Archive for dezembro \27\UTC 2003

27/12/2003



A cada hora cheia.

26/12/2003

Como pode fazer um dos discos mais representativos dos anos 90 (Moon Safari) e um dos shows mais enfadonhos de todos os tempos (10,000 Hz Legend, em 2002)?

Nem vou falar no City Reading, porque trata-se de uma viagem a outra galáxia, um desvio de rota das mais malas.

Mas o Air segue sua viagem rumo a Urano, cada vez mais distante dos planetas suaves e floridos Moon Safari e Virgin Suicides, já sem as turbulências progressivas causadas pela passagem por 10,000 Hz Legend, que poderiam provocar avarias irreparáveis na nave francesa.

Agora avista-se Talkie Walkie _título que remete à letra de People in the City_, panorama tão desolador quanto aconchegante, fenômeno talvez causado pelo ar rarefeito desde a decolagem, em 1998. A beleza do infinito vista através dos capacetes em Talkie Walkie é inebriante, os movimentos se tornam mais lentos, o sorriso aparece frouxo sem motivo _especialmente em Surfin’ in a Rocket.

O single, Cherry Blossom Girl, cidadezinha em cujo retrovisor é possível ver Moon Safari ao longe, é de uma delicadeza que parecia perdida desde 10,000 Hz Legend. E que ganha contornos deliciosos em Universal Traveller: “so far… so far away”.

O Air está cada vez mais distante de tudo, num universo peculiar, ora aprazível ora difícil demais para os terráqueos. Em Talkie Walkie, a ser lançado quando São Paulo tiver 450 anos e 1 dia de idade, a dupla de Versailles passeia com desenvoltura, num vôo sereno e gracioso rumo a Urano.

(Nesse planeta novo, há uma cidade chamada Mike Mills, que não tem nada a ver com o baixista do REM. É o designer de Moon Safari e o diretor do clipe de All I Need, que você vai achar familiar quando ouvir Mike Mills.)

Bon voyage.

26/12/2003

The Flaming Brothers: The Golden Path live no I-Em-Ei.

26/12/2003

Não sei não, mas um disco com Siouxsie Sioux e um cara do NSync deve ser inédito. Inédito ou não, Kish Kash é irresistível, até endiabrado.

23/12/2003

É assim: uns gostam de música; outros, do hype. Não há mal nenhum em prefeir um ou outro. O difícil é quando os dois se misturam, e o hype justifica a música.

Se você gosta da banda ou DJ que é bastante elogiado “lá fora” (onde está a verdade, provavelmente) por causa dos elogios, dos topos das paradas, das capas de revistas e coisa e tal, você gosta de gostar do hype. Sem dúvida, é a opção mais confortável para gostar de música, porque há um sentimento geral de que você está fazendo a coisa certa, há mais pessoas que gostam do que você (acha que) gosta, você se sente inserido (no quê não se sabe).

Mas você pode curtir uma banda pelo que ela lhe diz, pela música que chega aos seus ouvidos, seja lá o que falem delas. É um sentimento mais genuíno porque o que importa é a música e nada mais. Há uma cumplicidade maior entre quem faz a música e o ouvinte, não entre quem fala sobre a música e o leitor. É nesse universo que surgem os fãs de verdade, que gostam da música por mais tempo _ e não até o próximo hype, porque é difícil ser fã de hype; exige uma alternância de valores muito grande.

Mas há casos de pessoas para quem música e hype não se atraem. Então a música é boa, é sensacional, é maravilhosa, mas há outros que dizem isso que você pensa e _pior_ descobrem aquilo que você guardava como tesouro. E são justamente aqueles que são lidos por mais gente que você consegue alcançar ou influenciar. De modo que a coincidência de idéias (suas e as do cara que escreve sobre a música) perturba você ao ponto de optar por não gostar mais da música devido ao “estrago” feito pelo hype. São casos extremos e cada vez mais comuns, é verdade.

Mas a música não tem nada a ver com hype. São distintos, e é importante poder enxergar essa distinção com clareza, o que não é fácil. O hype ocupa quase todos os espaços e deixa quase nada para a reflexão e para o apuro do gosto; é o papel dele.

Enfim, você pode gostar do hype porque é hype, da música porque você gosta dela, mas não deixe de dar valor ao que você considera bom porque coincidentemente está hype. Quem sai perdendo é você. E talvez a música.

23/12/2003

Como alguém consegue dizer que o DVD é o substituto do CD? Ouvi isso num ponto de ônibus de um cara que, pela pronúncia dos nomes das bandas, não sabia da existência da língua inglesa. Pode-se supor ignorância da parte do moço, que iludia o interlocutor _sempre assertivo_ com a teoria de que o CD é só som e DVD é som e imagem, ou seja, “é muito mais”.

Pode-se também argumentar que o moço monoglota estivesse embuído daquele espírito simplista de 20 anos atrás, quando uma tecnologia simplesmente substituía outra, como um jogador contundido numa partida é substituído por outro fresco e em forma.

Como ele estava perto de mim, quase tentei falar que o que acabara de dizer era uma grande bobagem. Senti-me levado a fazer uma boa ação natalina e gostaria que aquele moço não viesse a passar por outros constrangimentos públicos no futuro. Mas seria uma tarefa difícil, ele parecia irredutível, estava com muita razão a ser debelada.

Talvez melhor seja mesmo acreditar no que fala, seja lá o que for.

21/12/2003

MOOG – O FILME

No verão de 2004, estréia o documentário sobre o homem que criou o sintetizador que mudou muita coisa no pop.

Robert Moog fala.

21/12/2003

2003

– A avó morreu

– Uma irmã casou

– Uma outra noivou no mesmo dia

– Conheceu Portugal e fumou pimenta

– Mudou-se de casa

– Viu Björk duas vezes na mesma semana

– Voltou aonde nasceu, 13 anos depois

– Reencontrou o amigo de infância

– Fez 30 anos

– Foi à posse do presidente

– Descobriu os Clones

– Desencanou do blog

– Comprou terno e gravata

– O jornalismo musical brasileiro ficou mais tragicômico. Sem exceção.

– Ouviu menos coisas novas

– A namorada lançou uma revista

– O amigo lançou uma revista

– Viu o segundo melhor show da vida, Matthew Herbert

– Bolo de macaxeira rulez

– Foi a várias praias, mas não ficou pelado na de nudista

– Odiou Matrix

– Divertiu-se muito no primeiro dia da guerra

– Chapou com o Ministro da (des)Informação do Iraque

– Foi ao Theatro Municipal e à Catedral da Sé

– Rolou uma David Bowie craze

– Ficou mais chato

– Não fez lista dos melhores do ano

– Começou a fazer yoga

– E pai dele também