Querida Madonna,

Nos conhecemos há quase 20 anos, quem diria. Aquele clipe de Dress You Up foi uma boa apresentação, e a Viúva Porcina se apropriou daquele visual no Brasil, você se lembra? Você foi muito sedutora naquela ocasião.

Ficamos mais próximos em 1989 com Like a Prayer. Era um período em que coros gospel me pegavam de jeito. E a polêmica com a Igreja Católica dava um charme especial a todo o resto. Você fica muito bem como uma brunette. Em 1992, com Erotica, uau, você era demais. Pelada no cinema (Na Cama com Madonna é o seu melhor filme; melhor do que qualquer um do seu marido também), naquele coffee table book Sex (edição luxuosa de luxúria pop), naquele clipe. Foi aí que os gays viraram seus fãs em escala global, e você fazia questão de sublinhar isso, talvez pela facilidade de aceitação por ser uma mulher, talvez por nunca nenhuma cantora ter transado com gays publicamente, talvez por tudo isso junto. Enfim, era uma boa maneira, à época, de criar sensação.

Você era desbocada, menina suburbana que falava o que queria (virgindade, sexo, diversão e religião), se masturbava no palco e fazia as suas polêmicas _matéria fundamental de um artista muito pop_ de modo pioneiro. E pioneirismo pop tem um preço devastador, porque muitos a imitam e, com isso, acabam esvaziando tudo o que você fez antes, um horror. Veja quantas material girls existem hoje e o que isso representa…

Depois de quase dez anos de esbórnia (de Madonna a Erotica), você ficou numa ressaca braba (Bedtime Stories e Something to Remember _a propósito, fatos a se lembrar deste último disco são a participação de Massive Attack e a produção de Nellee Hopper, pontos altos, porém pouco populares da sua carreira. A ressaca de tanto excesso foi tão cruel que aconteceu Evita, o seu primeiro erro em todas as dimensões.

Mas toda essa história _e muito mais_ eu já falei pra você. E cá está você novamente morena em American Life. Disco bem chato este. Um dos mais chatos que você já fez na vida. Até entendo a sua crise Bubo; o excesso material e a vida espiritual (espiritualidade ainda que de maneira Bubo, com ioga e pitadas iguais de Índia e pilates; American Life, no seu conteúdo, é só um Ray of Light dois filhos depois) provocam choques estruturais profundos mesmo. Pena que você não soube expressá-los como deveria.

Express Yourself é uma de suas melhores músicas, mas não tome isso como regra até o fim da vida, se você não é capaz de fazê-lo de modo adequado. Ou expresse outras coisas, mais superficiais, mais mundanas. Nisso você é boa.

Sinceramente não gostei da produção de Mirwais, muito uniforme e falsamente econômica; as músicas possuem batidas extremamente similares e servem quase como uma moldura para as letras, fracas e bobas. E a sua voz distorcida/desafinada por computador era exatamente o ponto mais fraco das músicas de Music que você repete aqui. Você se lembra de John Benitez, o Jellybean, produtor do seu primeiro disco e presente no segundo? Mirwais faz as vezes de reencarnação do século 21 da tosqueira Jellybean. Isso não faz nenhum sentido, não é volta às raízes, não é nada. É chato e pobre.

As letras nunca foram o seu forte, não as deixe em primeiro plano sob o risco de perder a sua aura superstar. Você revela demais o que pensa _isso, no seu caso hoje, é gol contra.

Por que tantos Jesus Christ nas músicas? Em duas de American Life ele está presente, sem contar os termos religious, christian e jew. Prefiro quando você colocava Jesus como negro e incendiava a cruz no altar. Mas é bonito que ele esteja em Mother and Father; fico aliviado em saber que nem todo popstar de Detroit odeia a mãe, hahaha.

As baladas desse disco me lembraram Alanis Morrisette e Jewel, Madonna. O que está acontecendo? Essas moças são ocas e acham que têm muito a dizer de suas experiências e frustrações pessoais, mas apenas contrangem o mundo inteiro ao expô-las. Em outros casos você parecia uma Sheryl Crow, se ela descambasse para o eletrônico com o objetivo de variar o seu público. Perceba que já são três comparações _e nada louváveis_ feitas a você, uma artista sem comparação.

A guerra foi um grande erro dos americanos. O clipe de American Life foi um grande erro seu. Tudo desnecessário, um modo de chamar a atenção que foi o seu segundo tiro n’água. Por isso tantos falam do “começo de sua decadência”. Deve ser foda você adimitir isso _a “revisão” do clipe é uma aceitação disso. De fato, você ficou dois tons acima na sua “crítica” ao que sejá lá o que você queria criticar. Você se comportou como uma típica americana ao express yourself sem medir as conseqüências, ao dar a sua visão de mundo sem ter sido convidada.

Mas eu continuo gostando de você porque você é foda. Nunca cantou bem e é a cantora mais popular do século 20, usando sempre o recurso de transmutação de comportamento. Isso é tão excitante quanto difícil _impossível_ de haver repetição na música pop. Como nos conhecemos bem, jamais pediria a você que voltasse a ser o que quer que fosse. Ouviria um sonoro fuck you, bastard, hehe. Mas exatamente por conhecê-la bem, me sinto à vontade de dizer que American Life é um episódio descartável na sua carreira. Isso é um sinal forte de que nem sempre você terá a mesma atenção de antes do seu público.

E nem adianta tentar me convencer de que I’m not myself standing in a crowd, como na música X-Static Process, porque serei obrigado a responder com um fuck you, bitch. (Falaram mal da mostra X-Static Pro=cess, né?).

Mande um beijo pra Lola, Rocco e Guy.

XXX

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