O HYPE MATOU O ELECTRO E SE SUICIDOU

Em 2001 pensei: uau! isso é legal, estou nessa. Havia um comportamento subversivo que dizia “oi” pra mim. Tinha glamour, mas era sujo; histriônico, mas despretensioso; tinha sexo, mas não havia amor. Perfeito porque nasceu num período de pasmaceira musical/comportamental e, devido a todas aquelas características, não foi feito para durar muito. O electro era a violência despudorada que a música pop precisava, principalmente depois de 11/9.

O fato de ser underground ajudava na versatilidade de atitudes. A capa de #1, do Fischerspooner, é o paradigma. O sexo sujo de Peaches corrói mais do que a sensaulidade oleosa e dirrty de qualquer Aguilera. A ex-go-go girl Miss Kittin de algemas, num disco em que 1982 vinha à tona, subvertia o período em que éramos crianças.

É como se os anos 80 pop-trash tivessem sido não resgatados, mas seqüestrados de um passado cada vez mais nostálgico e torturados com sintetizadores, o instrumento que se tornou arma de coerção.

O rosto de Sid Vicious no corpo de Schwarzenegger como logomarca da gravadora que reúne alguns artistas do gênero diz muito. Foda-se, é um exemplo. Entretanto, isso não resultou numa postura punk “joão-gordica”, armadilha fácil.

Do punk veio a violência, da disco vieram o exagero e o sexo _mas aqui ele é pan e bruto_ e do pop veio o formato das músicas e do comportamento _moda etc. E o que se chama electro hoje guarda poucas semelhanças ao electro de Bambaataa e Arthur Baker; o aspecto booty talvez seja a única delas, e Dave Clarke um dos poucos a explorar isso pelo menos três anos antes.

Mas tudo isso já acabou, tornou-se algo que não era. Agora é outra coisa que definitivamente já não me interessa mais. Seja porque o “conceito” se esgotou _e ele não foi feito para durar mais do que, digamos, duas temporadas_, seja devido à histeria das gravadoras que arregalaram o olho para isso e dos fãs aqui no Brasil, sempre carentes do que seguir. Isso é a conjunção perfeita para cair no ridículo.

Sim, porque aqui não basta gostar, se identificar com o electro, tem de gritar para o maior número possível de pessoas que aquilo é o máximo, “hype” e que talvez a pessoa morra se aquilo não existir *imediatamente*. É o típico caso de distorção brasileira de um gênero/banda/movimento surgido no Hemisfério Norte _veja o hip hop, por exemplo: estancou pelos motivos exatamente contrários aos dos que saturou o electro aqui, a aversão ao hype.

Se o Brasil chegou, como sempre, atrasado ao electro, pelo menos está em sintonia com a Europa no período sua, ahn, decadência (!). Mas aqui tudo foi diferente, bem menos agressivo e sexual e mais “sério” _hype é coisa séria por aqui, viu?. E foi bem menos divertido, como tudo que é engolido de uma vez sob pena de não ser “in” já.

De modo que é sintomático que o electro no Brasil tenha se tornado patético justamente pela overdose de hype que ganhou. Porque nos anos 00 estamos vendo a morte do hype como força motriz de divulgação da música, esse óleo que lubrifica a relação mercado-consumidor. Um óleo tão preto quanto os delineadores dos seguidores do electro e tão borrado quanto.

A saturação de “aclamação geral” começa a causar rejeição em todos os níveis, não só no “caso electro”. E o que se vê pela frente é um período em que o cool vai predominar, em que a histeria geral vai calar, em que alguma coisa vai ser um pouco mais autêntica pelo que é, e não porque tem o megafone mais potente.

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