UM SÓ

Roberto não é muito comunicativo, resigna-se com a convivência no ambiente de trabalho, um banco. Prefere as conversas por escrito, sente-se desconfortável ao telefone e as palavras lhe fogem quando olha nos olhos do interlocutor. Roberto é aquele cara de quem diz: na dele.

Roberto gosta muito de ir ao cinema. Mais até do que ver os filmes. Olhar nos roteiros os horários da sessão, sair de casa, entrar na fila, comprar pipoca e refrigerante e sentar na poltrona com as luzes apagadas é uma diversão e tanto. E, como um brinde, o filme.

Como vai sempre sozinho, ele desenvolveu algumas técnicas para evitar contatos com humanos _e ali são humanos desconhecidos, coisa sempre dispensável. Uma delas é se sentar na segunda poltrona da extremidade da fila. Geralmente as pessoas vão ao cinema aos pares, e quem vai sozinho só vai sentar ao lado de alguém desconhecido se o cinema estiver lotado. De modo que a chance de alguém sentar do seu lado (ainda que seja apenas um; sempre existe o outro lado) é reduzida.

Outra é sentar no meio da fileira, num lugar ímpar (ele já calcula só de olhar a fila) pelos mesmos motivos anteriores. Ou, ainda, sentar a uma poltrona de distância do vizinho.

Só há vantagens nisso, garante Roberto. É sempre preferível não ter ninguém por perto no cinema. Evitam-se os constrangimentos de onde pôr o braço sem tocar no sujeito ao lado _aí só resta apoiar no ladinho do braço da poltrona ou cruzar os braços_ ou de ouvir comentários estúpidos sobre o filme. Roberto nunca ouviu, em mais de 30 anos de cinema, uma observaçãozinha minimamente pertinente que seja. O alheio só fala merda. Ou, no melhor dos casos, o que ele não quer ouvir.

Mas há casos em que o cinema fica lotado. Ontem mesmo, justo quando ele utilizara a técnica número 2 (a de sentar no meio da fileira), uma situação o abalou. Nada muito grave _justamente o tom banal da coisa foi o que mais o derrubou. Antes de o cinema lotar, há o gerúndio “lotando”. Para Roberto, esses longos cinco ou seis minutos são tão tensos quanto excitantes, como se as poltronas fossem um Campo Minado e as únicas bombas do jogo estivessem justamente nas poltronas vazias ao lado dele.

Quando tudo parecia bem, um casal chega e hesita. A mulher pergunta a ele se tem alguém do lado dele. Não. Pergunta a mesma coisa a outra pessoa a uma poltrona de Roberto. Não. Então a bomba: Será que você poderia sentar ao lado, já que está sozinho mesmo? Pausa. Claro.

Aquele pedido gentil caiu como um Tomahawk na sua existência. O fato de agora estar sentado entre dois casais felizes era um problema muito menor do que o “sozinho mesmo” sublinhado pela mulher poucos segundos antes. A partir daí, Roberto começou a enxergar as pessoas como dois. E ele, sozinho, era um pária nessa sociedade de duplas. Um aleijado. Imaginou filas paras pessoas sozinhas, vagas especiais no estacionamento, restaurantes exclusivos para solitários, carros sem banco de passageiro _um desperdício. Enfim, coisas impossíveis de conseguir… sozinho.

Por que é tão difícil ser um? Um só, diria a mulher do cinema. Por que ele, um só por definição, se via quase que obrigado a ter mais um para continuar a ser ele mesmo? Então Roberto se lembrou dos policiais que em uma época eram conhecidos como Cosme e Damião por fazerem a ronda sempre em dupla. É muito mais seguro andar em dois, deduziu ainda nos trailers.

Ao conforto da dupla ele abdicara. É preciso ter muita coragem para ser só. Sozinho mesmo. E disso ele não tinha tanta certeza assim…

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