A Folha se diz um jornal “pluralista, crítico e apartidário”. Bullshit. Esta semana, as primeiras páginas do jornal causaram-me espanto. Não pelo que publica contra Lula (porque é até divertido ver um jornal tucano noticiar que o vencedor das próximas eleições não é tucano, apesar das condições editorias auto-impostas), mas porque começa a ficar evidente que existe um certo “desespero”, num aspecto mais superficial, e uma tentativa de algum tipo de manobra, numa esfera mais profunda e conspiratória, para que Lula não seja eleito no primeiro turno. Mas isso não importa porque ninguém lê jornal.

Aliás, uns poucos lêem. E, dos que lêem a Folha, 41% dizem votar em Alckmin e 13% são eleitores de Lula. Ou seja, a Folha publica o que o seu leitor quer ler _e portanto, pelo menos, mantém as vendas (desagradar ao cliente é um risco muito sério).

Veja o que o jornal publicou nas primeiras páginas dos últimos dias e conclua algo diferente disso se for capaz.

Na segunda, dia 4, uma chamada pequena: “Lula repete FHC e só perde se os mais pobres mudarem o voto”. Duas considerações aqui. “Repetir” é um verbo que tem caráter negativo quando usado pela imprensa para se referir a uma ação de um político. Se o sujeito da frase for Lula, tanto melhor. “Perder” é um verbo que prescinde de significados quando se tratam de eleições. Mas o melhor não é isso. Basicamente ela diz o mesmo que “Lula perderia as eleições se a maioria votasse em outro candidato”. Dã! Mas é isso que está acontecendo? Não, mas parece que o jornal gostaria que fosse assim.

Quarta-feira, dia 6, uma estratégia chocante: Uma foto de Lula num avião Mirage e outra, dentro dessa maior, de Collor, no avião do mesmo tipo. O título das duas fotos: “Ases Indomáveis”. Por favor! Essa associação é tão absurda que seria hilário se não fosse trágico. A comparação entre os dois é tão descabida (Lula participava de uma cerimônia de apresentação de dois Mirage comprados da França, e Collor pilotava o tal avião) que essa edição depõe apenas contra o próprio jornal, e não contra Lula. E o jornal não se dá conta disso.

Quinta-feira, feriado da Independência e o Dia Nacional da Ocupação Total de Caetano Veloso na Mídia em 2006, a foto principal era do cantor com a chamada “Caetano Veloso lança disco com influência punk e diz que não vota em Lula”. Muito rebeldão mesmo. Mais ao lado a chamada: “Veja as 50 perguntas que Lula deixou de responder”. Como assim “deixou de responder”? Ele ficou calado diante das 50 questões feitas? Não, ele não foi à sabatina do jornal como os demais candidatos. Mas o enunciado deixa claro o aspecto “negligente” do presidente. É uma não-notícia, mas algo importante para destacar na página mais lida do jornal.

Sexta, duas fotos lado a lado, com as legendas “Ordem…”, na qual Lula e a mulher desfilam na parada militar de 7 de setembro, e “…E Protesto”, em que aparecem manifestantes da marcha Grito dos Excluídos. Na edição, está clara a intenção de associar o protesto ao governo Lula e à figura do presidente, o que, obviamante não era o caso, como mostra o próprio texto que acompanha as fotos: “‘A gente não deve votar em corruptos’, disse [d. Claudio Hummes], sem referência direta a partidos, mas citando os casos dos mensaleiros e sanguessugas.” Mas é importante começar a incutir a idéia de impopularidade do presidente, apesar dos altos índices de aprovação à sua gestão.

Ontem, Lula e Collor estavam novamente próximos na chamada “Lula ‘usurpou’ ética de Collor e a Bolsa-Escola, diz Cristovam”. O verbo usurpar cai bem quando o sujeito é Lula, seja qual for a situação.

Hoje, mais uma chamada antiLula: “Lula é o Adhemar de Barros dos novos tempos, diz Weffort”. Francisco Weffort foi o ministro da Cultura do governo FHC, mas o primeiro epíteto que aparece no texto é o de “ex-ideólogo do PT”, o que lhe confere muito mais credencial para dizer bobagens as mais diversas, não é mesmo? Não só diz que Lula é do “rouba, mas faz”, como crê que o segundo mandato do presidente pode levar “a uma grave crise institucional do país”. Cada um diz o que quer, e cabe aos veículos publicarem _e destacarem_ aquilo que mais lhe convém, é claro.

Tenho a impressão de que as coisas tendem a ficar mais divertidas com a proximidade das eleições. E o melhor: a probailidade de efeito zero (em qualquer esfera) do que é publicado no jornal (nesse e em qualquer outro) é cada vez maior. Mas o jornal (esse e qualquer outro) acredita no contrário e acredita também (talvez só esse) que connvence ser “apartidário, crítico etc.”. É engraçadíssimo.

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