CHOQUE DE MODERNIDADES

Clarah Overbook e Fernanda Iângui, as escritoras mais tatuadas do Brasil, se encontram no saguão de Cumbica, por onde começaram a passar com mais freqüência desde que começaram a falar mais de si mesmas, oops, desde que lançaram livros. Ambas não se dão bem, já que o ego de uma não suporta o da outra. Aliás, os egos de ambas são suficientes para toda a humanidade. O único pronome pessoal do caso reto que conhecem é Eu. Não houve oportunidades para que o Tu, Eles e, principalmente, Nós, fossem apresentados às moças um tanto deficientes nesse sentido.

Por serem deficientes intelectuais, não enfrentaram a fila do check-in e se juntaram às grávidas e deficientes físicos. Pior: se encontraram pela primeira vez.

CO: Oi, querida. Eu sou mais jovem do que você e ainda tenho cabelos pintados… Ai, desculpa, você é careca, né?

FI: Poizé, meu amor, mas eu li clássicos da literatura mundial que você não teve tempo de ler, afinal você diz que é tão jovem, né?

CO: Claro, hahahaha. Sou mesmo, isso deve incomodar muita gente. Porque além de jovem, tenho piercing, tatuagem e cabelo rosa, quer mais juventude do que isso?

FI: A idade chega para todas… Mas o mais importante é que eu não só escrevo livros. Apresento um programa revolucionário na TV, com mulheres muito mais inteligentes do que você, incluindo eu mesma.

CO: Aquilo lá é um lixo! (deixa cair a garrafa de vermute que levava na bolsa.) Mulheres decadentes que nunca leram Herman Hesse, Bukowski, Leminski. Li todos. Adoro todos, são mestres. Não essas referências de gente velha, como você, que diz que Machado de Assis é legal. Eu sou marginal, sacou?

FI: Filhinha, eu também sou punk, sou tatuada, mostro isso na cara de todo mundo, sou uma mãe tatuada. Mãe de gêmeos, você está me entendendo? E sou muito bem resolvida financeira e sexualmente. Sou uma mulher rica, poderosa,  moderna, estou na campanha da Ellus _ou seja, tenho esse lado fashion que acho que precisa ser mais explorado_e tenho um marido maravilhoso que paga as minhas contas. E você? Tem onde cair morta?

CO: Tenho os malditos do meu lado. Tenho os beats na cabeceira da minha cama, que é um ótimo lugar para cair morta. Ter ou não onde morar é uma circunstância que eu encaro como um desafio da mulher moderna e de cabelos rosa.

FI: Escutaqui, sua vaca, você acabou de lançar o seu primeiro livro. E ainda por cima pela Conrad! Quem é você para falar comigo que estou na mídia há muito mais tempo do que você?

CO: Vaca é você, sua piranha de casamento arranjado. Arcaica! Nojenta! Vou acabar com sua raça com essa garrafa de vódega. (Era outra mesmo.)

FI: Sua bêbada, sai daqui. Segurança! Socorro! Eu sou mulher de publicitário,  e essa sem-teto está me roubando!

CO: Sua piranha… Eu sou escritora, o que vocês estão olhando? Escritora! Máquina de Fliperama é o meu livro, entendeu? Meu livro. Eu faço o que quiser!

E então funcionários da Infraero terminaram com o tumulto mais tatuado que Cumbica já presenciara, antes que os piercings das duas escritoras se enganchassem e transformassem as duas nas primeiras escritoras tatuadas siamesas do Brasil…

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