujo registro foi lançado em CD e DVD em dezembro passado.

Bem mais desenvoltos do que no show britânico, especialmente Zélia e Sérgio, Os Mutantes convidaram Tom Zé, que tinha feito o show anterior da noite, para cantar duas músicas: “Dois Mil e Um”, composição dele com Rita Lee, e a citada “Qualquer Bobagem”, outra parceria de Tom Zé com o grupo e cuja versão mais conhecida é a da banda mineira Pato Fu.

A voz de Tom Zé, que vestia uma espécie de parangolé com botões de aparelhos eletrônicos e um disco de vinil, só apareceu no quarto final do rock rural-futurista “Dois Mil e Um” devido a problemas no microfone. Em “Qualquer Bobagem”, em que cantou com Arnaldo Baptista, tudo parecia desencontrado. Apesar disso, a presença de Tom Zé no palco desse show era uma festa.

Zélia, que não é Rita Lee e não fez papel de “frontwoman”, estava à larga na pesada “Top Top” e na sempre linda “Baby”, com boas desenvoltura no palco e colocação da sua voz grave. Como disse Arnaldo ao UOL, “Os Mutantes eram muito banana com Rita; com Zélia é mais Led Zeppelin”. Veja aqui essa entrevista. “Rock and roooll!”, diria Ozzy Osbourne, o equivalente a Arnaldo no espectro “ando meio desligado” do pop.

E o rock veio com tudo em “A Hora e a Vez do Cabelo Nascer (Cabeludo Patriota)”, numa ótima versão quase heavy metal, em “Bat Macumba”, o samba mais rock do Brasil, e “Minha Menina”, com as distorções originais, além de “Top Top” e sua surpreendente fúria.

“Lulacito, el grande banana”
Igualmente à vontade, Sérgio Dias, que demonstra certa megalomania e parece ter se apropriado de vez dos Mutantes –logo ele, que era o “moleque” da formação original e que deu cara progressiva nos últimos anos da banda em meados dos anos 70–, solou diversas vezes com sua incrível guitarra Regulus (construída pelo irmão Cláudio nos anos 60 e que subiu ao palco pela primeira vez justamente no show londrino do ano passado). O som que sai dela é único, com seus botões e pedais pitorescos, que chegam a emular o barulho de um motor de automóvel, como em “Bat Macumba”. Ele era o líder e maestro.

E foi também a voz da banda na crítica que fez ao presidente Lula no cha-cha-cha “El Justiciero”, na qual o chamou de “Lulacito, el grande banana” (como Rita Lee?), o que provocou aplausos inerciais e algumas vaias, todos abafados pela continuação da música, que também teve citação pouco elogiosa ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez. O prefeito de SP, Gilberto Kassab (xingado por parte do público antes de o show começar), ouviu tudo da área vip.
Veja o vídeo de “El Justiciero” ao vivo aqui.

Depois do bis de praxe, com “Bat Macumba” e “Panis et Circensis”, a banda voltou novamente ao palco para cantar mais uma vez “Balada do Louco”, o que não estava programado (“eu juro que é melhor não ser o normal”…). Foi ovacionada.

Pois bem. Os Mutantes voltaram. Como se o rock psicodélico brasileiro estivesse intacto, porém vivo. Eles farão shows em algumas cidades do país (o próximo é no Rio, dia 3) e no exterior na seqüência. A questão é se essa “volta” vai ser breve e, então, uma aposentadoria geral e irrestrita será o futuro ou se haverá novas e boas canções dos Mutantes do século 21. Se nenhum desses cenários se realizar, “desculpe, babe”, o que é memorável hoje pode facilmente se tornar uma piada.

07/05/2007

08/01/2007 – 08h30
David Bowie completa 60 anos hoje

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Música

O homem que criou Ziggy Stardust e Aladdin Sane, o “Thin White Duke”, o camaleão do rock, o londrino David Robert Jones completa 60 anos de idade nesta segunda (8). David Bowie, que deu “sound and vision” ao rock, entra na sétima década de vida.

Com 26 álbuns de estúdio e dezenas de atuações em filmes (a última delas é o cientista Nikola Tesla, em “O Grande Truque”, em cartaz no Brasil), Bowie é multimídia avant la lettre. Não é Ziggy?

Em 1997, lançou “Telling Lies”, o primeiro single disponível apenas na Internet, que teve 46 mil downloads, número considerável ainda hoje, quando a www é onipresente. Seu site está no ar há 11 anos, e ele lançou um provedor de acesso à Internet, BowieNet, há oito (nenhum popstar teve um provedor de acesso com seu próprio nome, assim como não há outro com olhos de cores diferentes).

Em 2003, o cantor e compositor apresentou seu então novo álbum, “Reality”, num show transmitido ao vivo para salas de cinema em diversas cidades do mundo, como São Paulo e Nova York. E foi possível conversar com ele.

Além disso, como investidor ele é tão bem sucedido quanto nos palcos. Sua fortuna é estimada em US$ 230 milhões. Em 1997, ele lançou os Bowie Bonds, espécie de arrecadação de fundos dos direitos de todos os seus discos lançados até 1990 baseado em royalties futuros dessas 287 músicas. Isso lhe rendeu US$ 55 milhões. E ele é dono de tudo que produziu.

Nesta segunda, Bowie deve comemorar seu aniversário acompanhado apenas da mulher, Iman, da filha Alexandria, 6, e de poucos amigos em Nova York, onde mora. Quando completou 50, Bowie fez um grande concerto no Madison Square Garden, em NY, com David Grohl, Frank Black, Robert Smith, Sonic Youth, Lou Reed e outros convidados no palco.

Mas os fãs devem ganhar alguns presentes. São esperadas, além de um disco inédito, reedições de 17 CDs fac-similares às edições dos álbuns em vinil ainda este ano. Em 1999, sua discografia de “Space Oddity” a “Tin Machine” foi relançada em CD.

Espaço
Em 1969, Bowie lançou “David Bowie” (relançado em 1972 como “Space Oddity”), uma mini-ópera da era espacial no ano em que o homem chegou à Lua. “Estou flutuando de modo muito peculiar, e as estrelas estão muito diferentes hoje”, dizia o major Tom direto do espaço na música-título. Major Tom morre e ressurge em “Ashes to Ashes”, música de “Scary Monsters” (1980).

Depois de ele perguntar “Is there life on Mars?” (“Hunky Dory”, 1971), ele mesmo responde com Ziggy Stardust e as suas Spiders from Mars. Ziggy era um personagem interpretado por Bowie, seu alter ego, o “rockstar definitivo”, que vem de Marte para dissipar a banalidade entre os terráqueos. Com bom volume de drogas e promiscuidade, “Ziggy Stardust” (1972) é pedra fundamental do glam rock e um dos mais importantes álbuns da história.

Nesse ano, ele foi capa da extinta revista inglesa “Melody Maker”, cuja manchete era “Eu sou gay; sempre fui”. Excesso de tudo: drogas, sexo, rock and roll e, é claro, de roupas que apenas Bowie e seus companheiros tiveram coragem de usar em toda a história da humanidade. (A androginia de Bowie, aliás, parece ter voltado agora aos 60, não sem viés de maldade: alguns dizem que ele parece uma velha senhora.)

Ziggy “se aposentou” e entrou em cena Aladdin Sane, outro personagem (a lad insane, um cara insano), cujo álbum homônimo foi lançado em 13 de abril de 1973. Aladdin Sane era uma continuação de Ziggy, agora com Bowie bem mais famoso. “Watch that Man”, “The Prettiest Star”, “Panic in Detroit”, além da faixa-título, colocam esse disco, de capa icônica, ao lado de “Ziggy Stardust” no panteão pop.

Nascia aí também a alcunha de camaleão do rock (“Ch-ch-ch-changes”), termo a que Bowie faz jus até hoje, com uma capacidade de se reinventar, mantendo credibilidade e coerência em sua carreira _ele vai ao ar num episódio do desenho “Bob Esponja” este ano!

A década seguinte viu o Bowie superstar, com os discos “Let’s Dance” (1983) e “Tonight” (1984), ambos número 1 em vendas nos EUA. Foi o seu “período Phil Collins”. Nos anos 90, em especial de “Outside” (1995), quando experimentou drum´n´bass, até “hours…” (1999), com elementos eletrônicos razoavelmente bem inseridos, sua carreira ganhou frescor digital.

Moda
Aqueles que se reiventam como Bowie, e, em certa medida, como Madonna também, ditam moda. E Bowie é, desde sempre, o performer mais bem vestido de todos os tempos. Cool, elegante, ousado, subversivo, invejável. Uma pequena amostra disso pode ser observada nas capas dos seus discos. As roupas são os elementos visíveis de um saber-se-vestir que não se tem apenas usando-as. É preciso, num sentido amplo, sê-las também.

Por ter experimentado, até o começo dos anos 80, excesso de cocaína, além de heroína especialmente no final da década de 70, no chamado “Anos Berlim” (dos álbuns “Low”, “Heroes” e “Lodger”), é quase uma façanha que Bowie tenha chegado aos 60 com bom aspecto e saúde relativamente boa (ele passou por uma cirurgia cardíaca de emergência em 2004 e desde então não faz mais shows, o que deve ocorrer este ano novamente).

E também é uma conquista louvável que os seus dois últimos álbuns, “Reality” (2003) e “Heathen” (2002), sejam bons discos. Depois da fase Tin Machine, no final dos anos 80, a carreira de Bowie parecia ter chegado a um fim lamentável. Qual nada. TV on the Radio, Arcade Fire e Deerhoof estão entre as bandas com as quais colaborou recentemente.

Parabéns, mister Bowie, o espírito do tempo está sempre ao seu lado.

07/05/2007

15/03/2007 – 13h12
Morto há nove anos, Tim Maia reclamou do som até o último show

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Música

No dia 8 de março de 1998, um domingo, Tim Maia subiu pela última vez ao palco. O cantor morreu uma semana depois, no dia 15, há nove anos.

O último show do Síndico seria um espetáculo acústico gravado pelo canal pago Multishow no Teatro Municipal de Niterói, no Rio. Mas esse foi um show que não aconteceu, afinal duas músicas, sendo só uma delas com a presença do cantor, não configuram um show propriamente.

Famoso pelo não comparecimento a inúmeros espetáculos e pelos atrasos, Tim Maia demorou a aparecer também no último show de sua vida.

O evento era especial. Na platéia lotada estavam convidados, artistas, celebridades, atores, músicos e jornalistas. Era a reabertura do pequeno e charmoso Teatro Muncipal de Niterói, que havia passado por uma reforma e cheirava a tinta fresca.

Mais de uma hora depois do início programado, a banda Vitória Régia, que acompanhava o músico havia uns 20 anos, finalmente deu início ao show apenas com os backing vocals. Cadê o Síndico? Nada.

Na segunda música, “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”, aplausos. Eis o carioca da Tijuca, 55 anos, imenso, terno azul claro, camisa branca, suor no rosto.

Reclamou do “ré menor” e intrerrompeu a música –outra característica marcante do cantor era a eterna insatisfação com os técnicos de som a quem pedia sempre o “retorno” e mandava tirar o “reverb” ou qualquer outra coisa que o incomodasse.

A música começou novamente. “Vou pedir…”, “Vou pedir…”, cantou Tim, e a platéia completava os versos que todo mundo conhece. Com sinais claros de que daquele jeito não dava mais para continuar, Tim Maia deixou o palco sob risadas do público, que imaginava se tratar de mais um episódio temperamental do cantor.

Não era possível, ele iria dar o cano num especial de TV ao qual ele havia comparecido? A banda terminou a música pouco depois da saída do cantor.

“A semana inteira fiquei te esperando, pra te ver sorrindo, pra te ver cantando”, cantou a platéia com palmas, pedido claro para que Tim retornasse. Não houve retorno –cadê o retorno?

“Tim Maia não está passando bem. Tem algum médico na platéia?”, foi o que saiu do sistema de som do teatro para perplexidade geral. Até havia um, Drauzio Varella, acompanhado de sua mulher, a atriz Regina Braga.

A partir daí, foi o caos. Vários minutos depois, chegou a ambulância do Corpo de Bombeiros, que entrou no átrio do teatro, ocupado agora pelos convidados que haviam saído da sala de espetáculo.

Amparado dos dois lados e com máscara de oxigênio, o hipertenso Tim Maia subiu na ambulância com pés trêmulos. Fotógrafos, cinegrafistas e curiosos dificultavam o trabalho de resgate do rei do soul brasileiro.

Às 23h, o cantor foi encaminhado ao hospital Antônio Pedro, em Niterói, que parecia mais uma delegacia, com grades na entrada a impedir a entrada de quem fosse. Aflita, só se via a secretária particular do cantor, Adriana Silva, ao celular.

Uma semana depois, Sebastião Rodrigues Maia morria no mesmo hospital de infecção generalizada em conseqüência de um edema pulmonar, seguido de parada respiratória.