GÊNESIS

Rua Maria da Conceição Viana, 931. Muro baixo, com um árvore de “coração de nêgo” na calçada, jardim com uma pequena árvore onde luzes eram colocadas em dezembro, canteiros margeando a entrada com escada. Marcelo, Roberta e Juliana moravam lá. Era a casa perfeita para eles, crianças em escadinha. Silvana era o bebê temporão que acabara de chegar e que Marcelo adorava, amava, apesar de ter nascido menina (mais uma!), e não o que planejara ser o seu novo melhor amigo, um irmãozinho.

Na casa do lado direito moravam o seu Galba e a dona Maria, dois senhores que tinham o hábito de sentar na calçada e conversar com amigos da vizinhança à tarde. Tinham duas filhas, Fernanda bem mais velha do que as crianças da rua, e uma outra que morava no Rio e aparecia durante as férias escolares com as filhas, Zinha e Lana. Seu Galba tinha vários passarinhos; seu quintal era decorado com dezenas de gaiolas com bichos cantores de todas as cores. De manhã era uma orquestra. Além dos pássaros, havia Pitu, um vira-lata de meter medo em crianças pequenas.

Do lado direito à casa das aves, ficava uma mansão, onde os riquinhos Joaquim, José Augusto e Patrícia moravam. Muro branco altíssimo, com piscina, campo de futebol, Atari 2600, dezenas de papéis carta perfumados e sala de sinuca (ainda não descobri porque os mais ricos precisam ter sinuca…). A casa, de esquina, dava volta no quarteirão e só terminava na rua paralela à Maria da Conceição Viana.

Do lado esquerdo ao nº 931 moravam Leonor e o marido militar, casal pacato cujos filhos eram igualmente calmos. Tinham um TL. Vizinho a eles, estava a casa mais animada da rua. Geo era o melhor amigo, da mesma idade, moleque pouco chegado aos estudos, mas que jogava bola e fazia pipas com desenvoltura invejável. Seus pais eram Beth e Geraldo. Ela, dona de casa que adorava uma cervejinha, organizava a festa junina local, promovia sempre um réveillon agregador e fazia questão que a Copa fosse vista na casa deles. Geraldo era mais sério, advogado de anel no dedo e cabelos impecavelmente penteados, mesmo depois de chegar do trabalho de ônibus. Guiga era o filho mais velho, adorado por todos, com um senso de humor encantador e, muitas vezes, mais esperto do que Geo. Abraçava e beijava quem quer que fosse, numa genuína demonstração de afeto. Tinha cabelos loiros e lisos, quase o oposto de Geo, de carapinha castanho-escuro. Guiga sempre acordava mais cedo, fazia o café da manhã e era conhecido por comer muito ovo. Todo mundo fazia festa para Guiga, que ocorreu ter nascido com Síndrome de Down.

Mais adiante, ao lado da casa de Geo, moravam Camila e sua irmã, cuja mãe era uma barraqueira de marca maior, dessas de sair correndo pela rua com chinelo na mão para bater nas meninas. Dona Iraci morava na casa ao lado. Senhora simpática, se não me engano viúva, tinha adotado Paula, mais ou menos da mesma idade das crianças.

Denise era a mãe carioca de Henrique, Nina e Diana, mais conhecida como Popota, vizinhos de dona Iraci. Os filhos, muito amigos das crianças, não eram bem vistos pelos pais. Henrique era arruaceiro, um semi-marginal. Nina, a filha mais velha, tinha fama de vadia, gostosa que era. Sempre de shortinhos a provocar com sua pele morena e seus papos sacanas. Popota, a caçula, era igualmente safada, apesar de magra e feia. Era impressionante a quantidade de vezes que Henrique apanhava da sua mãe _muito mais do que Geo apanhava de Beth; as melhores surras que Geo levava coincidiam com a chegada do boletim cheio de notas vermelhas. Nina também levava as suas, mas isso durou até os 15 anos, quando ela se tornou mãe.

Na esquina, vizinha de Denise, morava Juninho, criança mais nova que as demais e tido como baitola e, por isso, alvo de brincadeiras de todo o tipo.

Todas essas casas ficavam do mesmo lado da rua. No lado oposto só havia duas casas: a do procurador assasinado na padaria Pedro Jorge de Melo e Silva, a mulher e suas filhas, Roberta e Bianca, que moravam na esquina em frente à casa de Juninho. A outra ficava em frente à casa de Geo e era uma beleza. Lá morava Carminha, o marido e os filhos, mais velhos do que as crianças da rua. Donos da papelaria C. Matias, tinham uma casa “boa”, muro alto e piscina onde as crianças brincavam de vez em quando. Dois grandes terrenos baldios preenchiam o restante do outro ladao da rua.

Eram nessas áreas de mato e pés de mamona que Marcelo e Geo, mas principalmente Marcelo, se divertiam incendiando o mato e palhas de coqueiro e algum lixo, uma beleza de material inflamável.

A rua era bastante apropriada para as crianças porque não era asfaltada. A areia era o piso ideal para jogar bola (de futebol ou de gude) e também para atolar carros em dias de muita chuva.

Foram anos incríveis, memoráveis, os primeiros anos das vidas dessas crianças.

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