Esta semana um jornal publicou algo sobre a livraria Shakespeare & Co., de Paris. Um escritor que morou no local por quatro meses está lançando um livro.

Essa é a livraria mais sui generis em que entrei. O local é minúsculo, com livros, todos em inglês, em todos os cantos possíveis, não apenas em estantes, mostruários ou sob os batentes das portas: há livros do chão ao teto em todo o ambiente. Há obras, ainda, que fazem as vezes de parede, delimitando e criando novos espaços. A maioria é de livros usados, mas também há novidades. E a literatura de todo o mundo está lá, da brasileira à ucraniana, infantil e adulta.

Os vendedores são todos jovens e bonitos, estudantes ingleses e americanos, que tratam George Whitman, o fundador da Shakespeare & Co., como uma criança, sempre a agradá-lo com palavras carinhosas, beijos e abraços. Aos 91 anos, Whitman mora no primeiro andar da livraria que funciona desde 1951. O pavimento é reservado apenas aos livros de consulta; a venda acontece no rés-do-chão. Para chegar lá em cima, é preciso um pouco de acrobacia, e é notável que esse simpático senhor tenha o hábito diário de subir e descer uma escada estreita e sem corrimão. Livros ficam abaixo, acima e ladeiam a escada.

No andar superior, há dois catres com colchas puídas onde qualquer um pode se sentar e ler o livro que lhe aprouver. Um desses catres é a cama de Whitman (o outro provavelmente serviu de cama para o tal escritor que dormiu lá). O lugar é claustrofóbico, cheira a pó e é forrado de livros por toda a parte. Não há um centímetro de parede nua. Ainda assim, é impossível passar menos do que meia hora nos dois andares da livraria, se perdendo em meio a labirintos e becos formados por livros.

No escritório, além de uma mesa grande e umas três cadeiras, há um móvel com uma estrutura similar à de uma bicama. No que seria a cama de cima há livros empilhados; abaixo disso há um espaço onde cabem uma pessoa e uma pequena mesa com uma máquina de escrever. Assim, quem passa por esse “corredor” onde está o “centro de digitação” da livraria só enxerga a pessoa dos ombros para baixo.

Da janela do primeiro andar da livraria, localizada no Quartier Latin, margem esquerda do Sena, avistam-se as torres da catedral de Notre Dame. Recentemente a livraria foi cenário do filme “Antes do Pôr-do-Sol”, com Julie Delpy e Ethan Hawke _ele é um escritor americano que faz uma sessão de autógrafos no local, que não imagino como possa ter sido filmada, com equipe, atores e iluminação, dada a exigüidade da “locação”.

Whitman já esteve no Brasil, nos anos 60, e conheceu Curitiba (de que gostou muito), Belo Horizonte e Rio. Depois desceu para Buenos Aires. Gosta de conversar com estranhos que demonstram interesse por ele e pela livraria, que ele acha que deveria ser considerada patrimônio da humanidade.

Então, na rue Bucherie, 37, está esse oásis literário. Passe lá e se perca no menor lugar onde você pode se perder. Quem sabe você não troca uma idéia com o mister Whitman, que vai considerá-lo um “amitie sincere”, ainda que tenha idéias da vida, do mundo e da própria livraria um tanto pitorescas e irreais. Mas, como ele mesmo diz, ele vive um romance.

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