PALETÓ-E-GRAVATA

Começo pelo meio: o cinto, da espessura de um mindinho, data de 1981 e vem com as letras Y, S e L gravadas na fivela, donde se supõe ser da Yves Saint-Laurent. Supõe-se, eu digo. A calça é jeans mesmo, porque é a única em que havia aselhas para o tal cinto. O tênis é preto e disfarça bem um sapato, sem problemas.

Agora, a parte de cima. Camisa branca de manga comprida e punhos abotoados, uma beleza. Terno azul marinho com botões dourados, “para ficar bem com a calça”, sugestão do pai do rapaz e dono das vestimentas superiores, a partir do cinto. E, por fim, a gravata, também com YSL gravado. Quer dizer, por fim, os óculos escuros davam um ar extracool (tipo Hall’s preto) a todo o resto…

Não se pode dizer que elegância seja um termo muito apropriado para essa mixórdia de influências, mas até que não ficou um desastre essa minha primeira incursão ao Palácio do Planalto.

Não me lembro da última vez em que usei paletó-e-gravata, mas deve ter sido em alguma festa que exigia o traje, há anos. Aliás, eu nem tenho gravata. Não gosto nada desse tipo de roupa porque ele é redutor. Transforma homens em seres invisíveis e, portanto, socialmente aceitos. Seguranças usam terno e gravata para ficarem invisíveis, parte da paisagem. Pelo mesmo motivo executivos, advogados, apresentadores de telejornais, pastores evangélicos, políticos usam o terno-e-gravata. A idéia é não se diferenciar, não ousar, não se sobressair, manter o estado das coisas. Odeio isso.

Obviamente nunca trabalharia num lugar cujo uso do terno-e-gravata fosse obrigatório ou “recomendável”; sou contra o uniforme em ambientes de trabalho, é só por isso que eu não sou jogador de futebol, hehe. Esses lugares olham com desdém e arrogância para as camisetas e tênis, trajes “inferiores” que não traduzem a importância (geralmente enooorme) que tais empresas acham que têm.

Bandas cujos membros usam terno-e-gravata são em geral de rock. Novo rock, como se diz. E seus membrs vestem-se com trajes iguais. Fica legal, é verdade. Tiram o terno-e-gravata do seu habitat natural e os leva para a esbórnia do palco e da fúria das guitarras, apesar de ser uma referência de bom-mocismo dos anos 60, quando o rock nascia, e a tradição de músicos (de jazz, blues ou de orquestras) se apresentarem de terno-e-gravata influenciava na aceitação da novidade. Kool.

De modo que foi a primeira vez que usei paletó-e-gravata (não rolou o terno) em anos. E gostei. Acho que vou comprar umas roupas assim só para passear, ir ao cinema, ao restaurante, ao after-hours.

E também porque Matrix Reloaded está na área, hehe.

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