JÁ OUVI ISSO ANTES

Pessoas que ouvem discos diferentes com freqüência costumam apresentar ou desenvolver distúrbios. O mais perturbador acontece quando se escuta um disco novo pela primeira vez e surge a dúvida (ou a certeza, daí o distúrbio) de que aquela música já foi ouvida antes. Mas não sabe identificar com precisão se ouviu em algum programa de rádio (online, claro); se ouviu em algum disco emprestado; ou _hipótese que pode levar à paranóia_ tem *certeza* de quem é, mas não acha a resposta nas prateleiras.

Até a solução ser encontrada, a sensação é de estar vestido com terno, cueca, camisa, meias, sapatos, cachecol e chapéu de bombril. É um incômodo que só aumenta com o passar da busca infrutífera da música perdida.

Isso tem acontecido com relativa assiduidade, principalmente quando se ouve discos de remix pela primeira vez. Sempre tem uma faixa que você já escutou. Sempre. Quando a resposta vem rápido, é um misto de satisfação e autoridade, afinal, você sabe o que está ouvindo, as chamadas referências etc.

Mas quando a memória não consegue vasculhar os arquivos correspondentes da música em questão é um suplício. Isso ocorreu ontem. Ouvia La Complainte de la Butte, no improvável álbum Entre Deux, do neo-chansonier francês Patrick Bruel. A memória registrava que aquela música havia sido escutada na voz de Rufus Wainwright. Era uma certeza pétrea, definitiva, irrevogável, absoluta.

O disco Poses do canadense foi esquadrinhado pelo menos três vezes, e nada da música. Esse é o pior e mais enlouquecedor estágio da síndrome Já Ouvi Isso Antes, porque a memória auditiva teima em cravar que era do sr. Wainwright a versão registrada previamente. Mas como, se não estava no disco dele? (observaçã: estava offline, o que significa pouca área de manobra cerebral).

Dezenas de hipóteses foram levantadas e debatidas com a espetacular dona do disco francês. Nenhuma conclusão. A certeza persistia à medida que o traje de bombril coçava, apertava e esquentava a cabeça e o corpo. Onde, por cristo, onde estava aquela música? Era o estágio da paranóia obsessiva.

Entrei na web, fiz a devida busca, e já no primeiro resultado veio a cura para o tormento pop: a tal música está na trilha de Moulin Rouge na voz dele, claro, Rufus Wainwright.

Um alívio refrescante dissolveu as vestes de bombril, libertando a agonia e gerando um sorriso com hálito puro. A tortura terminara, pude dormir em paz.

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