CARNAVAL, FIO DENTAL E POP

Ao contrário da maioria dos aficionados por música pop, considero a alegria e, principalmente, a esbórnia tão nobres e legítimos quanto a tristeza e a dor de uma perda. Nesse sentido, o Carnaval não é uma festa sem propósito. A celebração profana (ainda que de molde religioso) e desabrida de vários povos é e sempre foi, há pelo menos uns 600 anos, uma libertação socialmente aceita e incentivada das amarras cristãs. Três dias de sacanagem e libertinagem é o período de profanidade a que os cristãos têm direito durante o ano _cheio de penitências, rituais e outras bobagens.

Por esse caráter originalmente subversivo, o Carnaval me parece simpático. Outro motivo pelo meu apreço, ainda que distante, ao “tríduo de momo” é o fato de eu ter nascido numa região em que esse festejo se confunde com a própria fomação cultural do povo a que pertenço (sério que eu falei isso?).

Isso posto, me jogo no comecinho dos anos 80, época em que acordava muito cedo para acompanhar os desfiles das escolas de samba pela TV. Obviamente, todo esse blablablá acima nunca importou quando decidia me levantar da cama pé ante pé para, quase escondido, tomar conhecimento de a quantas andava o tamanho das fantasias daquele Carnaval.

Era uma época pré-fio dental (esse fio dental institucionalizado como é conhecido hoje), em que a área de corpo exposta aumentava a cada ano, de 1980, 1981 a 1984, 1985, quando Monique Evans provocava todos os “lelês” do Brasil).

Acompanhava o desenvolvimento (ou o “downsizing”, como dizem esses diretores de empresa) dos maiôs e biquínis em três frentes: a praia, o Carnaval e o Cassino do Chacrinha. O programa do Velho Guerreiro era mais ousado do que as demais áreas. Aquelas chacretes, com apelidos engraçados (Furacão, Cadillac etc.), mostravam muito mais bunda e com muito mais displicência do que qualquer “cocota” de praia _e no familiaríssimo horário de sábado à tarde.

De acordo com o grau de exibição das nádegas das chacretes no ano anterior, podia se esperar ousadia maior no Carnaval, afinal, as musas da época *tinham* de ser mais sexy dos que as chacretes. E isso incluía topless, hábito corriqueiro no Hemisfério Norte, mas cheio de salamaleques hipócritas justo aqui, em terras mais quentes.

A medida em que eu crescia _e o o desejo por sexo aumentava_ os biquínis diminuíam. Era perfeito (desconte a nostalgia). Então chegou a Época de Ouro: com uns 13 anos de idade, o fio dental tornava-se popular no Carnaval _e, claro, foi tendência rapidamente absorvida pelas chacretes e, num pulo, foi às praias. Era literalmente um desbunde.

Com o passar dos anos (opa!), a minha tara foi se amainando, mas o Carnaval continou cada vez mais “quente”. Enquanto as senhoras e tias se perguntavam até onde esses biquínis iam parar e até quando essa pouca vergonha ia durar, eis que apareceu, já nos anos 90, a tal genitála desnuda na avenida. Foi, a um só tempo, o retorno do “vestuário” indígena e do pecado da sociedade cristã ocidental comme il faut. Quando ocorreu o fenômeno, a magia se quebrou. O que deveria ser uma explosão de erotismo, sensualidade e luxúria logo se caracterizou pela esterilidade sexual e, para além da ousadia, se revelou uma ferramenta de puro exibicionismo, não de sedução. Broxante.

Sem falar no topless, prática até hoje permitida apenas no Carnaval, com peitos cirurgicamente modificados exatamente para esse fim. Estéril é pouco para definir a inclusão do silicone nos modos e costumes.

A partir do fenômeno genitália desnuda _e aí já não havia mais chacretes e os fios dentais haviam deixado as praias; “incomodava”, diziam elas_, o Carnaval entrou num processo de regressão. As mulheres e alguns homens começaram a se cobrir mais. Mas não voltaram a seduzir.

E agora, em 2003, o Carnaval apresentou desfiles comportadíssimos. Topless ficou destinado às moças conhecidas por mostrarem os peitos em qualquer situação _ou seja, às mulheres que ganham dinheiro com isso. As chamadas atrizes e celebridades não ousam mais. Acabou a subversão. É um tal de “desfile técnico” pra cá, alas ensaiadas pra lá e enredos com preocupação social por toda parte, que o que deveria ser um período de libertação se tornou um evento tão assexuado que pode ser chamado de a maior festa popular do terceiro setor do mundo.

O presidente da República nunca esteve presente em tantos carros alegóricos do Rio e SP. E isso esteve longe de ser uma sátira ou crítica, o que seria de esperar de um Carnaval que se preze. Onde estão os bicheiros? Onde está a contravenção? Cadê os traficantes? Até padre faz Carnaval em trio elétrico, quanta babaquice.

É muito provável que tudo isso seja reflexo do politicamente correto dos EUA. É mais sensato dizer que o Carnaval esteja num processo de refluxo evolutivo, que uma nova era esteja por surgir. Mas uma coisa é certa: ligar a TV para assistir aos desfiles deixou de ser excitante. A libertinagem ganhou contornos burocráticos.

Bom, a música pop também. Mal posso esperar para ver no que isso vai dar.

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