VIZINHO, POR QUE TÊ-LO?

Vizinhos são persona non grata por definição. São seres indesejáveis, que poderiam estar pelo menos 900 metros mais distantes. Se vizinhos fossem agradáveis, os prédios com um apartamento por andar seriam mais baratos. Quanto menos vizinhos, mais poder você tem. Vizinhos desvalorizam o imóvel: perturbam, reclamam, gritam, fazem barulho, têm hábitos estranhos, usam perfumes fedorentos no elevador, não sabem estacionar o carro na garagem, interfonam, chamam a polícia, não cumprimentam, pixam o elevador, espremem espinha no espelho do hall, têm crianças pequenas histéricas etc.

Não há nenhuma vantagem em ter vizinhos. Desse negócio de “emprestar açúcar”, “galera do condomínio”, “a gostosa do sétimo” _ou qualquer fantasia erótica envolvendo condôminos_, estou foríssimo. Não quero saber. Talvez por ter morado numa casa cujos chefes de família prezassem a chamada “vizinhança”, chamassem a vizinha do lado para tomar café à tarde, consertasse a bicicleta do filho do vizinho da frente, enfim, criassem laços desnecessários, talvez por tudo isso eu não suporto a idéia de ter de falar mais de duas palavras com qualquer vizinho (fora os papos nonsense com as crentes do 8º andar ou papinhos padrão de como chove, como está quente, como está frio _insuportáveis).

Vizinhos são pessoas desconhecidas que acidentalmente moram perto de você, mas isso não configura nenhum tipo de intimidade. Ao contrário, são as únicas criaturas que mesmo próximas devem se manter incógnitas para sempre. Alguns vizinhos não pensam assim, entretanto. Eu não sou tão rico e poderoso, então possuo um vizinho de porta. Basta um, aliás.

Durante um ano e meio, foi uma maravilha: ele se mudou com a família para Paris. Mas ele voltou. Voltou num sábado. No domingo, o sujeito deixou um bilhete dentro do meu jornal que estava à porta, desejando “tudo de bom” a mim e aos meus e me informando que “estava tudo bem com eles” (??). Mais adiante o bilhetinho avisava que o meu caderno de veículos havia sido retirado “porque precisamos comprar um carro”.

Veja o grau da folga do sujeito: a urgência em comprar um carro era tão grande que ele resolveu roubar um pedaço do meu jornal sem ao menos me consultar. A pressa era tamanha que ele não pôde nem ir à esquina comprar um jornal!

Bem, ok, deixa quieto, não vou me meter com esse sujeito, um dos caras mais chatos e carecas que eu conheço, Chico, o nome dele.

No domingo seguinte, o caderno de veículos não estava no meu jornal novamente. Tampouco estava nenhum bilhete explicativo.

São seres assim que me fazem feliz por um motivo simples: posso imaginar centenas de maneiras de enlouquecer a família desse cara sem que ele desconfie de nada.

Hoje chegou o primeiro jornal da nova assinatura dele, o Estadão (que tipo de gente ainda lê isso?). Retirei o Caderno 2, aquele suplemento cultural para pessoas de mais de 90 anos. Isso é só o começo. “Ah, pois não? Caderno 2? Sumiu? Que coisa… Ontem o meu caderno de veículos também não veio… Estranho, não é? Esses jornais, viu… Até logo”.

Torço para que o carro seja comprado logo para talvez murchar um pneu ali, riscar um pouco a porta ou ainda tocar música beeem alta domingo de manhã aqui (nisso, sou mestre). E a vidinha do vizinho vai se tornar tão legalzinha que ele vai querer voltar pra Paris.

Porque se vizinho fosse legal, não teria esse nome no diminutivo.

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